Edição 1 650 -24/5/2000

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Filhotes do alto luxo

Grifes caríssimas criam uma segunda marca
para vender roupas um pouco mais baratas

Silvia Rogar

 
Fotos Selmy Yassuda
1) 290 reais. Saia preta de crepe pesado. Completam o visual blusa de chiffon com Lycra (190 reais) e bota (540 reais). Maria Bonita
2) 78 reais. Saia preta de crepe de malha, acompanhada de camisa de malha cristal (120 reais) e bota (260 reais). Maria Bonita/Extra
3) 1 320 reais. Casaco de tafetá forrado de cashmere. Andrea Saleto
4) 220 reais. Casaco de algodão peletizado. Permanente
5) 449 reais. Twin set rosa de cashmere e seda com bordados. Krishna
6) 389 reais. Twin set rosa de cashmere e seda. Krishna/Empório

A invenção é americana. Para atender a um público menos abastado, grifes caríssimas lançaram "marcas-filhotes", com preços mais baixos. Donna Karan criou a DKNY e Calvin Klein, a CK. As vendas cresceram e os italianos, rapidamente, aderiram à idéia: Giorgio Armani abriu o Emporio Armani, Versace inaugurou a Versus, Prada ficou um pouco mais acessível com a Miu Miu, e Dolce & Gabbana popularizou-se, digamos assim, por meio da D&G. Só os franceses desdenharam a fórmula, num misto de esnobismo e purismo. Entre os brasileiros, a onda vem tomando corpo nos últimos tempos. Segue-se, aqui, o mesmo padrão do Hemisfério Norte: a marca-filhote tem, geralmente, um estilo mais casual, com tecidos mais simples e sem detalhes que encarecem a peça em demasia, tais como bordados e forros luxuosos. O corte e o estilo da grife-mãe, no entanto, são preservados. Trata-se de um negócio praticamente infalível, já que duplica o apetite insaciável das multidões de clientes loucas por um logotipo da moda. Para essa freguesia, melhor que sair da loja com uma sacola de autênticos Versace, só mesmo ter a outra mão ocupada com uma pilha de roupinhas Versus.

O esquema está dando tão certo que algumas lojas-filhotes já superam as vendas da original. As nacionais Krishna Empório, da Krishna, e Maria Bonita Extra, da Maria Bonita, por exemplo, vendem 30% mais em número de peças do que as marcas das quais nasceram. De olho no filão, a estilista paulista Glória Coelho, dona da exclusiva G, lançou há três anos a grife Carlota Joaquina para "as adeptas da dupla jeans-camiseta". Andrea Saletto, com lojas no Rio de Janeiro e em São Paulo, abriu a Permanente há dois anos. A marca já é responsável por mais de 40% da produção da rede. Um trench coat da loja-mãe – chiquérrimo, de tafetá, totalmente forrado de cashmere – custa 1.320 reais. O casacão básico da Permanente, de algodão peletizado (coberto de uma penugem que parece pele), sai por 220 reais. Barato, barato não é. Mas comparado com o outro...

A principal justificativa para os preços estratosféricos nas lojas originais é o custo do material. Elas só usam tecido importado e acabamento de primeiríssima qualidade. Um fator que também encarece a roupa da grife-mãe é a fabricação própria – boa parte da produção da filhote é terceirizada, o que resulta numa grande economia. A exclusividade é outro item que torna o produto da primeira marca bem mais caro. "Em alguns casos, produzimos apenas cinco peças iguais", diz Eliana Dias da Cruz, da Krishna, que jamais aplica a mesma contenção na hora de fabricar blusas e saias para a Krishna Empório. Afora, é claro, o abuso puro e simples na hora de cobrar. As grifes brasileiras, muitas vezes, conseguem ser mais caras que suas equivalentes americanas e européias.

Em que pesem todas as diluições e os barateamentos, os preços da marca secundária, seja no Brasil ou lá fora, estão longe de ser uma pechincha. Muito pelo contrário – rara é a roupa que custa menos de um salário mínimo. "Mesmo usando material menos nobre, temos de manter nosso alto padrão de qualidade", alega a carioca Maria Cândida Sarmento, dona da Maria Bonita. Pode ser, mas também conta muito o fato de que popularizar demais a segunda grife mataria de ódio as clientes que desembolsam fortunas com a marca principal.

 
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