Recordar é viver

"O nacionalismo de Brizola coagulou
nos anos 50 e entope a candidatura Lula"

Flávio Pinheiro

Montagem sobre foto
de Roberto Jaime

A desprivatização de Leonel Brizola foi uma das piores idéias que Lula já teve na vida. Estava o caudilho posto em devaneios, apascentando o magro plantel do PDT — tudo o que lhe sobrou da desastrada campanha de 1994, quando teve menos votos que o siderado Enéas — até ser condecorado como símbolo da "união das esquerdas". Já é rematado equívoco o pressuposto de que Brizola une alguma coisa a seu ego exorbitante. Em 1994, pôs-se "à disposição" do partido, do qual é senhor absoluto, como candidato à Presidência da República porque, afinal, não havia alternativa. "Lula é um outro Collor", foi o mínimo que disse então. É bem verdade que Collor já tinha sido um outro Juscelino e até um novo Getúlio, nos bons tempos em que Brizola era amigo dele e considerava o pedido de impeachment "uma irresponsabilidade" de "golpistas". No país desmemoriado, Brizola é um prodígio. O que ele já disse, desdisse, enalteceu e depois abjurou enche os anais da retórica com pitorescas metáforas bem ao gosto da sabedoria de pradaria.

Candidato a vice na chapa de Lula, Brizola já está fazendo estragos antes mesmo da campanha deflagrada. Quer anular a privatização da Vale do Rio Doce. Rever a da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Curioso personagem, esse Brizola. Sua ferocidade atingiu culminâncias no processo de privatização da CSN. Disse as últimas de Itamar Franco, ameaçou ir à Justiça. Mas em 1994 aceitou dos novos donos da empresa 800.000 reais doados para sua campanha. Agora, volta à carga. Não importa, "pode estar tudo direitinho", mas as privatizações têm de ser anuladas, afirmou na semana passada. Quer desfazê-las com uma penada, sem maiores e aborrecidas discussões legais. Como se, por exemplo, bastasse uma assinatura para revogar a cassação de Collor.

Se pudesse, Brizola revogaria a lei da oferta e da procura. Seus discursos estão repletos de imprecações contra o que chama genericamente de "perdas internacionais", responsabilizadas até por dente cariado. Seu nacionalismo coagulou nos anos 50 e é nesta condição que entope a candidatura Lula. Com truculência, Brizola desmerece a necessidade de mais debates em torno das privatizações. Podia falar da necessidade de pulverização de controle, da participação dos trabalhadores e da incorporação dos consumidores como vigias de monopólios privados. Pior, Brizola arma-se de argumentos anacrônicos para uma discussão real e necessária: o que é hoje soberania nacional? A globalização quer dar a entender que soberania é só uma peça do museu da xenofobia, que acabou a era das "tenebrosas transações" tramadas nas costas da "nossa pátria-mãe tão distraída". Mas ele ainda prefere achar que ferro, o minério mais abundante e barato do mundo, é material estratégico. Na sua pregação, Brizola sequer se enquadra na definição de seu correligionário Doutel de Andrade para os malucos: maluco é como relógio parado, duas vezes por dia está certo. No caso dele, os dois minutos de lucidez diários são soterrados por 1.438 minutos de bobagens.

Foto: Jota Freitas

A primeira rodovia construída com preocupações ecológicas no país está funcionando no sul da Bahia. Aberta em abril, a estrada de 65 quilômetros entre Ilhéus e Itacaré corta uma das últimas reservas de Mata Atlântica do Estado e tem duas novidades sobre outras vias que atravessam áreas de preservação. Perto das áreas de mangue a estrada tem pequenos túneis no asfalto para permitir que os caranguejos cheguem até o mar. Na área de floresta, foram instaladas três grandes redes ligando as copas das árvores por sobre a pista para evitar o atropelamento de micos. Estudos anteriores à construção da estrada estimavam que mais de 100 macacos poderiam ser atropelados sem essa proteção.





Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line