Argentina

Crime sem fim

Com Videla de novo na prisão, reabre-se
a ferida das crianças seqüestradas

Anistia, indulto, ponto final. A Argentina já tentou de tudo para apaziguar os militares que, com a redemocratização, voltaram aos quartéis mas continuaram no comando dos tanques. Em outros países latino-americanos saídos de ditaduras, funcionou. Na Argentina, porém, uma ferida profunda não consegue ser cicatrizada: o seqüestro de crianças nascidas no cativeiro e muitas vezes entregues aos assassinos de seus pais. Entre todas as atrocidades da guerra suja, nenhuma é mais imune ao remédio do esquecimento. Esse câncer foi reaberto há duas semanas, com a prisão do ex-presidente Jorge Rafael Videla, o general que liderou o golpe militar de 1976, para responder pelo seqüestro de cinco crianças nascidas em centro de tortura no período em que era comandante do Exército. Videla já tem intimidade com o cárcere — foi condenado à prisão perpétua em 1985 e indultado cinco anos depois. Voltou a ele porque um juiz argumenta que o roubo de crianças é um crime que se perpetua no tempo e não está incluído no perdão.

A alegação da Justiça é de que a abominável estratégia de entregar à adoção os bebês das prisioneiras, que eram trucidadas logo após o parto, foi arquitetada pelo alto comando da ditadura. Pelos levantamentos possíveis, calcula-se que 200 crianças nasceram nos porões da ditadura. Só 55 já foram localizadas. Dessas, três dezenas acabaram entregues a suas famílias biológicas, com a ajuda das Avós da Praça de Maio, a incansável organização de direitos humanos formada por pessoas cujos filhos e netos desapareceram durante a repressão. "Não se pode estabelecer a paz por decreto", disse a VEJA Alba Lanzillotto, uma das avós da Praça de Maio. "Só se alcança a paz com a justiça."

Tragédia familiar — Alba acredita ser tia de Carolina, hoje com 22 anos, uma das crianças por cujo seqüestro Videla foi para a cadeia (veja quadro). Carolina e o menino Pablo foram adotados pelo médico militar Norberto Bianco. Quando o caso se tornou público, ele fugiu com as crianças para o Paraguai. A nova face da tragédia é que os jovens se recusam a deixar a família adotiva. Reparar os pecados do passado é tão complicado quanto localizar e reintegrar as crianças seqüestradas. No início da década, os gêmeos Gonzalo e Matías Reggiardo Tolosa, já adolescentes, foram entregues pela Justiça a um irmão de sua mãe biológica, causando um desarranjo na vida de todos os envolvidos. Os gêmeos, compreensivelmente, não perderam do dia para a noite a afeição pelo pai adotivo, o ex-policial Samuel Miara. A Justiça argentina prepara agora mandados de prisão para outros trinta militares, alguns deles ainda na ativa. Na semana passada, as casernas faziam ouvir sua insatisfação. A sombra dos inocentes continua a atormentar a Argentina.

Nó em laços familiares

Alba Lanzillotto crê que Carolina
Bianco, de 22 anos (abaixo, com
os pais adotivos), seja sua sobrinha,
mas a jovem rejeita a hipótese
Fotos: Debora Roux  

O garoto adotado por Norberto Bianco, Pablo, hoje com 20 anos, pode ser filho de Abel Madariaga, que tenta em vão ao menos falar com o rapaz




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