Surpresa paulista

Candidato do PDT deixa Covas e Maluf para
trás e vira a estrela da eleição em São Paulo

Maurício Lima

Rossi, que começou como
o azarão da campanha: na
briga contra Covas e Maluf
(abaixo), o pedetista
resolveu esconder a
Bíblia
Foto: Antonio Milena  


Foto: Guilherme Maranhão

Depois da eleição para presidente da República, a de mais peso no Brasil é a escolha do governador de São Paulo, que não apenas comandará o Estado mais rico do país como também será um nome forte para transferir-se, quatro anos depois, para o Palácio do Planalto. Na semana passada, São Paulo estava promovendo uma surpresa e tanto. Até então, a disputa para valer prometia ser entre o atual governador, Mário Covas, do PSDB, e o ex-governador Paulo Maluf, do PPB. Só prometia. Quem está na frente é o candidato Francisco Rossi, do PDT, que entrou no páreo como um azarão. Rossi, que já estava à frente de Covas, na semana passada ultrapassou Maluf e assumiu a dianteira nas pesquisas eleitorais, com 28% das intenções de voto segundo o instituto Datafolha. Ex-radialista e ex-cantor de música religiosa, Rossi é um sujeito bonachão, dono de uma estampa sorridente e tem os mais baixos índices de rejeição entre os candidatos (14%, contra 30% de Covas e 38% de Maluf). Desde que começou a aparecer em pequenos comerciais de TV, em março, seu cacife nas pesquisas eleitorais se elevou em 40%.

Ex-prefeito de Osasco, cidade da região metropolitana de São Paulo, Rossi já participou de outras eleições e chegou a assustar os favoritos. Mas nunca teve fôlego suficiente para cruzar a reta final. Em 1994, chegou a disputar o segundo turno para o governo estadual, mas foi derrotado por Covas. Depois, candidato à prefeitura da capital, ocupou a liderança durante algum tempo. Terminou em quarto. Desta vez, lá está Rossi novamente com chances, graças em parte a um empurrão que está recebendo dos adversários. A candidata que mais se assemelha ao perfil de Rossi, um tanto distante das estruturas tradicionais de poder, Marta Suplicy, do PT, acreditava que o fato de ser mulher poderia dar a ela uma chance. Até agora não funcionou. Para seu desânimo, os mais velhos associam a candidata a sua antiga atividade de sexóloga no programa TV Mulher. E os mais jovens não sabem ao certo de quem se trata. Como Covas não consegue sair dos 14% das intenções de voto e Maluf tem alto índice de rejeição, já há quem não debata mais se Rossi vai para o segundo turno. Entre os analistas de pesquisas, a pergunta é quem vai disputar contra ele.

As principais armas de Rossi são as promessas bombásticas. Ele vem aproveitando o horário gratuito do partido para dispará-las às dúzias. Promete estudar uma forma de devolver o Banespa a São Paulo e reativar o Proálcool, para gerar empregos nas usinas do interior. Em 1996, quando era candidato à prefeitura da capital, prometeu "tirar as crianças abandonadas da rua em seis meses". Agora promete "criar 1 milhão de empregos em frentes de trabalho". Aparentemente, esse tipo de discurso está surtindo efeito. "Suas propostas são descabidas, mas ele parece ter excelente capacidade de convencer o eleitorado", analisa o cientista político Bolívar Lamounier.

A indefinição ideológica de Rossi é a mesma de muitos outros políticos. Ele começou sua carreira em um partido à direita. Quando prefeito de Osasco, em 1973, Rossi militava na Arena e havia escrito um manifesto intitulado Mensagem de um Moço à Mocidade Brasileira, em que pregava contra o perigo do comunismo. "Essa hidra vermelha pretende tomar o mundo de assalto e transformar os homens em escravos", escreveu. Vinte e seis anos e cinco partidos depois, Rossi está no PDT de Leonel Brizola, o gaúcho que criou o "socialismo moreno". Para Rossi e seu eleitorado, essa aparente contradição não faz diferença. "Ele tem um estilo suprapartidário que, embora seja muito confuso e nitidamente demagógico, parece dar mostras de que funciona", analisa a socióloga Fátima Jordão, da Fato Pesquisa e Jornalismo.

Rossi é também um político aplicado. Em campanha explícita há mais de um ano, ele já visitou 130 municípios, apertando a mão de prefeitos, vereadores e cabos eleitorais. Conseguiu assim que o PDT, um partido desprezado em São Paulo, passasse a ter diretórios em 450 municípios, contra os 96 que possuía quatro anos atrás. Essa dedicação segue uma lógica. Todas as vezes em que concorreu, o ex-prefeito de Osasco obteve a maioria dos seus votos no interior. A novidade é que ele parece estar dando um passo adiante. Segundo as pesquisas, Rossi lidera na capital, com 30%, avançando sobre o eleitorado cativo do rival Maluf.

Sua estratégia para esta eleição também deixou guardada no armário uma arma que usou muito em suas últimas campanhas, a Bíblia. Casado, três filhos, convertido a uma igreja evangélica desde 1993, Rossi costumava apresentar-se como um homem religioso e bom pai de família. Citava versículos durante seus discursos e invocava a ajuda de Deus. Mas as pesquisas indicaram que vincular-se aos evangélicos, mais do que atrair alguns votos, podia espantar outras fatias do eleitorado. "Bíblia agora, só nos bastidores", conclui Chico Malfitani, coordenador de marketing da campanha.

Onde está o erro?

O governador:
"Charuto de bêbado"
Foto: Ana Araujo  

Responsável pela melhor administração que o Estado de São Paulo teve nos últimos dez anos, o governador Mário Covas, candidato à reeleição, passou os últimos dias procurando uma explicação para seu mau desempenho nas pesquisas eleitorais. Na mais recente, divulgada na semana passada pelo Datafolha, aparece com 14% das intenções de voto, um modestíssimo terceiro lugar, com a metade dos pontos do primeiro, Francisco Rossi. "Estou trabalhando como louco, me virando feito charuto em boca de bêbado", diz Covas. "O que devo mudar se em todas as frentes a gente está atuando com o máximo de empenho?" Na interpretação do governador, os resultados das pesquisas só podem estar relacionados a uma falha de comunicação do governo, que seria incapaz de mostrar às pessoas o que está fazendo. Covas recorreu até a uma metáfora zoológica para explicar melhor seu ponto de vista. "A razão pela qual não se come ovo de pata, que é enorme, é porque ela bota e fica quietinha, ninguém sabe", comparou. "Já a galinha põe um ovo pequeno e faz um barulho desgraçado, todo mundo fica sabendo e come."

O governador Covas assumiu um Estado falido. Parou o Estado por dois anos até colocar as finanças em ordem, mas daí em diante trabalhou para valer. Aumentou a carga horária das escolas públicas e conseguiu reduzir em 40% os índices de evasão escolar. Deverá concluir até o final do ano o mais ambicioso plano de habitação popular já realizado no Estado — entregou, até agora, 80.000 casas populares. Também retomou as obras de dez hospitais, investe pesado em saneamento básico e está concluindo 27 quilômetros de linhas do metrô abandonadas pelos antecessores. São realizações que é impossível deixar de notar, mas os tucanos ainda não encontraram uma maneira de convencer as pessoas de que isso basta para reelegê-lo. O problema é que, enquanto Covas cortava despesas para corrigir os rombos herdados dos governadores anteriores, se consolidou na cabeça do eleitorado uma imagem de inoperância da qual sua administração ainda não conseguiu livrar-se. No próximo domingo, data do lançamento oficial da candidatura, os tucanos esperam que Covas comece a reagir.




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