Clinton segura o iene

Os Estados Unidos acodem a moeda
japonesa para evitar uma nova crise global

Eliana Simonetti e João Sorima Neto

Aconteceu o inimaginável entre dois países que sempre se enfrentaram de faca na mão em guerras comerciais. Na semana passada, o presidente Bill Clinton jogou uma bóia de salvação para o seu colega japonês, o primeiro-ministro Ryutaro Hashimoto. Diante da queda livre da moeda japonesa, que ameaçava detonar uma crise pior e mais ampla do que o crash dos Tigres Asiáticos, Clinton trocou 2 bilhões de dólares por ienes na última quarta-feira. O gesto tem dois significados. Primeiro: ele rompe a atitude de indiferença que os Estados Unidos mostraram até agora diante dos problemas financeiros provocados pela globalização da economia. Segundo: mostra que os americanos perceberam que uma nova crise, com epicentro no Japão, segundo país mais rico do planeta, acabaria engolfando os próprios Estados Unidos, com conseqüências que qualquer economista julgaria assustadoras.

Com os americanos engajados no esforço pela estabilidade financeira, o mundo pode ficar um pouco mais tranqüilo. Entra em campo um jogador que, pelo seu poder de fogo, é capaz de neutralizar turbulências como a do último trimestre do ano passado. A salvação do iene afasta um desastre que se armou no horizonte do dia para a noite. Se ele continuasse em queda, os produtos japoneses ganhariam uma tremenda vantagem em preço, obrigando outros países a também desvalorizar suas moedas. Na terça-feira, a China havia dado o alerta. Se a moeda japonesa não parasse de cair, os chineses desvalorizariam seu iuan. Imagine-se a conseqüência: produtos chineses, que já são vendidos a preço de banana, ficariam ainda mais baratos. Duelos cambiais desse tipo resultam em queda de lucros, falência de empresas, desemprego e recessão econômica geral, na melhor das hipóteses. Depressão econômica, na pior delas.

Década perdida — O iene está perdendo substância porque o Japão, após quarenta anos de crescimento vertiginoso, enfrenta agora sua década perdida. O arquipélago tem 125 milhões de habitantes que estão entre os mais ricos do mundo. Sua renda per capita é de 39.000 dólares por ano (maior que a americana) e a poupança privada, de 10 trilhões de dólares, não tem paralelo. Nesse ponto, a marca do milagre japonês permanece. O problema é que o país parou de crescer, e a recessão mostrou que há problemas estruturais na economia difíceis de resolver. Na semana passada, o primeiro-ministro Hashimoto anunciou números terríveis. Nos três primeiros meses deste ano, o crescimento do PIB foi negativo em 1,3% — o que, projetado para o ano, prenuncia uma recessão profunda. Se nada for feito, o PIB japonês sofrerá uma queda de 5,3% no ano. A perspectiva é tão assustadora que provocou fuga de capitais do Japão. Daí a queda do iene e o socorro americano.

Há várias razões para o sofrimento do Japão. A principal, e mais curiosa, foi a própria embriaguez da prosperidade. Por ter crescido demais no passado e enriquecido muito, o país viveu uma espécie de euforia. Todos tinham muito dinheiro, consumiam demais, e isso provocou uma alta artificial nos preços. Imóveis comprados a peso de ouro eram dados em garantia para a obtenção de empréstimos bancários utilizados para a compra de novos imóveis. O Japão tinha 200 campos de golfe em 1960. Em 1995 eram 2.000, com 2,6 milhões de sócios e 200.000 empregados. O título de um clube desses custava 327.000 dólares. Os japoneses tinham tanto dinheiro que trocavam seus eletrodomésticos a cada dois anos. Os aparelhos velhos eram colocados na calçada.

Um apartamento de 30 metros quadrados a duas horas de Tóquio chegou a custar 200.000 dólares. Quando o Japão ficou caro demais, os japoneses foram a Hollywood comprar estúdios de cinema, arrematar o Rockefeller Center, de Nova York, e fazendas em San Francisco. A farra acabou em 1992. Naquele ano, as ações de empresas japonesas valiam tanto que os investidores decidiram começar a vender os papéis e realizar lucros. Como muita gente queria vender e poucos estavam dispostos a comprar, o preço das ações despencou. É o que, no jargão dos especuladores, se chama estouro da bolha.

Emprego vitalício — Outra razão para a crise está numa peculiaridade da organização econômica do país. Com o fim da II Guerra Mundial, montou-se um modelo para a recuperação de uma sociedade arrasada. Por esse modelo, governo, empresas privadas e funcionários trabalhavam estreitamente enlaçados. O objetivo era manter a harmonia interna para inundar o mundo com exportações. O trabalhador japonês não faz greve para não prejudicar esse esforço. Também aceita pagar preços muito altos pelos produtos que compra para subsidiar produtos exportados. Em compensação, trabalha em regime de emprego vitalício e ganha participação nos lucros da empresa. As companhias têm bancos como sócios para que não lhes falte crédito, mesmo que ele seja concedido a fundo perdido. O governo, coordenador do modelo, regula a economia para que não haja concorrência interna. Um sistema de barreiras não alfandegárias impede a importação de produtos estrangeiros.

O modelo funcionou muito bem até o começo da década. Daí começaram as dificuldades com o fim da bolha. Empresas quebraram, o trabalhador começou a perder o emprego e os japoneses, desconfiados de que as coisas não seriam mais as mesmas, passaram a poupar num grau exagerado. Aumentou, assim, a dificuldade das empresas por falta de consumidores. O pior é que a desconfiança se agravou quando um efeito colateral do modelo japonês se tornou público. O laço entre empresas, bancos e governos gerou vícios, corrupção, tolerância da burocracia com balanços ruins. O excesso de regulamentação, feito para proteger as empresas da competição interna, reduziu a produtividade. A proteção trabalhista engessou as companhias.

