Menores a bordo

Férias à vista: tchau, mamãe; adeus, papai.
E lá se vão as crianças viajar sozinhas

Foto: Antonio Milena
As irmãs Carolina, 11 anos, e Juliana, 9:
malas prontas para Disney World

Foram-se os tempos em que os pais viajavam de férias e deixavam os filhos em casa. Agora, acontece o inverso: a criança pega o avião e parte, feliz da vida. Papai e mamãe ficam roendo as unhas e dando adeus no aeroporto. Em julho, com as férias escolares, o êxodo dos menores desacompanhados atinge seu apogeu: oito em cada dez crianças e adolescentes com passagem marcada para a aventura vão embarcar sozinhos. É um time respeitável, que engrossa o número crescente de brasileiros com destino ao exterior — neste ano, vai passar de 1 milhão o número de turistas só nos Estados Unidos. Nas três maiores agências de turismo para o público infanto-juvenil, Stella Barros, Dimensão e Tia Augusta, voarão sem pai nem mãe nestas férias 11.000 turistas entre 9 e 17 anos, a maioria para a Flórida.

Disney World é justamente o destino de Juliana de Alencar Libório, 9 anos, que está louca para se ver dona do próprio nariz. Ela e a irmã, Carolina, 11, embarcam em excursão, com mais 38 crianças. "Quero conhecer um monte de gente", planeja Juliana. A mãe, Marilda, disfarça, mas não está muito tranqüila. "É impossível não ficar apreensiva", confessa. Ser mãe é se preocupar, mas as agências tentam evitar contratempos com guias veteranos, capazes de circular de olhos vendados pelo castelo da Branca de Neve, além de reuniões preparatórias e um médico para cada grupo. Mesmo assim, sempre tem uma amigdalite aqui, uma criança perdida ali. Rejane Lourenço, 44 anos, coordenadora da Dimensão, já teve de resgatar duas garotinhas, flagradas surrupiando quinquilharias em uma loja americana. "Consegui que fossem liberadas logo", lembra. A viagem independente pode produzir exemplos mais edificantes. A caminho de Vancouver, no Canadá, no ano passado, o estudante Marcelo Negrini, de 15 anos, desceu por engano em Calgary, uma escala antes. Arranhando espanhol, conseguiu embarcar em outro avião e chegar a seu destino. Virou o herói da família? Em termos. Neste ano, sua irmã Cristiane, 12 anos, viaja para a Flórida — em excursão, com guia, médico e todas as garantias.

As dores da adaptação

Com o aumento do turismo júnior, também cresce o interesse pelos programas de intercâmbio, em que adolescentes passam um período de cinco ou dez meses morando em outro país, com uma família estranha, e estudando em outra língua. Em 1997, a Brazilian Educational & Language Travel Association, que reúne dezoito empresas da área, embarcou 5.000 estudantes. Neste ano, prevê despachar entre 7.000 e 8.000.

Apesar de inúmeros preparativos, os choques são inevitáveis. As cidades em geral são minúsculas e o padrão de vida dos anfitriões nem sempre é aquele a que os mimados brasileirinhos estão habituados. Em 1997, Daniel Coutinho, 16 anos, classe média alta, foi morar em Canfield, Canadá — cidade monótona, casa velha, quarto sem aquecimento, comida ruim, "nada como eu esperava". Mas gostou da família e decidiu ficar. "Aprendi muito", garante. Já Daniel Ribeiro, que em 1996, aos 16 anos, instalou-se em Olathe, nos Estados Unidos, pôs em prática lá mesmo a iniciativa que todo intercambista, em teoria, aprende a ter: não se adaptou à família, arranjou outra e se mudou. "Foi um alívio", diz.

Dagmar Serpa




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