Edição 1 650 -24/5/2000

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Mudança no sertão

A chegada das empresas ao interior do
Nordeste movimenta a economia local
e melhora a vida nas pequenas cidades

Gisela Sekeff, de Campina Grande


Eduardo Queiroga/Lumiar

McDonald's em Campina Grande: lanchonete atrai excursões das cidades vizinhas


Numa pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o crescimento industrial brasileiro, o Ceará despontou como o Estado que mais está crescendo. Com base nos dados do IBGE, verifica-se ainda que o produto interno bruto (PIB) da Região Nordeste aumentou mais do que o do restante do país. Mais: no Nordeste, a taxa de desemprego vem caindo nos últimos anos, ficando abaixo da média nacional. Os números mostram que, nos últimos dois anos, a região recebeu novas empresas ao ritmo de uma por dia. No total, elas geraram mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos. Calcula-se que a entrada de recursos tenha ultrapassado a casa dos 15 bilhões de reais.

A conseqüência dessa injeção de dinheiro pode ser conferida nas capitais, mas, pela primeira vez, é o interior que chama a atenção dos estudiosos. Em Campina Grande, na Paraíba, foi construído o primeiro McDonald's de todo o interior do Norte e Nordeste. Desde que foi inaugurada, no final do ano passado, a casa atrai excursões das cidades vizinhas. Os levantamentos feitos pelas secretarias estaduais de Indústria e Comércio mostram que algumas localidades semiletárgicas do sertão estão levando um choque de insulina com a chegada dos novos empreendimentos. O resultado é que em algumas cidades surgiram shopping centers, academias de ginástica, boates, restaurantes, carros importados.

O processo de desenvolvimento é feito em ondas. Quando uma empresa chega a uma cidade, ela emprega mão-de-obra. Também contrata uma empresa menor para fornecer a comida dos funcionários, outra para servir café e uma pequena transportadora, para ficar em alguns exemplos clássicos. Essa gente toda passa a receber salário e começa a consumir volumes que seriam considerados insignificantes numa grande cidade. Por lá, faz diferença. Veja-se o caso particular do arquiteto Expedito Pontes, de 41 anos, que mora na cidade de Sobral, a 238 quilômetros de Fortaleza. Para ele, a mudança em sua vida foi trazida pela chegada da fábrica de calçados Grendene, que se instalou no município há seis anos. Pontes não trabalha para a Grendene nem para as outras seis fábricas de calçados que também foram atraídas para Sobral. O que ele faz é construir casas destinadas em parte a funcionários das novas empresas. Recebe 25 encomendas por semana. Chega a faturar assombrosos 500.000 reais em um bom mês com o crescimento da cidade.

Para o caixa dos municípios, as empresas acabam operando milagres. A cidade de Araripina, no interior de Pernambuco, atravessava uma fase de decadência. Até a década de 70, vivia da colheita de mandioca. Com as secas, precisou encontrar uma nova fonte de renda. Hoje, a região conta com 320 indústrias gesseiras, responsáveis pela produção de 95% do gesso consumido no país. Em poucas cidades nordestinas a industrialização produziu tanto impacto quanto em Maracanaú, a 18 quilômetros de Fortaleza. A maioria das noventa indústrias que se instalaram no município só contrata quem tenha o diploma de 1º grau, no mínimo. O resultado foi imediato. Até 1997, 70% das crianças iam à escola regularmente. O índice subiu para 100%.


Leo Caldas/Lumiar

Cavalcanti: empresa de ônibus e patrimônio de 10 milhões de reais


Se o país sertanejo tivesse uma capital, ela seria Petrolina, em Pernambuco. Enquanto no resto do Brasil o número de celulares cresceu 25 vezes de 1994 até hoje, em Petrolina sua presença aumentou quarenta vezes. Prédios de luxo, até outro dia uma novidade no lugar, passaram a fazer parte do cenário. Quem quiser morar em imóvel alugado na orla do São Francisco, hoje toda urbanizada, precisará desembolsar 850 reais por mês, pouco menos que um apartamento de três quartos num bairro nobre de São Paulo. Petrolina tem hoje duas faculdades, 425 indústrias e shopping com duas salas de cinema, inaugurado em 1995. O crescimento da cidade é conseqüência da fruticultura. Um dos beneficiados indiretos do progresso local é Eurico de Sá Cavalcanti, de 65 anos. Na década de 70, ele comprou um ônibus para fazer transporte de passageiros. Em meados dos anos 90, a frota era de 75 unidades e duplicou nos últimos cinco anos. Seu patrimônio está avaliado em 10 milhões de reais.

O ciclo de prosperidade não alterou o panorama geral do Nordeste. A taxa de pobreza, a mais alta do país, atinge 52% de seus habitantes contra 16% no Sudeste. Com índices recordes de concentração de renda, o quadro nordestino é tenebroso no geral. A cada 100 nascimentos, seis crianças morrem, praticamente o dobro da média nacional. Para reverter esse quadro, as administrações estaduais estão lançando mão dos artifícios que estejam a seu alcance, inclusive a guerra fiscal. O Piauí, por exemplo, isenta o empresário do pagamento de impostos por até quinze anos. Em Alagoas, os incentivos fiscais trouxeram 200 novas indústrias e um salto de 50% no PIB industrial. Para as pessoas diretamente atingidas pela mudança, essas novidades são bem-vindas.

O Nordeste já passou por ciclos de desenvolvimento. O principal deles foi ligado à produção de cana-de-açúcar, que fez a região experimentar o apogeu nos séculos XVI e XVII. Depois da cana veio o algodão, que também entrou em decadência. Há décadas o Nordeste não consegue desenvolver uma nova vocação econômica. Além disso, vem sendo castigado por secas que engrossam a migração de nordestinos para o restante do país. Esse novo ciclo de desenvolvimento é um alento, mas pode estar com os dias contados. Em uma tentativa de impor limites à guerra fiscal, foi aprovada pelo Congresso a Lei de Responsabilidade Fiscal. Quando for regulamentada, os governos estaduais ficam praticamente proibidos de conceder incentivos às empresas que se instalam na região. Vão ter de encontrar outra forma para manter a adrenalina do crescimento em ação.

Com reportagem de Luiz Claudio Ferreira

 
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