Edição 1 650 -24/5/2000

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As modelos pararam
o trânsito

O tráfego na rede ficou congestionado com
o desfile das top models quase nuas que
atraiu 2 milhões de internautas

Manoel Fernandes

Elas são de parar o trânsito em qualquer cidade. Não seria diferente na internet. Durante os 23 minutos em que algumas das mais belas modelos do planeta ocuparam a passarela vestidas apenas com lingerie da famosa marca americana Victoria's Secret, o tráfego na rede ficou mais lento. De acordo com a Keynote, empresa que mede o desempenho da internet em cinqüenta capitais mundiais, o tempo de acesso à rede duplicou enquanto o desfile era mostrado. Pelo segundo ano consecutivo, a Victoria's Secret transmitiu on-line o desfile de sua coleção de roupas íntimas. O voyeurismo virtual ultrapassou 2 milhões de internautas. Pelos cálculos dos especialistas, milhões de outras pessoas tentaram assistir às top models convidadas para o evento em Cannes, na França, mas elas foram barradas pelo excesso de tráfego. Não puderam ver a brasileira número 1 do mundo, Gisele Bündchen, vestida com uma lingerie dourada estilizada, e suas colegas Tyra Banks e Eva Herzigova em criações sensualíssimas.

 
Top models no desfile da Victoria's Secret: a brasileira Gisele Bündchen (à dir.) desfilou para um platéia de 2 milhões de pessoas em mais de cinqüenta países, mas outros milhões não conseguiram ter acesso ao site do espetáculo

Os organizadores deram-se por satisfeitos com os resultados. Conseguiram evitar a repetição do vexame do ano passado, quando a audiência do primeiro desfile chegou a 1,5 milhão de pessoas, mas o congestionamento da rede estragou o show, transmitido de Nova York. Quem conseguiu conexão viu apenas imagens congeladas e borradas das modelos. Neste ano, a Victoria's Secret buscou auxílio de companhias de internet especializadas nesses megaeventos. A grife se associou à Microsoft, à IBM, ao Yahoo! e à Akamai, empresa pioneira em transmissões de imagens e sons pela rede. A pretexto de monitorar o desempenho técnico dessas companhias, locomotivas do mercado de ações de alta tecnologia, a Bolsa de Valores de Wall Street parou para esperar o desfile. No final, todos ficaram satisfeitos com o resultado, e as ações das empresas fecharam estáveis. A Microsoft teve ligeira queda, ainda pelo reflexo do processo por monopólio que o governo move contra ela.

O streaming media, o nome da tecnologia utilizada nos megaeventos como o das modelos na semana passada, promete ser a próxima onda da internet. Já são mais de 45 milhões de pessoas em todo o mundo que têm em suas máquinas programas capazes de receber imagens e sons pela rede. No Brasil existem vários sites que fazem transmissões desse tipo, principalmente os de rádios e de algumas televisões. O mais bem-sucedido deles é a Usina do Som, empreendimento do Grupo Abril, que edita VEJA. Os acessos simultâneos a www.usinadosom.com.br já são tão numerosos quanto os que atraem os serviços de áudio e vídeo da CNN americana, que possui um dos sites mais movimentados do planeta. "Somos o país que mais cresce nessa área", afirma Marcelo Negrini, diretor para a América Latina de mídia digital da Microsoft.

Nesta segunda-feira, a Microsoft anuncia um acordo com vinte provedores brasileiros que passarão a oferecer serviços baseados na tecnologia a seus clientes. A zebra do grupo é a página , tocada por uma única pessoa, o bancário mineiro Willians Spinelli. Seu serviço fornece o endereço virtual de mais de 4.000 rádios de Rádios.com todo o mundo que fazem transmissões pela internet e 300 emissoras de televisão. Aos 38 anos, Spinelli faz a catalogação dos sites em um computador que fica instalado na sala de sua casa, em Varginha, Minas Gerais. "Comecei há quatro anos, quando ninguém falava sobre transmissões em tempo real", diz o mineiro. Ele está certo. A internet é limitada quando se trata do tráfego de grandes arquivos, como no caso de imagens de vídeo e de sons. O desenho tecnológico da rede foi baseado para a troca de pequenos pacotes de informação, como mensagens de correio eletrônico ou documentos de texto.

A Victoria's Secret fez essa descoberta em seu primeiro desfile. A empresa utilizou apenas um ponto de transmissão do evento, e, quando as pessoas procuraram vê-lo, houve o congestionamento. No desfile de quinta-feira foram utilizados computadores-espelhos em alguns países que recebiam as conexões do resto do mundo. Muita gente ficou de fora, mas dessa vez quem estava na platéia virtual conseguiu receber as imagens e os sons. Como a montagem de um megaevento exige um poderoso aparato tecnológico, que se torna desnecessário após sua realização, algumas empresas nos Estados Unidos estão oferecendo serviços terceirizados com esse objetivo. Dessa forma, os custos ficam menores. O grande problema para o sucesso completo desses empreendimentos é o reduzido número de pessoas que possuem conexões de alta velocidade, o que facilitaria o acesso aos espetáculos virtuais. O modem, por enquanto, é a forma mais usual de acesso à internet, principalmente no Brasil. Hoje, todos os fabricantes de PCs colocam nas máquinas que estão saindo das linhas de produção um modem de 56k, o mais veloz à venda no mercado, mas ainda há uma quantidade substantiva de máquinas com modem de 28k. Assistir a um vídeo ou escutar uma rádio ao vivo com perfeição vai demorar um pouco para a maioria dos usuários da internet.

 
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