Edição 1 650 -24/5/2000

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Ilhotas da cura

Depois de trinta anos de pesquisa, cientistas
revertem diabetes com transplante de células

Fabio Schivartche

Esperanças de um futuro menos sombrio para os diabéticos surgiram na semana passada. Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canadá, liderada pelo médico inglês James Shapiro, anunciou 100% de êxito em uma espécie de transplante capaz de reverter por completo a doença. Trata-se de uma técnica que vem sendo testada desde a década de 70, sem nunca ter alcançado igual taxa de sucesso. O que os pesquisadores fizeram foi extrair de cadáveres milhares de ilhotas de Langerhans, as células produtoras de insulina (veja quadro). Oito pacientes, com idades entre 29 e 53 anos, vítimas desde a infância de diabetes do tipo 1 – a versão mais severa da enfermidade, que só é controlada com injeções diárias de insulina, o hormônio responsável pelo metabolismo do açúcar no organismo –, receberam as ilhotas por meio de injeções. Passados onze meses do transplante, todos eles apresentam taxas normais de açúcar no sangue.

A maioria das experiências anteriores apresentou resultados menos animadores, com a taxa de sucesso em torno de 10%. O principal motivo do fracasso era a reação do sistema imunológico do receptor, que atacava e destruía as ilhotas. A experiência de Shapiro obteve êxito em virtude da dosagem correta e, sobretudo, do processo de purificação a que as ilhotas de Langerhans são submetidas antes do transplante. Esse método parece ser a grande solução para os diabéticos do tipo 1, que representam 10% dos 150 milhões de doentes em todo o mundo. Ainda é cedo, contudo, para dizer que essa é a cura. Onze meses é pouco tempo para garantir que a moléstia foi debelada. "Além disso, para que o transplante funcione, os pacientes têm de se submeter até o fim da vida a uma terapia imunossupressora", diz o endocrinologista Freddy Goldberg Eliaschewitz, da Universidade de São Paulo (USP). "Ou seja, só ficarão livres do diabetes com a utilização de medicação pesada, que baixa a resistência e os deixa suscetíveis a doenças oportunistas, como infecções."

Eliaschewitz pertence a um grupo da USP que há cinco anos estuda uma maneira de embalar as ilhotas em microcápsulas, o que livraria as células transplantadas do ataque imunológico e o paciente das drogas imunossupressoras. O desafio é desenvolver uma capa semipermeável que permita a liberação da insulina mas impeça a entrada das células de defesa do organismo. Outro problema é que, com o encapsulamento ou não das células, a técnica é ainda muito cara. No processo de retirada, purificação e transplante, perde-se cerca de 80% do total de 1 milhão dessas células existentes no pâncreas. Ou seja, para que um diabético receba a quantidade suficiente de ilhotas são necessários, em média, cinco doadores. Os cientistas acreditam que essa dificuldade poderá ser minimizada com os avanços das técnicas de clonagem. Os detalhes do trabalho da Universidade de Alberta serão publicados no The New England Journal of Medicine, uma das publicações científicas mais prestigiadas do mundo.

 
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  Diabetesbrasil
  University of Alberta