Bye, bye, fogão

Sem tempo, sem empregada e atraídos
pelos preços, consumidores apelam ao trivial
variado: pratos prontos ou restaurantes

Aida Veiga

Montagem sobre fotos de Marcelo Zocchio

A imagem risonha e feliz do domingão tradicional, aquele do almoço da matriarca com filhos e netos reunidos à volta da mesa, está virando um retrato na parede. Atropelada pela correria da vida urbana e pelos novos hábitos de consumo, ela vem cedendo diante de outros dois cenários. Um, o dos filhos, que acham uma chateação ter de, justo no domingo, o mais completo dia de folga, pegar o carro, ir para a casa da mãe, ajudar a pôr e tirar a mesa. Outro, o da própria mamma, que reclama da trabalheira, montes de panelas para lavar, netos enjoados que não comem nada. É para evitar essa canseira que o advogado paranaense Lúcio Neto almoça diariamente em um restaurante por quilo com o pai, médico aposentado. Por prazer e por conveniência, o casal gaúcho Rejane e Luiz Fernando Ehlers janta fora pelo menos quatro vezes por semana e, vira e mexe, pede comida por telefone. E, para agradar à turminha e passar um tempo juntos, a bancária Suely Pacheco tem programa certo nos sábados paulistanos: levar os três filhos ao McDonald's. Nas mais diversas frentes, um exército de fregueses com o mesmo perfil está engordando o caixa de restaurantes em todo o país e promovendo uma revolução na indústria de alimentos.

Codorna ao molho
rôti e cogumelo:
cardápio diferente
Fotos: Marcelo Cabral/Produção: Lucila Paes de Barros  

Faz muito tempo que comer fora deixou de ser programa de Dia dos Namorados ou de aniversário e virou necessidade. Em média, o brasileiro faz uma em cada quatro refeições fora de casa. Resultado: o número de restaurantes aumentou, em sete anos, de 400.000 para 756.000. O salto agitou cidades afastadas do circuito turístico, como a mineira Uberlândia (83 restaurantes em 1993, 250 agora), a paulista São José dos Campos (218 em 1995, 319 agora), a gaúcha Caxias do Sul (45 em 1995, 135 agora) e a paranaense Londrina (cinqüenta em 1988, 210 hoje). O cardápio, se na maioria dos casos ainda não garante deleites gastronômicos, também anda mais caprichado que o ruim e velho prato feito. Na tentativa de manter o consumidor fora dos restaurantes, mas sempre longe do fogão, o setor de alimentos industrializados se desdobra em novidades. "A indústria está fazendo o que a mulher sempre fez: conquistando pelo estômago", diz Ricardo Santos Neto, um dos organizadores da Feira Internacional de Alimentação, gigante que, em sua 14ª e maior versão, apresentou 42.300 novos produtos de 2.543 expositores em São Paulo, no começo do mês.

Filé à parmigiana: novas
técnicas aposentam o
velho tempero de hospital

Fenômeno nacional — Economia de tempo é, de longe, o tempero predominante desse banquete a léguas da cozinha doméstica. Outros são a dona de casa que foi trabalhar fora e a empregada que está sumindo das casas da classe média. O toque final foi dado com a explosão de consumo que se seguiu ao real — não por sobra de caixa no bolso do consumidor, mas porque os preços caíram e a competição se acirrou. O rei desses novos tempos culinários tem nome conhecidíssimo: restaurante por quilo, um fenômeno nacional que agrada ao bolso (muito), aos olhos e ao estômago (nem tanto). Difícil saber quem é o pai dessa moda. Aberto em 1986, o Meio Quilo, de São Paulo, reivindica o papel. "Trouxe a idéia de Berlim", garante o proprietário, Carlos Frank.

O quilo simplificou tudo: a cozinha, que só prepara certo número de pratos; o serviço, que aboliu a figura do garçom; o tempo, já que cada um se serve imediatamente do que quer; e o preço, que elimina couvert, gorjetas e sobras. Também simplificou o sabor dos acepipes, mas não se pode ter tudo. O resultado dessa reengenharia é impressionante. Em Curitiba, por exemplo, onde quatro anos atrás havia 150 restaurantes, hoje existem 650, sendo 70% por quilo. O sucesso da fórmula criou uma multidão de conversos. "Quem não se adapta não consegue enfrentar a concorrência", afirma Ademar do Carmo, dono do restaurante japonês Aoi, de São Paulo, que acaba de trocar o serviço à la carte pelo bufê. "O sujeito acostuma-se a almoçar fora e, nos finais de semana, quer levar a família também", analisa Jair Pinto, dono do Couve-Flor, pioneiro do gênero na Zona Sul do Rio de Janeiro, freqüentado por globais como o casal JN William Bonner e Fátima Bernardes.

