Educação

Gesto simbólico

Após oitenta dias de paralisação, professores
universitários fazem greve de fome

Os grevistas reunidos na
Universidade de Brasília:
aulas de arte e de ioga
Foto: Ana Araujo  

A greve dos professores das universidades federais chegou na sexta-feira da semana passada ao seu octogésimo dia — um dos mais duradouros movimentos da História. Para tentar acabar com ela, o presidente Fernando Henrique Cardoso pediu ao Congresso Nacional que aprove às pressas um projeto de lei que autoriza o governo a reajustar o salário dos professores. Os deputados prometem dar uma solução ao problema a partir desta semana. Ninguém acha que o professor brasileiro ganha bem, até o Ministério da Educação reconhece que reajustá-lo é bastante razoável, mas é preciso agilizar a seguir a discussão em torno da reforma no ensino superior. A universidade brasileira tem professores demais em relação ao número de estudantes, e o gasto com os alunos é dos mais altos do mundo. Há no país um professor para cada nove alunos, quase o dobro do índice do Canadá. Nos Estados Unidos há catorze alunos por professor e na Itália, 29. Cada aluno matriculado numa universidade brasileira custa 11.300 dólares por ano, contra 8.300 na Alemanha. Como se vê, o Brasil não aplica pouco dinheiro nas universidades. O drama é que o dinheiro é mal gasto. Os professores não fazem pesquisa, não são avaliados em seu desempenho e dão um ensino de baixa qualidade aos alunos. Aumentar o salário dos professores é apenas parte do problema.

A ex-prefeita de
Fortaleza Maria
Luiza Fontenele:
fundando um novo
partido marxista
  Foto: Nelio Rodrigues

Na semana passada, enquanto aguardavam uma solução, um grupo de professores se reuniu na Universidade de Brasília e iniciou uma greve de fome. Eles estão em dois alojamentos da universidade, passam o dia entre aulas de arte ou ioga, mexem no computador, assistem à televisão e fazem dinâmica de grupo com psicológos. Na sexta, o grupo caiu para dezoito, com a saída de Celi Taffarel, 47 anos, professora de educação física da Universidade Federal de Pernambuco e tia do goleiro da seleção brasileira. Ela teve dois desmaios e, por recomendação médica, voltou a comer. Para evitar que algo mais grave aconteça, os grevistas assinaram um documento autorizando os médicos a dar-lhes atendimento caso fiquem muito fracos, em estado de inconsciência, incapazes de decidir por si próprios.

Nos dois quadros-negros pendurados no alojamento da Universidade de Brasília, estão escritas frases de apoio à iniciativa, misturadas a outras de apoio à seleção brasileira na França. Coisas como "torcemos pelo Brasil e pela universidade pública", ou então "a fome de gol não deve ser maior que a fome do saber". Do grupo, sete têm filiação partidária — são quatro do PT, dois do PC do B e um do PSB. Oito votam em Luís Inácio Lula da Silva, um vota em José Maria de Almeida, do PSTU, e os demais estão indecisos. Há dois aposentados, entre eles Maria Luiza Fontenele, 55 anos, que foi prefeita de Fortaleza na década de 80, militava num partido radical de esquerda e agora quer fundar outro, o marxista Partido da Revolução dos Trabalhadores. A radicalização acontece num momento em que a greve dos 40.000 professores começa a dar sinais de cansaço. Algumas faculdades já ameaçam voltar às aulas nesta semana.




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