Polícia

Banho de sangue

Chacina em São Paulo revela a semelhança entre
a periferia das metrópoles e a Europa medieval

Vizinhos observam
o bar ensangüentado
depois do crime: lógica
de bangue-bangue
Foto: Matuiti Mayezo/Folha Imagem  

Um massacre ocorrido no município de Francisco Morato, região metropolitana de São Paulo, na semana passada, reforçou a constatação de que a periferia das metrópoles brasileiras tem uma trágica semelhança com as capitais da Europa medieval. Na madrugada de quarta-feira 17, três homens encapuzados entraram pela porta da frente de um bar no centro da cidade e dispararam 91 tiros. Quando saíram, haviam deixado onze mortos e quatro feridos. Foi a maior matança registrada na Grande São Paulo nos últimos quatro anos e o exemplo típico de uma forma de crime que se torna cada vez mais comum. Nos últimos seis meses, 162 pessoas foram mortas em chacinas nessa região, número igual ao total do ano passado.

Estudos feitos na Inglaterra mostram que a violência no país, durante a Idade Média, era inacreditavelmente alta. O índice de homicídios era equivalente a cinqüenta para cada 100.000 habitantes, quase o mesmo de hoje na cidade de São Paulo (no século XX, os assassinatos na Grã-Bretanha não chegam a dois por 100.000). Em ambos os lados do túnel do tempo, a explicação para os fenômenos é parecidíssima. No caso da Inglaterra, o sociólogo Jean-Claude Chesnais mostrou que, na falta de polícia ou Judiciário, prevalecia uma lógica de bangue-bangue. Os camponeses se organizavam em milícias particulares. Nas estradas, dominavam os bandos de salteadores. Era a chamada "lógica do domicílio", em que cada grupo ou bando trata apenas de defender os seus, sem que o Estado intervenha para manter a ordem com polícia e escola. O mecanismo é semelhante no mundo das chacinas, em que o traficante mata outros traficantes na briga pelas bocas-de-fumo, mata quem acumula dívidas de droga e pode ser morto pelos justiceiros que trabalham a soldo dos comerciantes.

"O crime organizado se instala onde há nítida ausência do poder público. Nessas situações, pode formar um poder paralelo", teoriza o juiz aposentado Luiz Flávio Gomes, estudioso do crime organizado. Não se trata apenas de falta de polícia. Gomes cita o exemplo do interior do Nordeste, onde, na falta de assistência, famílias pobres são cooptadas pelos traficantes para plantar maconha. As chacinas acontecem apenas nas regiões mais pobres das metrópoles e em 40% dos casos estão relacionadas às drogas. Nos casos restantes, envolvem grupos de extermínio ou rixas entre gangues. Chacinas como a de Francisco Morato são um tipo de crime que hoje encontra similar em pouquíssimos lugares no mundo. "É uma forma de violência que só se vê no Brasil e na Colômbia", explica o sociólogo Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública. O que ambos os países têm em comum são lugares onde comunidades inteiras são dominadas por bandos de traficantes.

Quanto à investigação sobre a chacina de Francisco Morato, no final da semana ela caminhava para uma conclusão típica. Segundo a polícia civil, os assassinos poderiam ser policiais militares corruptos, interessados em eliminar a testemunha de um crime cometido por eles. A jovem Evelyn Zenan, 17 anos, era a principal testemunha do assassinato do namorado, o traficante Marcos Antonio Andrade, morto no Carnaval passado por policiais. Acredita-se que tenha sido morta como queima de arquivo. Outra possibilidade é que o alvo fosse o dono do bar, Renato Girao. Nesse caso, a chacina teria sido um acerto de contas entre gangues.

Rogério Gentile




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