Ilhotas da cura
Depois
de trinta anos de pesquisa, cientistas
revertem diabetes com transplante de células
Fabio Schivartche
Esperanças
de um futuro menos sombrio para os diabéticos surgiram
na semana passada. Uma equipe de pesquisadores da Universidade
de Alberta, no Canadá, liderada pelo médico
inglês James Shapiro, anunciou 100% de êxito
em uma espécie de transplante capaz de reverter por
completo a doença. Trata-se de uma técnica
que vem sendo testada desde a década de 70, sem nunca
ter alcançado igual taxa de sucesso. O que os pesquisadores
fizeram foi extrair de cadáveres milhares de ilhotas
de Langerhans, as células produtoras de insulina
(veja quadro). Oito pacientes,
com idades entre 29 e 53 anos, vítimas desde a infância
de diabetes do tipo 1 a versão mais severa
da enfermidade, que só é controlada com injeções
diárias de insulina, o hormônio responsável
pelo metabolismo do açúcar no organismo ,
receberam as ilhotas por meio de injeções.
Passados onze meses do transplante, todos eles apresentam
taxas normais de açúcar no sangue.
A maioria das experiências
anteriores apresentou resultados menos animadores, com a
taxa de sucesso em torno de 10%. O principal motivo do fracasso
era a reação do sistema imunológico
do receptor, que atacava e destruía as ilhotas. A
experiência de Shapiro obteve êxito em virtude
da dosagem correta e, sobretudo, do processo de purificação
a que as ilhotas de Langerhans são submetidas antes
do transplante. Esse método parece ser a grande solução
para os diabéticos do tipo 1, que representam 10%
dos 150 milhões de doentes em todo o mundo. Ainda
é cedo, contudo, para dizer que essa é a cura.
Onze meses é pouco tempo para garantir que a moléstia
foi debelada. "Além disso, para que o transplante
funcione, os pacientes têm de se submeter até
o fim da vida a uma terapia imunossupressora", diz o endocrinologista
Freddy Goldberg Eliaschewitz, da Universidade de São
Paulo (USP). "Ou seja, só ficarão livres do
diabetes com a utilização de medicação
pesada, que baixa a resistência e os deixa suscetíveis
a doenças oportunistas, como infecções."
Eliaschewitz pertence
a um grupo da USP que há cinco anos estuda uma maneira
de embalar as ilhotas em microcápsulas, o que livraria
as células transplantadas do ataque imunológico
e o paciente das drogas imunossupressoras. O desafio é
desenvolver uma capa semipermeável que permita a
liberação da insulina mas impeça a
entrada das células de defesa do organismo. Outro
problema é que, com o encapsulamento ou não
das células, a técnica é ainda muito
cara. No processo de retirada, purificação
e transplante, perde-se cerca de 80% do total de 1 milhão
dessas células existentes no pâncreas. Ou seja,
para que um diabético receba a quantidade suficiente
de ilhotas são necessários, em média,
cinco doadores. Os cientistas acreditam que essa dificuldade
poderá ser minimizada com os avanços das técnicas
de clonagem. Os detalhes do trabalho da Universidade de
Alberta serão publicados no The New England Journal
of Medicine, uma das publicações científicas
mais prestigiadas do mundo.
Saiba
mais |
|
|
|