Leonel e o poste

Com a ajuda de declarações estapafúrdias de Leonel
Brizola, Fernando Henrique reage nas pesquisas

Consuelo Dieguez

Foto: Egberto Nogueira e montagem sobre fotos
de Frederic Jean e Nelio Rodrigues

Acabou o empate técnico entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva. Pelo menos até o momento, essa é a principal conclusão da última rodada da pesquisa de intenções de voto divulgada no final de semana pelo instituto Vox Populi, de Belo Horizonte, em parceria com os Diários Associados. Fernando Henrique, que tinha no levantamento anterior 31% das intenções de voto, subiu 5 pontos e chegou a 36%. Lula, que estava com 30%, caiu 1 ponto e está com 29%. A diferença, que era de 1%, subiu agora para 7%. Para o Planalto, não poderia haver notícia melhor. Várias foram as explicações para justificar a queda que FHC vinha experimentando nas semanas anteriores, enquanto Lula ascendia sem parar. Falou-se da crise asiática, do aumento da cesta básica e do desemprego. Citaram-se ainda o incêndio de Roraima, a demora do governo em enfrentar a seca nordestina e a declaração que o presidente deu chamando de vagabundos os que se aposentam antes dos 50 anos. Com a nova rodada de pesquisas, outras explicações precisam ser desembrulhadas pelos especialistas. Uma das suspeitas é de que a subida de FHC e a queda de Lula possam ter sido influenciadas pelas declarações polêmicas que vêm sendo feitas pelo candidato a vice na chapa da frente de esquerda, Leonel Brizola.

Como Brizola não consegue ser um vice disciplinado como Marco Maciel, de quem só se sabe que é católico praticante, ele passou a dar declarações sobre o que, no seu entender, o governo Lula deveria fazer caso chegasse ao Palácio do Planalto. Para começar, acha o engenheiro, o novo governo de esquerda deverá tomar a Vale do Rio Doce de volta, reestatizando-a. "Mesmo que não haja irregularidades, um eventual governo Lula recuperaria a Vale, indenizando os compradores, para torná-la uma empresa pública", disse na terça-feira. Parecia o velho Brizola pré-1964, que defendia que as chamadas reformas de base do governo de seu cunhado, o presidente João Goulart, deveriam ser feitas "na lei ou na marra". O comando da campanha de Lula, que vinha tomando o cuidado de não fazer muita marola para manter-se no páreo, assustou-se com o tom do ex-governador do Rio de Janeiro. "Não podemos passar a impressão de que vamos fazer as coisas fora da lei", diz o deputado José Genoíno, de São Paulo. "Não podemos deixar as pessoas acharem que seremos um governo de ruptura. Se isso ocorrer, nós perderemos as eleições", alerta.

A preocupação dos petistas é que os pronunciamentos de Brizola atrapalhem a candidatura de Lula e afugentem os votos de parcela da classe média hoje insatisfeita com FHC. "Há dois meses ninguém admitia que ia ter segundo turno. Agora o Lula tem todas as chances. Não é o momento do Brizola ficar soltando a língua", criticou Carlos Santana, do PT do Rio, que, de tão irritado com as declarações do vice de Lula, chegou a sugerir ao comando da campanha petista que se mandasse Brizola "calar a boca". O PT sabe que essa é uma tarefa impossível. Milton Temer, da ala radical do partido, tem uma visão clara do problema. "O PT não pode querer tratar o Brizola como se ele fosse um suplente de senador. Ele é um líder importante, e não vai ficar calado", avalia. Com o objetivo de unificar o discurso e controlar Brizola, marcou-se para esta semana uma reunião. Deverão estar presentes os coordenadores da campanha, além de Lula e Brizola.

É um evidente exagero atribuir a um homem só, famoso por suas declarações destemperadas, a capacidade de movimentar as pesquisas de um dia para o outro. A questão é que a voz de Leonel Brizola vem somar-se a diversas declarações dadas pela assessoria do PT, todas pregando mudança no programa de combate à inflação e revisão das privatizações, duas conquistas sociais inequívocas. Com o fim da inflação, o Brasil se livrou da mais perversa forma de concentração de renda. Com a privatização, o governo fica com dinheiro em caixa, tem cacife para recomprar seus títulos no mercado e com isso ganha meios para reduzir a dívida interna. A desestatização também melhora a eficiência das empresas e da economia como um todo.