Bancos mastodontes — O cancro bancário, descoberto no ano passado, piorou a imagem da economia japonesa, tanto para o público externo quanto para o interno. Os bancos japoneses são mastodontes em tamanho, e até agora eram considerados ricos, conservadores e sólidos. Já não há mais essa certeza. Eles emprestaram demais, e mal. Os empréstimos para os Tigres Asiáticos, onde foram montadas indústrias-satélites das companhias japonesas, jamais foram pagos, pois os Tigres quebraram. Os empréstimos para investimentos imobiliários apodreceram quando o preço dos imóveis voltou a um nível razoável. As hipotecas perderam 70% do valor pelo qual estavam registradas. O rombo nos bancos japoneses é estimado, hoje, em mais de 700 bilhões de dólares.

O fato grave é que o governo sabia e acobertava a bagunça. O resultado é que o povo japonês deixou de acreditar nos bancos. Em novembro do ano passado, logo depois de anunciado o problema no sistema bancário — considerado tão estável quanto o Banco do Brasil é no Brasil —, os depósitos na caderneta de poupança dos correios subiram 15%. Hoje, a espera por um cofre doméstico, em Tóquio, chega a seis meses. As pessoas também estão guardando dinheiro em casa. Disparou-se aí um circuito vicioso. Entupidos de créditos ruins e às voltas com os saques no caixa, os bancos pararam de emprestar dinheiro para as empresas. Sem esse oxigênio, elas começaram a estourar. Foram 17.500 falências nos últimos seis meses (a média nos últimos anos tem sido de 13.000 falências anuais). A crise atinge principalmente pequenas e médias empresas, que empregam 78% dos trabalhadores japoneses. A taxa de desemprego chegou, no mês passado, a 4,1%, mais do que a registrada logo depois da II Guerra Mundial.

Clima de depressão — Crise em país rico, entenda, é diferente daquela que machuca país pobre. No Japão não faltam escola, hospital de qualidade nem sushi no almoço. O que se observa lá é uma mudança de disposição — e na maioria das vezes não passa disso. As mulheres estão deixando de jantar fora, para economizar, esperando por tempos piores. As lojas vivem vazias, e começou uma guerra de promoções para atrair clientes. As pessoas com mais de 50 anos estão voltando à escola, na tentativa de obter qualificação para um novo emprego. Nas ruas há um clima de depressão. As pessoas estão sisudas. Um instituto de pesquisas que faz todos os anos uma enquête com a população para definir qual a cor do ano obteve um resultado interessante. Nos anos anteriores, os japoneses escolhiam cores como o amarelo e o azul. A cor eleita para 1998 foi o cinza.

O estado de desânimo do japonês é hoje o principal problema para a retomada do crescimento da economia. O consumo interno é responsável por 60% do PIB japonês, e o povo está preferindo poupar a consumir. Aparentemente o problema é de fácil solução. Mas o governo já baixou os juros para 0,5% ao ano, produziu sete pacotes econômicos, cortou impostos e despejou 478 bilhões de dólares na economia, sem conseguir nenhuma reação. As pessoas mantêm seu dinheirinho guardado, e o consumo continua em queda. Só no mês passado diminuiu 1,5%. "Esse é um comportamento esperado", diz o economista brasileiro Paulo Yokota. "Quem vive numa ilha, passou pela derrota numa guerra e está sujeito a terremotos e invernos arrasadores tem de ser previdente."

O Japão tem um PIB de 5 trilhões de dólares — quase seis vezes maior que o brasileiro. Tem um superávit comercial de 100 bilhões de dólares por ano. É o país que mais investimentos tem fora de seu território. É líder em tecnologia em várias áreas. Precisa adequar-se aos padrões globais deste final de século: derrubar barreiras aos produtos importados, desregulamentar a economia e estimular a competitividade de suas empresas. Essas reformas poderiam fazer o país voltar a crescer. O problema é que elas implicam uma revolução cultural, que não vai acontecer de repente.

À beira da moratória

Se a crise econômica no Japão anda preocupando o mundo, a situação russa é de arrepiar. A Rússia está quebrada e à beira da moratória. Tem 9,5 bilhões de dólares em dívidas que vencem nas próximas seis semanas, e suas reservas internacionais não passam de 8,5 bilhões de dólares. Além disso, teria de desembolsar mais 30 bilhões de dólares para pagar credores até o final do ano, e não há perspectiva de entrada de dólares no país. Os investidores estão tão desconfiados da saúde da economia russa que não apareceram para comprar os títulos leiloados pelo governo na semana passada. Os papéis prometem pagar juros de até 60% ao ano, uma das maiores taxas do mundo, mas isso não tem sido o suficiente. Os investidores também não se interessaram em comprar estatais petrolíferas que estão sendo privatizadas e bateram em retirada da bolsa de valores, onde o preço das ações caiu pela metade no mês de maio.

A economia russa está em apuros porque o país não conseguiu organizar-se depois do fim do comunismo. O parque industrial está sucatado, a arrecadação de impostos é arcaica, há muita sonegação, e a situação política é instável. Na semana passada, Anatoly Chubais, encarregado da negociação da dívida externa russa, anunciou que o país precisa com urgência de um empréstimo de 15 bilhões de dólares, a juros baixíssimos. Uma missão do Fundo Monetário Internacional chega a Moscou nesta segunda-feira para avaliar a situação. Os técnicos já adiantaram que não há caixa para o socorro de que a Rússia necessita.




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