Variações sobre o ovo
e uma dúvida
Do singelo ovo de ir à mesa ao ovo
da
serpente e a dúvida sobre o ovo que
premiou o ministro José Serra
Um ovo é apenas um ovo, não exageremos.
Apenas um miúdo objeto, ingênuo e inofensivo.
Apenas? Pode-se objetar que não um ovo nunca é
"apenas". É a forma mais admirável, ou pelo
menos a mais surpreendente, dentre as engendradas pela natureza.
Até parece que, em vez de submeter-se às regras
nem sempre previsíveis da gestação,
como é de sua praxe, aos caprichos do ambiente e
aos acasos do clima, a natureza neste caso houve por bem
servir-se de régua e compasso, como cientista, buril
e pincel, como artista, para produzir um objeto mais próprio
de criação cerebrina, de tão isento
de arestas e asperezas liso como mármore, careca
como cabeça alguma pode ser.
A forma do ovo, nem redonda nem quadrada, é tão
única que, para classificá-la, criou-se um
adjetivo que remete ao próprio ovo oval. O ovo
é oval e é paradoxal. Forte, se se considerar
que tem uma casca dura, de consistência que a um desavisado
até pareceria metálica, mas frágil
um simples piparote, e ei-lo quebrado. O ovo é
belo e delicado como jóia. Não é à
toa que o célebre Fabergé, joalheiro de reis
e rainhas, tenha se distinguido, sobretudo, por seus ovos
de ouro e de prata, e incrustações de pedras
preciosas. O ovo não é diverso como a laranja,
que pode ser mais ou menos redonda, de casca mais ou menos
grossa. O ovo é sempre igual. Mas, embora igual,
austero, econômico no contorno e disciplinado na estrutura,
pode ser vário, à mesa cozido ou frito,
estrelado ou mexido, quente, poché ou omelete. Um
pouco de açúcar, e vira gemada. Outro tanto
de açúcar, e muito de arte, e se criarão
ovos moles de Aveiro. Ovo serve até para resolver
problema. Cristóvão Colombo resolveu o seu,
quebrando um.
Não, ovo não pode ser "apenas". Ou pode?
Sim, às vezes pode. No caso que nos interessa, era
apenas um ovo. O caso, já se sabe, ou, se não,
vai se saber agora, é o ovo que o ministro José
Serra recebeu na testa, da parte de um manifestante, quando
chegava para uma reunião do PSDB em Sorocaba, no
interior de São Paulo. A televisão mostrou
a cena. Vinha o ministro despreocupado, metido em roupas
esportivas, como convém a um compromisso de fim de
semana, quando de súbito um braço avança
em sua direção. Tudo muito rápido.
Deu para adivinhar, no movimento defensivo por um segundo
esboçado pelo ministro, o terror pânico que
lhe terá perpassado a mente. Terá temido pelo
pior. O ataque de um tresloucado. Uma bala. No momento seguinte,
levava a mão ao rosto, para livrar-se da lambuzeira.
Era apenas um ovo. Até nisso, revela-se a inferioridade
brasileira. Em países ricos, para obter esse tipo
de efeito, costuma-se recorrer ao pastelão. O pastelão
requer vários ovos para ser produzido. O Brasil é
pobre. Busca-se o efeito pastelão com um único
e escasso exemplar.
Foi apenas um ovo, e isso aconselha não exagerar
a importância do episódio, mas alguns pontos
merecem atenção. O primeiro é o contexto
histórico, ou, para ser menos solene, a conjuntura,
em que se deu. Sucediam-se manifestações e
greves em São Paulo. Houve conflitos com a polícia.
No dia anterior, o governador Mário Covas havia sido
vítima de uma paulada em São Bernardo do Campo.
Nesse contexto, o ovo deixa de ser um solitário ovo.
Soma-se à tentativa de "criar um clima". É
parte do esforço de montar um show o show da incontrolável
incandescência social. Sim, era apenas um ovo, mas
não tão "apenas" assim. O ovo acrescentava-se
a um cozido.
Outro ponto é que os manifestantes de Sorocaba,
entre os quais o arremessador do ovo, tentavam impedir
ou perturbar , não um ato de governo, mas uma reunião
partidária. Epa! Querer calar o outro partido é
querer ser o único. É não tolerar o
diferente, o outro. Mais um pouco... Não exageremos,
mas, vá lá mais um pouco, e se igualam
a caçadores de homossexuais, ou de dessemelhantes
na cor da pele. Para ficar no ovo, ele nos proporciona também
fábulas cruéis, como a do ovo da serpente.
Na década de 30, a serpente tomou a forma dos regimes
fascistas.
Década de 30... Não, os jovens de hoje
e o autor da ovada foi um jovem têm mais a década
de 60 na cabeça. Não se está aqui para
desmentir as dificuldades de certos setores, nem para diminuir
as angústias de uma juventude que, talvez mais do
que a da geração anterior, tem dificuldades
para encontrar profissão e lugar na sociedade, mas
parece claro que influi no comportamento dos jovens, e em
especial os que militam em movimentos de esquerda, uma espécie
de nostalgia por um tempo não vivido o tempo das
passeatas e de Che Guevara, das explosões libertárias
e das reivindicações do impossível.
Fica-se às vezes com a impressão de que, neles,
a nostalgia é maior do que em quem viveu aquela época.
Que saibam em todo caso que a década de 60 foi também
a do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, que quebrava
faculdades adversárias e empastelava espetáculos
teatrais. Tentativa de calar os outros tem mais a ver com
CCC do que com utopia libertária.
E pronto. Tudo já ficou confuso. Era apenas um
ovo. Mas será que era "apenas"?