Mudança no sertão
A chegada das empresas ao interior do
Nordeste movimenta a economia local
e melhora a vida nas pequenas cidades
Gisela Sekeff, de Campina Grande
Eduardo Queiroga/Lumiar
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McDonald's em Campina
Grande: lanchonete atrai excursões das cidades
vizinhas
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Numa pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) sobre o crescimento industrial
brasileiro, o Ceará despontou como o Estado que mais
está crescendo. Com base nos dados do IBGE, verifica-se
ainda que o produto interno bruto (PIB) da Região
Nordeste aumentou mais do que o do restante do país.
Mais: no Nordeste, a taxa de desemprego vem caindo nos últimos
anos, ficando abaixo da média nacional. Os números
mostram que, nos últimos dois anos, a região
recebeu novas empresas ao ritmo de uma por dia. No total,
elas geraram mais de 1 milhão de empregos diretos
e indiretos. Calcula-se que a entrada de recursos tenha
ultrapassado a casa dos 15 bilhões de reais.
A
conseqüência dessa injeção de dinheiro
pode ser conferida nas capitais, mas, pela primeira vez,
é o interior que chama a atenção dos
estudiosos. Em Campina Grande, na Paraíba, foi construído
o primeiro McDonald's de todo o interior do Norte e Nordeste.
Desde que foi inaugurada, no final do ano passado, a casa
atrai excursões das cidades vizinhas. Os levantamentos
feitos pelas secretarias estaduais de Indústria e
Comércio mostram que algumas localidades semiletárgicas
do sertão estão levando um choque de insulina
com a chegada dos novos empreendimentos. O resultado é
que em algumas cidades surgiram shopping centers, academias
de ginástica, boates, restaurantes, carros importados.
O processo de desenvolvimento é feito em ondas.
Quando uma empresa chega a uma cidade, ela emprega mão-de-obra.
Também contrata uma empresa menor para fornecer a
comida dos funcionários, outra para servir café
e uma pequena transportadora, para ficar em alguns exemplos
clássicos. Essa gente toda passa a receber salário
e começa a consumir volumes que seriam considerados
insignificantes numa grande cidade. Por lá, faz diferença.
Veja-se o caso particular do arquiteto Expedito Pontes,
de 41 anos, que mora na cidade de Sobral, a 238 quilômetros
de Fortaleza. Para ele, a mudança em sua vida foi
trazida pela chegada da fábrica de calçados
Grendene, que se instalou no município há
seis anos. Pontes não trabalha para a Grendene nem
para as outras seis fábricas de calçados que
também foram atraídas para Sobral. O que ele
faz é construir casas destinadas em parte a funcionários
das novas empresas. Recebe 25 encomendas por semana. Chega
a faturar assombrosos 500.000
reais em um bom mês com o crescimento da cidade.
Para o caixa dos municípios, as empresas acabam
operando milagres. A cidade de Araripina, no interior de
Pernambuco, atravessava uma fase de decadência. Até
a década de 70, vivia da colheita de mandioca. Com
as secas, precisou encontrar uma nova fonte de renda. Hoje,
a região conta com 320 indústrias gesseiras,
responsáveis pela produção de 95% do
gesso consumido no país. Em poucas cidades nordestinas
a industrialização produziu tanto impacto
quanto em Maracanaú, a 18 quilômetros de Fortaleza.
A maioria das noventa indústrias que se instalaram
no município só contrata quem tenha o diploma
de 1º grau, no mínimo. O resultado foi imediato.
Até 1997, 70% das crianças iam à escola
regularmente. O índice subiu para 100%.
Leo Caldas/Lumiar
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Cavalcanti: empresa
de ônibus e patrimônio de 10 milhões
de reais
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Se o país sertanejo tivesse uma capital, ela seria
Petrolina, em Pernambuco. Enquanto no resto do Brasil o
número de celulares cresceu 25 vezes de 1994 até
hoje, em Petrolina sua presença aumentou quarenta
vezes. Prédios de luxo, até outro dia uma
novidade no lugar, passaram a fazer parte do cenário.
Quem quiser morar em imóvel alugado na orla do São
Francisco, hoje toda urbanizada, precisará desembolsar
850 reais por mês, pouco menos que um apartamento
de três quartos num bairro nobre de São Paulo.
Petrolina tem hoje duas faculdades, 425 indústrias
e shopping com duas salas de cinema, inaugurado em 1995.
O crescimento da cidade é conseqüência
da fruticultura. Um dos beneficiados indiretos do progresso
local é Eurico de Sá Cavalcanti, de 65 anos.
Na década de 70, ele comprou um ônibus para
fazer transporte de passageiros. Em meados dos anos 90,
a frota era de 75 unidades e duplicou nos últimos
cinco anos. Seu patrimônio está avaliado em
10 milhões de reais.
O ciclo de prosperidade não alterou o panorama
geral do Nordeste. A taxa de pobreza, a mais alta do país,
atinge 52% de seus habitantes contra 16% no Sudeste. Com
índices recordes de concentração de
renda, o quadro nordestino é tenebroso no geral.
A cada 100 nascimentos, seis crianças morrem, praticamente
o dobro da média nacional. Para reverter esse quadro,
as administrações estaduais estão lançando
mão dos artifícios que estejam a seu alcance,
inclusive a guerra fiscal. O Piauí, por exemplo,
isenta o empresário do pagamento de impostos por
até quinze anos. Em Alagoas, os incentivos fiscais
trouxeram 200 novas indústrias e um salto de 50%
no PIB industrial. Para as pessoas diretamente atingidas
pela mudança, essas novidades são bem-vindas.
O Nordeste já passou por ciclos de desenvolvimento.
O principal deles foi ligado à produção
de cana-de-açúcar, que fez a região
experimentar o apogeu nos séculos XVI e XVII. Depois
da cana veio o algodão, que também entrou
em decadência. Há décadas o Nordeste
não consegue desenvolver uma nova vocação
econômica. Além disso, vem sendo castigado
por secas que engrossam a migração de nordestinos
para o restante do país. Esse novo ciclo de desenvolvimento
é um alento, mas pode estar com os dias contados.
Em uma tentativa de impor limites à guerra fiscal,
foi aprovada pelo Congresso a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Quando for regulamentada, os governos estaduais ficam praticamente
proibidos de conceder incentivos às empresas que
se instalam na região. Vão ter de encontrar
outra forma para manter a adrenalina do crescimento em ação.
Com reportagem de
Luiz Claudio Ferreira
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