Quando as pesquisas mostravam grande irritação popular com FHC, não importava muito o que os petistas e pedetistas diziam. Agora que a eleição ficou mais próxima e o governo federal começou a se mexer, lançando em conta-gotas um pacote de medidas populares (veja quadro ao lado), os candidatos começam a ser avaliados também por palavras e projetos. Deve-se à veia irônica do deputado Antônio Delfim Netto a teoria de que Fernando Henrique perderia a eleição até para um poste. Quando o poste ganha um nome, porém, o eleitor prefere continuar com FHC. No momento em que Lula empatou com FHC, há duas semanas, parecia que a teoria de Delfim precisaria ser reescrita. Através das pesquisas, o que os eleitores pareciam estar dizendo é que Lula era uma aposta bastante boa. Na semana passada, com a subida de FHC, reforçou-se a teoria irônica do deputado. Com as declarações da assessoria do PT e principalmente as de Brizola, a fisionomia do Lula governante ficou mais definida. O poste ganhou um rosto mais discernível. Resultado: voltaram os votos para FHC. "O PT, que sempre pregou a melhoria da saúde e da educação, além do combate ao desemprego, o que todo mundo quer, agora fala apenas em reestatizar a Vale do Rio Doce", diz o cientista político Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi. "Com isso, as pessoas podem ficar com a impressão de que o discurso social escondia apenas a intenção de fazer vigorar uma visão diferente de Estado. E o eleitor não consegue entender como isso vai melhorar a sua vida."

 



 


O engenheiro falante

O que Brizola anda dizendo

"Mesmo que não haja irregularidades, um eventual governo Lula recuperaria a Vale, indenizando os compradores, para torná-la uma empresa pública."
Em 16 de junho, sobre a reestatização da Companhia Vale do Rio Doce

"O capital internacional que se adapte às nossas conveniências."
Em 13 de junho, sobre a proposta de 'quarentena' para o capital estrangeiro

"Eles estão preocupados só em vender, leiloar, negociar. Não pensam nas crianças, nos problemas brasileiros. Para que elegemos um presidente? Era só contratar um leiloeiro. Era muito melhor."
Em 13 de junho, sobre as privatizações

"Eu, morrer na praia abraçado com Lula? Nem pensar."
Em abril, quando Lula ia mal nas pesquisas

"Ele é um otário, um boca-mole que não tem pulso para conduzir esta nação."
Sobre FHC, em janeiro de 1997

"O Lula já tem até um visual de direita: fuma charuto, está gordo e não trabalha. Está se aproximando rapidamente de uma prática pessoal de direita."
Em abril de 1994

"Antes de pensar em ser presidente, tem de ser prefeito de São Bernardo do Campo. Lula não passa de um inexperiente."
Em abril de 1993

"Nesse caldo de cultura se desenvolve, sem dúvida, um movimento golpista."
Em julho de 1992, quando se começou a falar no impeachment do presidente Collor

"Não seria fascinante fazer essa elite engolir o Lula, esse sapo barbudo?"
Em novembro de 1989

"O Lula não é confiável. Eu apalpo, apalpo e sinto que ou há um mioma ou há dentes de jacaré."
Em fevereiro de 1989

"Sobre o Lula, não se pode dizer in vino veritas. O mais apropriado é dizer in cachaça veritas."
Em dezembro de 1985


Em baixa no Planalto

Tasso: alvo
de comentários
depreciativos
no governo
Foto: Roberto Jayme  

Homem afável, o presidente Fernando Henrique Cardoso não tem, no entanto, muita paciência com as pessoas que o decepcionam depois de anos de bom desempenho a sua volta. Quando o governo começou, FHC fazia elogios rasgados a Paulo Renato, da Educação, tido como o melhor ministro do governo. Com a greve dos professores das universidades públicas, quando Paulo Renato precisa de força para reagir, FHC atribui à atuação do ministro o fato de a situação ter-se transformado num impasse complicadíssimo. Agora é a vez de Tasso Jereissati, governador do Ceará. Tasso era apontado por FHC como aliado fiel e forte candidato tucano à Presidência em 2002. De algumas semanas para cá, ele virou alvo de comentários depreciativos no Planalto. O motivo é um pacto de não agressão que Tasso, em campanha para continuar no cargo, firmou com o candidato do PPS a presidente, Ciro Gomes, seu amigo e afilhado político. Eles combinaram que, no Ceará, um não fará nada que prejudique a campanha do outro. Ninguém se incomodava com isso até que FHC começou a cair nas pesquisas. No Ceará, especificamente, FHC está em terceiro lugar, com 10% das intenções de voto, enquanto Ciro tem liderança tranqüila, com 54%.

"O governador tem de explicar esse resultado medíocre do presidente num Estado tucano", diz o senador Jader Barbalho, do PMDB. Em 1994, quando FHC ganhou a eleição no primeiro turno, obteve 61% dos votos no Ceará. À boca pequena, assessores de FHC acusam Tasso de estar mais preocupado em garantir a própria reeleição do que em fazer algo para melhorar a votação do presidente no Estado. Como se Tasso não pudesse dizer algo semelhante. Que FHC está mais preocupado em reeleger-se do que em eleger qualquer outro governador tucano em campanha.




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