Puchero, o cozido à moda
da Espanha: congelados
invadem os supermercados

À noite, as pessoas ainda preferem ir a um restaurante convencional, ser servidas por um garçom e comer sem correria. Mesmo aí, a influência do quilo e de seu primo mais velho, o bufê a preço fixo, se faz sentir. "Todo mundo teve de baixar o preço", constata o chef francês Claude Troisgros, dono de um sofisticado restaurante com seu nome no Rio. "Em compensação, ganhamos um cliente mais jovem, que antes não freqüentava casas como a nossa." Nesse cardápio variado de motivos para comer fora, o prazer da boa mesa também ganhou mais peso. Embalado pela abertura das exportações, a chegada dos cozinheiros franceses e a capacidade de adaptação dos profissionais locais, o paladar dos freqüentadores de restaurante vem se sofisticando.

Quilo em família — Comer bem, experimentar novos pratos e sonhar com receitas instigantes são exercícios que ultrapassam as paredes dos restaurantes. Culinária virou hobby e é assunto de conversa — inclusive em sua versão mais enxuta, a comida diet — em qualquer lugar onde alguma fatia da população disponha de conta bancária razoável e supermercados bem abastecidos. Mas o cozinheiro diletante em geral só brinca de casinha: põe avental, abre uma garrafa de vinho e diverte-se com uma receita exótica. No dia-a-dia, os muito ocupados ou comem fora ou pedem comida pronta. Não só a tradicional pizza — vale também comida italiana, chinesa e até japonesa, precedidas do inevitável delivery, o serviço de entrega subordinado à expressão americana. "O delivery é um dos setores com maior potencial de crescimento", aposta Edmundo Klotz, presidente da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação. No Rio, restaurantes chiques como o Troisgros, o Guimas e o Siri Mole levam à casa do cliente seus pratos mais sofisticados. "É mais barato do que convidar os amigos para comer fora e pagar a conta", diz Agda Pereira, dona do Siri Mole. O grande concorrente do serviço de entrega são os supermercados, que abarrotam as prateleiras de novos produtos, comida congelada e refeições semiprontas (veja reportagem). Pelas mesmas razões — rapidez, preço, eficiência —, as praças de alimentação dos shopping centers andam cada vez mais lotadas. São as crianças, principalmente, que empurram os pais para lá. "Elas são os maiores geradores de tráfego nas cadeias de fast foods", afirma Guilherme Affonso Ferreira, diretor-presidente da Arby's.

Hamburguinho de
frango: para as
crianças, pratos sem
corantes e com pouco sal

Até restaurantes tradicionais adoçam a boca do público mirim com áreas de lazer, fraldário e menus especiais. O Brasil não é a França, onde a presença de um petiz num restaurante mais chique provoca gélidos olhares de terror, mas até poucas décadas era relativamente raro o casal que levava os filhos para comer fora. Herdado dos portugueses e reforçado pelos italianos, o hábito de reunir a família na hora das refeições foi mudando com o passar do tempo. Nos primeiros anos de Brasil, brancos e índios comiam no chão, sentados em esteiras. No século XVII, o chefe da família, e só ele, passou a ser servido à mesa. Com o tempo, a mulher ganhou um lugar, enquanto as crianças comiam em um canto da sala. Só no fim do século passado os filhos pequenos acabaram incorporados, assim mesmo quando não havia visitas por perto. "Toda a família reunida em torno da mesa é um fenômeno do nosso século", analisa Nina Horta, especialista em gastronomia na escrita e na prática. Nos últimos anos, porém, com a decadência do ritual da macarronada em família, o centro de reuniões está se deslocando. Há um ano, os Müller, de Caxias do Sul, almoçam todo dia no restaurante — por quilo, naturalmente — do clube. É quando conversam e discutem assuntos domésticos como se estivessem em casa. "Podemos até bater papo com um ou outro amigo, mas almoçamos mesmo em família", diz Francisco, cercado pela mulher e filhos. Para os Müller, assim como para os brasileiros sem tempo e vontade de cozinhar, a mesa da sala de jantar mudou de endereço.

