O supertelefone

Numa operação bilionária, a Iridium lança
o celular por satélite de alcance mundial

Thales Guaracy

Imagine um celular sem limites geográficos. Um que permitisse fazer ligação de qualquer lugar do planeta, até mesmo naqueles onde os celulares comuns não funcionam. E que pegasse tão bem no Rio de Janeiro quanto na subida da serra entre São Paulo e Curitiba, numa fazenda do Pantanal ou, como nas propagandas de cigarro, a bordo de um jipe nas areias do Deserto do Saara? Pois isso em breve poderá deixar de ser mero devaneio. O celular mundial vai entrar em operação no dia 23 de setembro e marcará o início de uma nova era na comunicação entre pessoas. Para fazer o sistema funcionar, dezenas de empresas no mundo inteiro, lideradas pelo fabricante de rádios e celulares Motorola, associaram-se para formar uma companhia de proporções planetárias chamada Iridium. Com investimento de 5,2 bilhões de dólares e quase uma década de trabalho, a Iridium levou a cabo o plano de lançar ao espaço 66 satélites, que vão recolher os sinais de aparelhos celulares especiais no mundo inteiro. Esses celulares, pouco maiores que os atuais, foram desenvolvidos para funcionar como celulares comuns em ligações locais. Nas outras regiões, onde o sinal não chega, podem ser engatados numa antena capaz de entrar em contato direto com os satélites da rede Iridium. A partir desses satélites, os sinais são retransmitidos para centrais de telefonia celular convencional ou para um outro telefone em qualquer ponto do globo terrestre. Dessa maneira, uma pessoa que esteja, por exemplo, no meio da Floresta Amazônica poderá conversar com outra situada no Pólo Norte ou no topo do Monte Everest.

Ninguém sabe ainda ao certo qual é o potencial desse mercado. A Iridium espera vender pelo menos 120.000 desses aparelhos no mundo já neste ano. Ao contrário do que ocorre em outros setores, o maior filão não parece estar nos Estados Unidos ou em outros países onde a telefonia celular é mais avançada, e sim justamente naqueles em que o número de telefones e as áreas de cobertura são insuficientes. Como a China. Ou o Brasil. "Nosso negócio é muito ambicioso em todos os sentidos", diz o diretor de marketing e vendas da Iridium no Brasil, Ricardo Woitowicz. Na semana passada, a empresa fez o lançamento mundial de sua campanha publicitária, que começa no Brasil nesta segunda-feira, dia 22, a um custo mundial de 140 milhões de dólares. Mesmo sem ter os telefones em funcionamento, a empresa já possui no Brasil 23.000 inscritos, que se interessaram pela compra do celular planetário. Ele poderá ser escolhido entre duas marcas — da própria Motorola ou da Kyocera, uma empresa japonesa. Ao preço que está sendo sugerido pela empresa aos seus revendedores, o aparelho do sistema Iridium deve custar 3.000 dólares no mercado americano e 3.800 reais no Brasil. Além de comprá-lo, o cliente terá de pagar 300 reais pela habilitação.

Os preços das ligações também são diferentes e obedecem a uma tabela complicada. Dependem do lugar de onde é feita a chamada e do território onde o aparelho é registrado. Se um assinante que comprar o celular mundial em São Paulo estiver em Belo Horizonte e fizer uma ligação para Paris, por exemplo, pagará o preço da ligação normal Belo Horizonte-São Paulo-Paris (cerca de 2 reais por minuto), mais 1,75 real. Isso quer dizer que a ligação pelo sistema Iridium deverá custar cerca do dobro da de um celular normal. Em uma área fora de cobertura (uma fazenda no Pantanal, por exemplo), a tarifa é estimada como se houvesse celular convencional por lá, mais a taxa extra. Para funcionar nessas condições, o celular deve ser conectado à antena que faz a ligação com o satélite, muito mais poderosa que as convencionais. Dessa forma, é possível enviar o sinal aos satélites do sistema, que se encarregam de retransmiti-lo ao destino desejado por meio de uma das onze centrais criadas pela Iridium em todo o planeta — as Gateways. Essas portas de entrada reenviam o chamado para centrais de telefonia comum, como as da Telesp, em São Paulo, ou centrais digitais, como as da BCP. Para fazer a rede funcionar, a Iridium criou as Gateways graças a parcerias regionais. Na América do Sul, essa ligação entre o sistema planetário e a telefonia convencional será feita pela empresa Iridium SudAmerica, que tem como sócios a empresa de investimentos paranaense Inepar, a Motorola e a Telecom Italia.

