Exército da prevenção

Como 55.000 agentes de saúde estão melhorando
a vida de 41 milhões de pessoas em todo o país

Esdras Paiva

Foto: Liane Neves
Os agentes de saúde do governo em ação :
passeio com idosos em Porto Alegre e
atendimento em casa em Brasília

Foto: Ana Araujo
No Brasil, as pessoas se acostumaram a atribuir os problemas da saúde
pública exclusivamente à falta de dinheiro da rede hospitalar. De acordo com essa visão do problema, o atendimento à população é deficiente porque, com recursos escassos, acaba faltando dinheiro para construir e equipar hospitais, comprar remédios e pagar salários decentes aos médicos. É claro que, num país como o Brasil, o dinheiro para os hospitais é curto. Mas a população carente poderia estar mais bem atendida se, em vez de dedicar atenção quase exclusiva aos hospitais, o governo investisse com mais determinação em dois projetos tão simples quanto fabulosos desenvolvidos desde o início da década. Trata-se dos programas Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde, que beneficiam mais de 40 milhões de pessoas pobres. Pouco a pouco, sem produzir alarde, e com menos recursos do que deveriam estar recebendo, os dois programas federais estão provocando uma pequena revolução nos indicadores sociais no país. Poderiam estar fazendo muito mais se fossem ampliados.

Esses programas, seguindo modelos do exterior, foram surgindo aqui e ali, em iniciativas isoladas, em cidades como Quixadá, no interior do Ceará, e Niterói, no começo da década. Aos poucos, foram sendo encampados por governos estaduais e, finalmente, pelo governo federal. O Saúde da Família já chegou a 705 municípios. Ele funciona basicamente em vilarejos do interior e nas periferias das grandes cidades. Em cada lugar há uma equipe com um médico, uma enfermeira, um auxiliar de enfermagem e cinco agentes comunitários. O trabalho de cada turma é cuidar de um grupo de famílias, acompanhando de perto seu estado de saúde, ajudando a prevenir as doenças mais comuns e evitando que as pessoas procurem os hospitais sem realmente precisar. "O programa leva o atendimento para perto das comunidades, simplifica a vida das pessoas e descongestiona a rede hospitalar", explica o ex-ministro da Saúde Adib Jatene, um entusiasta da idéia. "Ele mostra que a maior parte dos problemas pode ser resolvida sem que as pessoas tenham de entrar numa fila de hospital." O custo do programa, cerca de 1 bilhão de reais por ano, representa menos de 5% do orçamento federal da saúde neste ano. Pelos resultados que produz, é uma ninharia.

Modelo cubano — O efeito mais espantoso do programa foi derrubar as estatísticas de mortalidade infantil nas regiões atendidas. No Nordeste, ele ajudou a reduzir os índices quase à metade. Outro efeito foi diminuir drasticamente o número de internações nos hospitais da rede pública (veja gráfico ao lado). Em Quixadá, 1120 crianças com menos de 4 anos de idade foram internadas nos hospitais da cidade em 1994. Dois anos depois, com o programa em pleno funcionamento, apenas 41 crianças precisaram ser atendidas, redução de 96%. Em Camaragibe, município da região metropolitana do Recife, a morte de crianças por diarréia era comum até algum tempo atrás. Os agentes de saúde entraram em campo em 1994, e desde então as autoridades da cidade só registraram dois casos desse tipo. Nos 106 municípios cearenses que adotaram a idéia, 28% das crianças não estavam vacinadas contra o sarampo em 1994. Hoje, não há nenhuma sem vacina. Em Brasília, os agentes também ensinam as crianças a escovar os dentes e fazem aplicação de flúor para evitar cáries. Em Goiânia, as equipes são treinadas para destruir focos do mosquito transmissor da dengue.

O programa Saúde da Família é inspirado na experiência de Cuba, onde médicos e agentes comunitários há décadas cuidam do atendimento a pequenas comunidades. Outros países também adotaram esse modelo. "No modelo tradicional, os centros de saúde esperam a vinda dos pacientes", diz a sanitarista Heloísa Machado, coordenadora do programa Saúde da Família no Ministério da Saúde. "Com este programa, os agentes e os médicos vão às ruas em busca deles."

Exército silencioso — Na base do sucesso da iniciativa está o trabalho dos agentes comunitários de saúde. Eles formam um exército de 55.000 pessoas, que atendem 41 milhões de habitantes, em 2.200 cidades. Na maioria desses lugares ainda não há equipes de Saúde da Família, mas os agentes alcançam bons resultados mesmo agindo sozinhos. Contratados dentro das comunidades que atendem, eles mapeiam os problemas de saúde existentes na região e orientam o trabalho dos médicos da rede pública. Além disso, pesam as crianças para identificar sinais de desnutrição e combatê-los a tempo, distribuem remédios a pacientes que precisam de tratamento prolongado e ajudam a prevenir doenças, ao difundir informações sobre prevenção. Em Itaquera, bairro da periferia de São Paulo, onde os agentes chegaram há menos de dois anos, havia muita desinformação entre as mulheres grávidas e 90% só tinham uma consulta médica antes do parto. Agora, 65% das gestantes passam por no mínimo cinco consultas antes de dar à luz. O governo está prometendo que vai ampliar o programa, contratando 45.000 novos agentes de saúde em todo o país. A idéia é passar a atender 75 milhões de pessoas, o equivalente a 46% da população brasileira.

Com reportagem de Juliana De Mari, do Recife




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line