Edição 1 650 -24/5/2000

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O terceiro segredo

O último mistério de Fátima era muito
menos empolgante do que se esperava

Cristiano Dias


AP

O papa: "Mão da Virgem desviou a bala"


O terceiro segredo de Fátima não é o fim do mundo, como muitos temiam. O mistério que pendeu sobre a cabeça dos cristãos como uma espada, segundo o papa João Paulo II, é apenas a premonição do atentado sofrido por ele há dezenove anos. Decepção para os catastrofistas, alívio para os mais crentes. "Um bispo vestido de branco, que reza junto aos fiéis, cai por terra, aparentemente morto, sob disparos de arma de fogo." Foram essas as palavras usadas pelo cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado do Vaticano, para reproduzir o que escreveu a irmã carmelita Lúcia dos Santos, 93 anos, uma das três testemunhas das aparições de Nossa Senhora, em Fátima, em 1917. A pouca relevância histórica decepcionou. "Para mim, a questão continua aberta para discussão", afirma o português Eulásio Figueira, professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

No dia 13 de maio de 1917, três meninos pastores – os irmãos Francisco e Jacinta Marto e a prima Lúcia dos Santos – presenciaram a primeira de várias aparições da Virgem. Francisco e Jacinta morreram pouco depois da última visão, vítimas da gripe espanhola, enquanto Lúcia se trancafiou em um convento carmelita. A princípio, o Vaticano olhou com desconfiança a história dos garotos pobres que conversavam com a mãe de Cristo. Somente em 1930, a Igreja portuguesa autorizou o culto a Nossa Senhora de Fátima. O fenômeno não é considerado um dogma de fé, mas uma devoção. "Ninguém deixa de ser católico se não acreditar na aparição de Fátima", explica Figueira.

 
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Lúcia, Francisco e Jacinta, os pastorzinhos em 1917, e irmã Lúcia, 93 anos, hoje: mistérios

Em 1941, irmã Lúcia revelou que a Virgem confidenciara três segredos às crianças. Dois deles, descritos por Lúcia em uma linguagem cifrada e recheada de metáforas, foram revelados em seguida. O primeiro era uma visão do inferno e da salvação por intermédio da devoção ao Coração de Maria. Naquele ano, os alemães dominavam metade da Europa e o inferno da visão foi associado à II Guerra Mundial. O segundo fazia referência à conversão da Rússia. "Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá, e haverá paz." A mensagem permaneceu incompreendida até 1991, quando a ruína do império soviético foi interpretada por muitos fiéis católicos como o cumprimento dessa profecia.

O terceiro segredo foi guardado para ser revelado em momento oportuno. Em 1943, Lúcia adoeceu gravemente. Com medo de que ele fosse com ela para o túmulo, o bispo de Leiria e Fátima, José Correia da Silva, propôs que a religiosa escrevesse o que sabia e enviasse ao papa. Dezenove anos depois do atentado na Praça de São Pedro, no Vaticano, João Paulo II resolveu revelar o que, a seu ver, é o terceiro segredo de Fátima. Ele sempre considerou um milagre ter sobrevivido ao ataque do extremista turco Mehmet Ali Agca. "Foi a mão de Nossa Senhora que desviou a bala", disse João Paulo II, um fervoroso devoto de Nossa Senhora de Fátima.

 
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