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Edição
1 650 -24/5/2000
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Está quase tudo a
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Ricardo Benichio![]() |
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| O empresário Nardinelli, de São Paulo: guinada na vida pessoal | |
Nos últimos seis anos, 1.100 empresas privadas brasileiras foram compradas por multinacionais. A história do capitalismo registra poucos processos de transferência de controle tão intensos quanto esse, num prazo tão curto. Houve vendas em 34 setores da economia, entre os quais agroindústria, alimentação, autopeças, embalagens, eletroeletrônicos, produtos químicos, metalurgia, supermercados, tecelagem. Símbolos da indústria brasileira como a Cofap, a Metal Leve, a Arisco e a Arno passaram a ostentar, respectivamente, bandeira italiana, alemã, americana e francesa. O processo de troca de controle produziu efeitos variados sobre a economia. Um dos mais interessantes foi observado numa pesquisa exclusiva realizada por VEJA sob orientação da firma de consultoria KPMG. O trabalho visava identificar o destino dado pelos empresários brasileiros ao dinheiro recebido como pagamento pela venda de suas companhias.
Do
total de empresas vendidas a estrangeiros, a KPMG preparou
uma lista com as 189 transações que considerou
mais significativas. Os nomes das companhias foram selecionados
ou porque os valores envolvidos eram elevados ou porque
o empresário que vendia a firma era uma figura conhecida
e respeitada por suas iniciativas no cenário empresarial
brasileiro. Entre os 189, VEJA localizou 131 ex-proprietários.
Desses, 101 concordaram em contar o que fizeram com os recursos
auferidos nas vendas de suas companhias. A pesquisa mostra
que:
.62%
dos empresários entrevistados declaram não
ter reinvestido no setor produtivo um único real
recebido na transação. Esses empresários
preferem ficar fora do mercado por motivos diversos, sendo
três os principais. Primeiro: o volume de recursos
que restou em suas mãos após o pagamento de
dívidas contraídas é insuficiente para
fazer frente aos projetos que têm em mente. Segundo:
estão desanimados e pessimistas com o mercado. Terceiro:
a decisão de ficar fora dos negócios pode
não ser definitiva, mas aguardam até que surja
uma possibilidade atraente de investimento.
.20%
dos entrevistados dizem que, segundo o contrato de venda,
ficou combinado que permaneceriam trabalhando na firma como
conselheiros ou mesmo como presidentes. Esses empresários
afirmam ter injetado uma parte do valor recebido na própria
companhia não todo o dinheiro.
18% deles, apenas, informam ter usado parte do dinheiro
da venda das empresas num novo empreendimento. O resto está
no banco rendendo juros e nenhuma dor de cabeça para
o feliz proprietário da fortuna.
Ou seja, de cada dez empresários que venderam seus negócios a estrangeiros, seis abandonaram a atividade produtiva e dois viraram "empregados". Só dois permanecem na vida empresarial, na condição de capitães de indústria. Há um dado adicional da pesquisa que chama a atenção. Perguntados sobre o volume de capital investido no novo empreendimento após a venda de suas antigas empresas, os 18% que reaplicaram o dinheiro num negócio próprio informaram que o montante gira em torno de 30% do total recebido, em média.
Bia Parreiras![]() |
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| Accioly: vendeu a empresa depois de receber não uma oferta, mas a oferta | |
Para comprar as companhias, os grupos estrangeiros desembolsaram cerca de 50 bilhões de dólares. Um exercício matemático livre em que se aplicam os porcentuais da pesquisa ao volume global do investimento dá uma dimensão mais clara do caminho do dinheiro. Supondo que todas as empresas tenham sido comercializadas pelo preço médio das transações, 45 milhões de dólares, os empresários brasileiros que venderam suas firmas só reaplicaram 6 bilhões de dólares no setor produtivo ou seja, 12% do total recebido. Estariam mantendo 44 bilhões de dólares dormindo no banco, rendendo juros.
Criou-se, assim, uma situação paradoxal. O empresário estrangeiro, freqüentemente acusado de rapinar a riqueza pátria, injetou uma quantia gigantesca na economia brasileira para adquirir fábricas. Já o empresário brasileiro pegou o grosso do dinheiro, depositou no banco e está vivendo de renda. O empresário nacional que se desfez de seus negócios gosta, é óbvio, dos juros altos que pode obter com as aplicações financeiras, ficando sem trabalhar. Mas há outra razão para não ter voltado ao investimento produtivo. Vivendo num país que por décadas foi sacudido por crises, esse empresário se cansou da insegurança e dos obstáculos que o Brasil impõe ao empreendedor capitalista.
