Edição 1 650 -24/5/2000

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O cavalo de 5 milhões

Baloubet du Rouet pode ganhar uma
medalha para o Brasil nas Olimpíadas

Maurício Cardoso


Divulgação
Baloubet com Rodrigo Pessoa: a dupla já venceu três vezes a Copa do Mundo


Quem montará o cavalo "Baloubet du Rouet" nas provas de hipismo dos Jogos Olímpicos de Sydney, em setembro, ainda é uma incógnita. Pode ser o campeão mundial de saltos, Rodrigo Pessoa. Ou pode ser seu pai, Nelson Pessoa, que tenta uma vaga na equipe brasileira para disputar sua sexta Olimpíada. Qualquer que seja o cavaleiro a pilotar o cavalo de sela francesa, grande é sua chance de voltar da Austrália campeão. Ninguém hoje no Brasil está tão próximo de uma medalha de ouro olímpica como Baloubet du Rouet, considerado pelos entendidos em cavalos e hipismo o melhor do mundo em sua espécie. "Ele é o melhor, sem dúvida", diz Rodrigo Pessoa, que em abril último conquistou com ele o tricampeonato da Copa do Mundo, um dos três principais títulos do hipismo mundial – os outros são o campeonato mundial e as Olimpíadas.

Rodrigo Pessoa, que também venceu o campeonato mundial em 1998, mas com outra montaria, reconhece que no hipismo de alta competição a vitória depende 70% do cavalo e 30% do cavaleiro. O que significa que quem estiver sobre a sela de Baloubet terá 70% do caminho andado em Sydney. "Só que, se o cavaleiro der 29%, ele perde." Os méritos do cavaleiro vão além disso. Um cavalo só vira um Baloubet na vida se tiver educação adequada. Isso quem dá é seu cavaleiro. "Cavalo é como criança: tem de receber carinho e correção na dose certa, senão fica malcriado", afirma Vitor Alves Teixeira, que está comemorando trinta anos de hipismo enquanto se prepara para garantir a vaga para Sydney. Nelson e Rodrigo foram os responsáveis pela boa criação de Baloubet. "Com os títulos que já ganhou e com os que vai ganhar ainda, Baloubet deve entrar para a história do hipismo como o melhor cavalo de todos os tempos", diz Teixeira.

Sem capim – Preço ele já tem. Há dois anos, o rei Hussein, da Jordânia, ofereceu 5 milhões de dólares para levá-lo para as cocheiras de sua filha. "O cavalo não está à venda", diz Rodrigo. Propriedade do empresário português Diogo Pereira Coutinho, Baloubet é filho do garanhão campeão "Galoubet" e da égua "Messanges", ambos resultado de cruzamento de raças francesas e inglesas. "É um fato raro, porque os melhores produtos de hipismo são de raças alemãs", afirma Samir Assad, criador de cavalos de hipismo de São Paulo. Galoubet já era um campeão, o que lhe garante a linhagem. "Em 70% dos casos, um campeão produz filhos bons, em 20%, filhos regulares, e em 10%, filhos que não servem para nada. Um supercavalo, como o Baloubet, é uma exceção que não entra nas estatísticas", diz Rodrigo. Baloubet foi comprado quando tinha 2 anos de idade, por 150.000 dólares, preço muito inferior ao que vale agora, mas muito superior ao de um cavalo comum daquela idade. Com 5 anos o cavalo começa a ser preparado para a competição e com 8 entra em torneios internacionais. Baloubet está agora com 11 anos e tem ainda pela frente uma carreira de pelo menos mais sete.

Baloubet vive no centro de treinamento que os Pessoa têm nos arredores de Bruxelas, capital da Bélgica. Passa quase o dia inteiro em uma baia de 10 metros quadrados, com uma janela para um corredor onde ficam os boxes que alojam outros treze cavalos aos cuidados da família. Dali ele sai duas vezes por dia. De manhã, faz meia hora de esteira e 45 minutos de trote. À tarde, treina saltos durante uma hora e fica outro tanto solto no pasto. Tudo em sua vida é feito sob medida e estrito controle. Ele faz cinco refeições por dia. Come 15 quilos de ração da grife holandesa Hartog, composta de grama ressecada, aveia, cevada, milho e melaço. Toma água de torneira, desde que tratada. "Mas não come capim natural. Tudo que entra em seu corpo tem de ter um motivo metabólico", explica Rodrigo. E quase tudo que sai se transforma em dinheiro. Ele fornece sêmen para inseminar duas centenas de éguas de raça por ano.

Viajar, para esses animais que vivem de um lado para outro do mundo, como um piloto de Fórmula 1 ou um jogador de tênis, é um problema. Não está na natureza deles. Quando desembarcou em Las Vegas, vindo da Bélgica, para disputar a Copa do Mundo, Baloubet estava com febre alta, provocada pelo stress da viagem. Mesmo assim competiu e venceu. Por isso, todas as precauções são tomadas. Baloubet deve viajar para Sydney com um mês de antecedência, em companhia de outros cinqüenta animais europeus. Vão ocupar um avião cargueiro de grande porte, no qual terão uma baia individual de 6 metros quadrados, com ar condicionado. Cada cavalo terá um tratador e cada grupo de dez, um veterinário. Com duas escalas, a viagem vai totalizar 24 horas. Todo cuidado é pouco. "O hipismo é um esporte diferente, porque seu equipamento é um ser vivo que sente e vibra", diz Rodrigo Pessoa.

 
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