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Edição 1 748 - 24 de abril de 2002
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Stephen Kanitz

Minha amiga,
a irmã Lina

"Hoje, a grande moda é premiar empresas
socialmente responsáveis, não entidades
que há muito vêm fazendo
o bem sem alarde"


Ilustração Ale Setti


Eu conheço uma verdadeira santa. Não é todo mundo que tem esse privilégio. Vou contar como a conheci, para que todos façam o mesmo e descubram outras santas escondidas por aí.

Trinta anos atrás criei um prêmio para as melhores empresas do país, o Melhores e Maiores. Decidi então criar o Prêmio Bem Eficiente, para entidades beneficentes. Alice Carta levou-me para conhecer uma entidade superséria, e quando cheguei lá ouvi a palavra lepra (hanseníase). Fiquei em pânico, queria sair dali o mais rápido possível. Foi quando a vi pela primeira vez.

É uma religiosa de 81 anos, que há 49 veio jovem da Itália cuidar dos hansenianos do Brasil. Perdeu 9 quilos na viagem e ainda se esqueceram de buscá-la quando desceu do navio.

Na época existia uma lei de confinamento para as pessoas portadoras desse mal – todas eram obrigatoriamente enclausuradas num asilo, em Guarulhos. Era uma prisão perpétua, e ninguém queria cuidar deles, nem amigos nem parentes, com exceção da irmã Lina.

Não dando importância ao fato de que provavelmente também contrairia a doença, ela viveu ali cuidando de mais de 1.000 hansenianos, onde ficou nada menos que trinta anos se dedicando a eles.

A história não pára por aí. Com os avanços da medicina da época, o mal foi quase erradicado, e isso permitiu que a irmã Lina mudasse de preocupação (o problema ainda é grave em algumas regiões do país). Então, ela criou uma creche para os filhos de hansenianos e dedicou-se a eles por mais dezenove anos, até ficarem adultos. Não satisfeita, ela tem uma entidade que cuida de 500 crianças abandonadas, uma das mais eficientes que já vi. As crianças são felizes, têm uma auto-estima que raramente vejo nos alunos das escolas de bairro.

Tive o privilégio de conferir, por duas vezes, o Prêmio Bem Eficiente a sua instituição, e ela será novamente contemplada, no dia 14 de maio, mas isso não é mais notícia. Hoje, a grande moda é premiar empresas socialmente responsáveis, não entidades que há muito vêm fazendo o bem sem alarde. Já existem dez prêmios para empresas com nomes como A Empresa Cidadã, A Empresa Social, A Empresa Responsável.

Antigamente, marketing social era o que as entidades faziam para aparecer. Agora significa tornar empresas socialmente visíveis a todo custo. Doar anonimamente, como rezam todas as religiões, nem pensar.

A filantropia por parte de empresas vem caindo ano a ano, porque muitas preferem montar o próprio instituto com o nome da marca da empresa. Em vez de uma Fundação Bill Gates, no Brasil privilegiam-se a "marca" e o marketing da empresa. Ao se decidirem por um projeto próprio, muitas companhias preferem não mais apoiar causas como a hanseníase, a prostituição infantil, o abuso sexual, a velhice, a cegueira, considerados "mercadologicamente incorretos".

Departamentos de marketing de empresas "socialmente responsáveis" acham melhor apoiar causas como educação, crianças ou ecologia. Criança é mais fotogênica que idoso ou leproso. Empresa não quer, nem pode, ter sua marca associada a um problema social "mercadologicamente incorreto", e quem perde são os mais necessitados.

Não bastasse tudo que a irmã Lina já fez pelo Brasil, longe de sua família e da ajuda do governo italiano, ela luta agora para salvar seu hospital, em Guarulhos, que vem mantendo com muito esforço. Já pediu a Deus e a todo mundo os 3 milhões de reais de que precisa para completar o que será sua última obra.

Não vou dar o nome de sua instituição, seu endereço nem seu nome completo, porque quero que todos saiam e procurem os milhares de santas que ainda temos por aí, desconhecidas, esquecidas e cada vez mais abandonadas.

Obrigado a todas as irmãs Linas por tudo o que fazem por este país.

 

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 
 
   
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