Desafio tecnológico — Por trás dessa operação comercial, está uma das maiores aventuras já empreendidas na área da tecnologia. Ela começa por uma verdadeira corrida espacial, agora liderada por empresas privadas. Somente no ano passado, a Iridium foi responsável pela metade dos lançamentos de satélites no mundo. Foi como se fabricasse um satélite novo a cada 25 dias. Existem outros consórcios com satélites a caminho do espaço. Somente a Microsoft, que tem um plano de formar uma rede espacial para facilitar o tráfego de informações pela Internet, está formando um fundo de capitalização para lançar 288 satélites nos próximos anos.

Junto com isso virá um considerável avanço tecnológico. Há muito tempo existem telefones ligados a satélites que podem funcionar em qualquer lugar do mundo, mas até agora nenhum cabia no bolso do paletó. A razão é simples. Os satélites de comunicação ficam parados no espaço em relação à Terra, a uma distância de pelo menos 20.000 quilômetros. Por isso, o telefone precisa de uma antena capaz de direcionar o sinal para o lugar onde ele está. Isso só pode ser feito com o auxílio de uma máquina quase do tamanho de um videocassete. O que torna possível o celular mundial da Iridium não é a evolução do aparelho, mas o satélite. Os bólidos espaciais enviados pela empresa ao espaço ficam a uma altitude muito mais baixa (780 quilômetros) e são facilmente alcançados pela antena de apoio. Além disso, não são geoestacionários. Ao contrário, movimentam-se em alta velocidade: cada um deles dá uma volta ao redor do planeta em apenas quatro horas. Numa chamada mais longa, o satélite que está de passagem se encarrega de enviar o sinal de um telefonema a outro satélite que vem atrás, de forma a não deixar que a ligação caia. Com seus 66 satélites, a Iridium estima que poderá atender 2 milhões de ligações simultâneas.

Para o pagamento das contas, será empregado um sistema de compensação semelhante ao dos cheques no sistema bancário. O dono do telefone paga o total da conta para a empresa de celular, que pode ser a Iridium do Brasil ou outra concessionária. Ela se encarrega de pagar a parte que corresponder ao uso da rede de telefonia celular do outro parceiro. Até setembro, o sistema será testado por um grupo de pessoas escolhidas pela Iridium em vários lugares do planeta. É a prova dos noves não somente para o desafio tecnológico como para uma operação inédita no mundo dos negócios. Ao contrário das empresas que nasceram em um país e cresceram até se tornar multinacionais, a Iridium é a primeira empresa formada multinacional desde sua origem. Seu maior sócio, a Motorola, tem apenas 20% de participação. O restante das ações está espalhado entre investidores do mundo inteiro, que formaram uma parceria de exploração do espaço da mesma forma que os governos de vários países estão se juntando para construir a próxima estação orbital que substituirá a Mir. Os principais dirigentes da Iridium são ex-executivos da Motorola que hoje estão colocados diante da consumação de um plano que surgiu na empresa quase como uma idéia de malucos. Hoje, as coisas parecem bastante diferentes. A Inepar, que comprou por 34 milhões de dólares sua fatia de 2,6% das ações mundiais da Iridium em 1993, vê com um sabor especial a chegada do início das operações. "Pelas cotações de abril, nosso investimento já estava valendo mais de 200 milhões de dólares", diz o diretor de comunicação e marketing da Inepar, Marcelo Cattani. Por essa conta, a Iridium já seria uma empresa de pelo menos 7 bilhões de dólares. Como se vê, o telefone planetário já está bem longe de ser coisa de ficção.

O aparelho

O pager Iridium, o celular em sua última versão, e outra, experimental, com a antena para transmissão via satélite acoplada: para qualquer lugar do mundo


 
 






Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line