Claudio Rossi![]() |
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| Kasinski, ex-dono da Cofap: segundo sindicato, italianos demitiram mais da metade do pessoal | |
Aos 70 anos, o empresário Roberto Luís Vianna Rego aplicou em fundos de renda fixa todo o dinheiro da venda de sua companhia de seguros, a York Ltda., fundada por ele em 1958 no Rio de Janeiro. "Trabalhei durante quarenta anos e me cansei de pagar muito e lucrar pouco. Somente uma grande oportunidade me faria investir em algo novo. Como não vejo nada, estou tocando minha vida", diz. Oficialmente, Vianna Rego integra o conselho consultivo da nova companhia, mas sua função é decorativa. "Não apareço lá há meses." Já Marcelo Lemos de Moura Leite, vendeu a Laticínios Avaré para a americana Nabisco por 30 milhões de dólares. Cerca de 20 milhões foram usados para saldar dívidas da empresa. Parte do dinheiro foi investida no mercado imobiliário, o que complementa a renda mensal de dividendos captados por ele. "Nunca mais entro em negócios de risco", afirma. Outro empresário conta uma história semelhante. "Eu me endividei tanto para tentar tornar minha empresa competitiva que não consegui pagar os débitos que contraí", afirma o paulista Oswaldo Nardinelli, que repassou aos japoneses uma fábrica que produz baterias para o ramo de telecomunicações. À frente da empresa fundada pelo pai em 1944, a Acumuladores Narvit, Nardinelli colocou 5 milhões de reais no bolso e deu uma guinada em sua vida pessoal depois da venda. "Como o dinheiro era pouco e as perspectivas nulas, resolvi viver a vida: estou escrevendo um livro de culinária e gastando meu dinheiro", diz.
Há cerca de 6 milhões de empresas em atividade no Brasil, contando desde padarias até metalúrgicas. Esse universo é um organismo vivo, pois todo ano milhares de companhias vão à falência e outras tantas abrem as portas. Pode-se dizer também que empresas são como pessoas. Elas morrem. Apenas para se ter uma idéia, das 25 maiores empresas americanas do início do século XX, só duas completaram 100 anos: a General Electric e a U.S. Steel, hoje rebatizada com o nome de USX. Não existe nenhum levantamento dessa natureza no Brasil. A base da pirâmide empresarial brasileira é formada por micro e pequenas empresas, aquelas cujos donos as chamam de firma. A parte superior inclui um grupo reduzido de 50.000 médias e grandes companhias, justamente as que despertam a cobiça estrangeira. No alto da pirâmide estão os 139 grupos com patrimônio superior a 100 milhões de dólares. As 1.100 empresas que passaram ao controle estrangeiro e foram listadas pela KPMG estão na metade superior da pirâmide boa parte, no pico.
Raul Junior![]() |
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| Varga: as limitações não o desanimaram | |
Modesta abertura econômica Conforme o tempo passa, o ingresso de capital estrangeiro na vida econômica nacional vem se tornando cada vez mais intenso. Isso é normal nos países de economia aberta, ainda mais em um mundo globalizado. Há estudos segundo os quais cada 1% de acréscimo no investimento estrangeiro na indústria resulta em um aumento de até 1,8% na produtividade das empresas. Em 1990, apenas um terço das companhias vendidas era adquirido por firmas estrangeiras. Em 1996, a taxa aproximou-se dos 50%. Atualmente, 70% das compras de empresas são feitas por multinacionais. Com isso, a participação do capital estrangeiro na economia brasileira praticamente triplicou. Há dez anos, 8% do produto interno bruto (PIB) brasileiro referia-se a investimentos multinacionais. Atualmente, essa participação está na casa dos 20%. A abertura provocou entusiasmo naqueles que defendem um capitalismo competitivo. Em compensação, os amantes do capitalismo de porteira fechada e com amplo domínio estatal ficaram furiosos. Alegam eles que o Brasil trocou o exagero do claustro pelo exagero contrário, o da permissividade excessiva aos donos do dólar. Os números da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento sugerem que não há motivo para preocupações. Com 20% de capital estrangeiro no PIB, o Brasil está num patamar relativamente modesto de abertura. São mais receptivos ao capital internacional do que o Brasil países desenvolvidos como o Canadá (23%), Inglaterra e Suécia (24%), Austrália (29%), Holanda (44%). Há uma comparação inquietante na lista. A China comunista, com 27% de abertura ao capital internacional, é mais receptiva ao investimento estrangeiro do que o Brasil dos 20%. O fenômeno no Brasil é o choque da abertura. Como o processo começou há pouco tempo e seu ritmo é intenso, as pessoas ficam com a impressão de estarem assistindo ao funeral da economia nacional. Não é isso que está acontecendo.
Regis Filho![]() |
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| Veríssimo: briga com as primas acabou na delegacia | |