A invasão dos alienígenas

Agrião precoce, alface
mache, tomate longa
vida: salada moderna

O paladar dos consumidores brasileiros está sendo atiçado por todos os lados. Verduras e legumes diferentes, saladas prontas ou pré-lavadas, temperos exóticos, refeições em bandejas ou servidas no balcão, congelados, supergelados, pratos especiais para crianças — uma profusão de cardápios diferentes e ingredientes primorosos anda invadindo as prateleiras das grandes redes de supermercados. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Supermercados, Paulo Afonso Feijó, a febre de novos produtos começou há quatro anos, no rastro da estabilização da economia, e de lá para cá o setor cresceu 65% em volume de vendas, pulando de um faturamento de 29 bilhões para 48 bilhões de dólares.

"Antes, o consumidor via seu salário corroído pela inflação e o produtor só corria atrás do prejuízo. Hoje a preocupação é com a eficiência. Por isso os produtores estão investindo mais em novidades", analisa Feijó. Uma pesquisa feita em 1997 pela ACNielsen confirma o furor da diversificação. De 150 categorias de produtos, a de alimentos foi a que mais apresentou novidades, tendo como campeão um arremedo de comida, os salgadinhos para aperitivos, com 1542 lançamentos. O Carrefour, a maior rede de supermercados do país em volume de vendas, confirma que suas prateleiras estão cada vez mais abastadas. Há dez anos, o setor de mercearia tinha cerca de 1.500 itens alimentícios. Hoje, são 5.000 a 6.000.

Cogumelo salmão,
salsa
e cebolinha:
visual diferente

É na seção de hortaliças que se respira a plenos pulmões o frescor da diversificação culinária. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação, em 1992 o volume de importação de alimentos no Brasil foi de 2 bilhões de dólares. No ano passado, esse valor saltou para quase 6 bilhões de dólares. Assim, na esteira da endívia, do radicchio e da cenoura baby, estão vindo a alface mache (pequena e escura), a endívia roxa, o tomate rama cereja (em cacho, como as uvas) e temperos frescos, como o shiso purple, que inovam molhos de saladas. Entre as novidades nacionais, agradam ao paladar e aos olhos a berinjela branca, o pimentão verde-limão, as flores — isso mesmo, flores — de capuchinho e de pepino, o cogumelo salmão, além de duas espécies de tomate, o pêra amarelo e o caqui longa vida, que, segundo os produtores, agüenta firme até quarenta dias fora da geladeira. De olho no apelo ecológico, alguns produtores de palmito inovam trocando o plantio da espécie juçara, vendida em conserva, pelo da pupunha, comercializada fresca, para saladas. "A palmeira do juçara, que leva dez anos para crescer, é totalmente devastada durante a colheita. Já a pupunha se mantém reprodutiva por até 25 anos", explica o empresário do setor Georges Schnyder Júnior. Outros produtos, modificados nutricionalmente, agradam à turma da comida saudável. Entre cardíacos e hipertensos, vêm-se insinuando um ovo especial, enriquecido com vitaminas e nutrientes, e a carne de porco "light", com teor de gordura 31% menor do que o bicho convencional e redução de 10% no índice de colesterol.

Endívia roxa, limão siciliano (acima),
tomate-pêra, rabanete holandês: sabor colorido

Para as grandes indústrias, o maior filão é o das comidas congeladas e semiprontas. Por meio de técnicas modernas de supercongelamento e de desidratação, o velho tempero com jeitão de hospital foi trocado por pratos que exigem dedicação de quituteira no preparo, como bacalhau, vatapá, galinha de cabidela, puchero e risotos. Nem assim os congelados convencem? Pois cozinheiros badalados produzem comida pronta para revenda nos supermercados, como o cuscuz de camarão preparado pelo paulista Toninho Mariutti e distribuído na rede Pão de Açúcar. Faz sucesso também a linha Kids, para crianças, sem corantes ou conservantes, com pouco sal e pouca gordura. No supermercado Paes Mendonça, o sucesso do balcão é o sushi preparado na hora. Das novidades, o maior furo n'água até agora foram as frutas exóticas colombianas. Exóticas demais. "Fizemos até degustação ao som de um conjunto folclórico da Colômbia, mas elas não se adaptaram mesmo ao paladar brasileiro", explica Samir Bou Moughalabie, gerente do Paes Mendonça.

Lidice-Bá

Com reportagem de Daniella Camargos,
de Belo Horizonte, Luciano Pastzsch,
de Curitiba, Lucila Ribeiro, de Porto Alegre,
e
Roberta Paixão, do Rio de Janeiro




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