Edição 1 650 -24/5/2000

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Variações sobre o ovo
– e uma dúvida

Do singelo ovo de ir à mesa ao ovo da
serpente – e a dúvida sobre o ovo que
premiou o ministro José Serra

Um ovo é apenas um ovo, não exageremos. Apenas um miúdo objeto, ingênuo e inofensivo. Apenas? Pode-se objetar que não – um ovo nunca é "apenas". É a forma mais admirável, ou pelo menos a mais surpreendente, dentre as engendradas pela natureza. Até parece que, em vez de submeter-se às regras nem sempre previsíveis da gestação, como é de sua praxe, aos caprichos do ambiente e aos acasos do clima, a natureza neste caso houve por bem servir-se de régua e compasso, como cientista, buril e pincel, como artista, para produzir um objeto mais próprio de criação cerebrina, de tão isento de arestas e asperezas – liso como mármore, careca como cabeça alguma pode ser.

A forma do ovo, nem redonda nem quadrada, é tão única que, para classificá-la, criou-se um adjetivo que remete ao próprio ovo – oval. O ovo é oval e é paradoxal. Forte, se se considerar que tem uma casca dura, de consistência que a um desavisado até pareceria metálica, mas frágil – um simples piparote, e ei-lo quebrado. O ovo é belo e delicado como jóia. Não é à toa que o célebre Fabergé, joalheiro de reis e rainhas, tenha se distinguido, sobretudo, por seus ovos – de ouro e de prata, e incrustações de pedras preciosas. O ovo não é diverso como a laranja, que pode ser mais ou menos redonda, de casca mais ou menos grossa. O ovo é sempre igual. Mas, embora igual, austero, econômico no contorno e disciplinado na estrutura, pode ser vário, à mesa – cozido ou frito, estrelado ou mexido, quente, poché ou omelete. Um pouco de açúcar, e vira gemada. Outro tanto de açúcar, e muito de arte, e se criarão ovos moles de Aveiro. Ovo serve até para resolver problema. Cristóvão Colombo resolveu o seu, quebrando um.

Não, ovo não pode ser "apenas". Ou pode? Sim, às vezes pode. No caso que nos interessa, era apenas um ovo. O caso, já se sabe, ou, se não, vai se saber agora, é o ovo que o ministro José Serra recebeu na testa, da parte de um manifestante, quando chegava para uma reunião do PSDB em Sorocaba, no interior de São Paulo. A televisão mostrou a cena. Vinha o ministro despreocupado, metido em roupas esportivas, como convém a um compromisso de fim de semana, quando de súbito um braço avança em sua direção. Tudo muito rápido. Deu para adivinhar, no movimento defensivo por um segundo esboçado pelo ministro, o terror pânico que lhe terá perpassado a mente. Terá temido pelo pior. O ataque de um tresloucado. Uma bala. No momento seguinte, levava a mão ao rosto, para livrar-se da lambuzeira. Era apenas um ovo. Até nisso, revela-se a inferioridade brasileira. Em países ricos, para obter esse tipo de efeito, costuma-se recorrer ao pastelão. O pastelão requer vários ovos para ser produzido. O Brasil é pobre. Busca-se o efeito pastelão com um único e escasso exemplar.

Foi apenas um ovo, e isso aconselha não exagerar a importância do episódio, mas alguns pontos merecem atenção. O primeiro é o contexto histórico, ou, para ser menos solene, a conjuntura, em que se deu. Sucediam-se manifestações e greves em São Paulo. Houve conflitos com a polícia. No dia anterior, o governador Mário Covas havia sido vítima de uma paulada em São Bernardo do Campo. Nesse contexto, o ovo deixa de ser um solitário ovo. Soma-se à tentativa de "criar um clima". É parte do esforço de montar um show – o show da incontrolável incandescência social. Sim, era apenas um ovo, mas não tão "apenas" assim. O ovo acrescentava-se a um cozido.

Outro ponto é que os manifestantes de Sorocaba, entre os quais o arremessador do ovo, tentavam impedir – ou perturbar –, não um ato de governo, mas uma reunião partidária. Epa! Querer calar o outro partido é querer ser o único. É não tolerar o diferente, o outro. Mais um pouco... Não exageremos, mas, vá lá – mais um pouco, e se igualam a caçadores de homossexuais, ou de dessemelhantes na cor da pele. Para ficar no ovo, ele nos proporciona também fábulas cruéis, como a do ovo da serpente. Na década de 30, a serpente tomou a forma dos regimes fascistas.

Década de 30... Não, os jovens de hoje – e o autor da ovada foi um jovem – têm mais a década de 60 na cabeça. Não se está aqui para desmentir as dificuldades de certos setores, nem para diminuir as angústias de uma juventude que, talvez mais do que a da geração anterior, tem dificuldades para encontrar profissão e lugar na sociedade, mas parece claro que influi no comportamento dos jovens, e em especial os que militam em movimentos de esquerda, uma espécie de nostalgia por um tempo não vivido – o tempo das passeatas e de Che Guevara, das explosões libertárias e das reivindicações do impossível. Fica-se às vezes com a impressão de que, neles, a nostalgia é maior do que em quem viveu aquela época. Que saibam em todo caso que a década de 60 foi também a do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, que quebrava faculdades adversárias e empastelava espetáculos teatrais. Tentativa de calar os outros tem mais a ver com CCC do que com utopia libertária.

E pronto. Tudo já ficou confuso. Era apenas um ovo. Mas será que era "apenas"?