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Roberto Pompeu de Toledo

O pequeno George no divã

A melhor explicação está em
Freud. A luta de Bush filho é
contra
a sombra do pai

Como superar papai? Eis a questão que se põe diante dessa figurinha entre o papalvo e o espalha-brasas, o tatibitate e o ferrabrás, o menino mimado e o atrevido, que é o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. O mundo assiste com nervosismo crescente às peripécias do pequeno George. Ele é como o filho do ricaço do bairro que ouve música no volume que bem entende, brinca de quebrar vidraças, invade quintais e sai a toda velocidade nos carros de sua coleção. Dado o arsenal a seu alcance, resistir quem há de?

Recapitulemos seus feitos. Em sua faceta de menino mimado, que não está nem aí para a opinião dos outros, rasgou o Protocolo de Kioto sobre o meio ambiente. Na de espalha-brasas, favoreceu, apesar dos reclamos dos aliados, uma escalada do protecionismo americano. Na de ferrabrás, desfechou uma guerra contra os loucos furiosos do Afeganistão e gostou tanto que quer outra, contra o Iraque de Saddam Hussein, e talvez outras mais. Na faceta de papalvo, na mesma guerra do Afeganistão, deixou escapar aquele que tanto pintara como o inimigo supremo, Osama bin Laden. Na de atrevido, fez de um exilado cubano, Otto Reich, obstinado como costumam ser os exilados cubanos, e além disso suspeito de participação em manobras ilegais contra o governo da Nicarágua, ao tempo dos sandinistas, seu subsecretário de Estado para assuntos do continente americano. Na de tatibitate, num dia ordena aos israelenses que se retirem dos territórios palestinos e no outro os estimula a ficar, numa hora afirma-se de paciência esgotada com Ariel Sharon e na outra como que lhe dá uma piscadela de cumplicidade: "Vá em frente".

Só faltava, para completar, que Bush viesse a contrariar a política de promoção das democracias, ao redor do mundo, e condenação dos golpes de Estado, que é apanágio da diplomacia dos Estados Unidos desde o presidente Jimmy Carter, em oposição ao passado de apoio a não importa que ditaduras, quando alinhadas com os interesses americanos. Não falta mais. No episódio da deposição do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, o governo americano traiu-se de novo. Assim como já traíra sua alegada defesa do livre mercado, ao adotar práticas protecionistas, traiu este outro sagrado artigo de fé, que é a defesa da democracia, ao omitir-se em face da ação totalmente fora dos trilhos institucionais desfechada contra Chávez, um presidente legítimo, ainda que falastrão e amalucado. Os demais governos do continente condenaram o golpe. O dos Estados Unidos limitou-se a declarar que Chávez fez por merecer sua sorte. Nenhuma palavra sobre um "presidente", o patético empresário Carmona, surgido do nada, apoiado em si mesmo e numa trempe de amigos e sócios nos negócios, e que ainda por cima, como primeiras medidas, fechou o Parlamento e a Suprema Corte e jogou para as calendas uma eventual eleição.

Não se trata só de incompetência. Nem só do direitismo agudo que assola o governo americano. Tentemos outra explicação. Recorramos a Freud. Deitemos o pequeno Bush no divã. O quadro que emerge é o do menino em luta contra a sombra do pai. Ele quer fazer mais e melhor. Não nos esqueçamos de que foi um jovem-problema, dado a bebedeiras. Recuperou-se, fez-se homem de bem e ei-lo – superior recompensa do destino – na cadeira que foi de papai. Como proceder daqui para a frente? Duas possibilidades se abrem. A primeira é fazer tudo ao contrário do velho. Seria o modo mais espetacular de afirmar-se diante dele. Mas como, se o pequeno George regenerou-se, enquadrou-se e adotou o reto caminho? Sobrava a opção de completar e superar o pai.

Lembremos a presidência do primeiro Bush (1989-1993). Ela foi marcada por sucessos retumbantes no fronte externo: queda do Muro de Berlim, desfazimento da União Soviética... Para culminar, uma vitória, na Guerra do Golfo, que deixou o mundo boquiaberto diante do poderio da hiperpotência que, solitária, raiava como novo e indisputado sol sobre o globo. Dura tarefa, a do filho, diante de tal coleção de triunfos. Mesmo assim, foi à luta. Se o pai fez uma guerra contra o Iraque, quer fazer outra. Se não há um Império do Mal como foi a União Soviética, inventou um Eixo do Mal, ainda que formado por potências de médias a raquíticas, como o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte. O Bush pequeno empenha-se em completar e dobrar a aposta do Bush grande.

O senador Christopher Dodd, do Partido Democrata, afirma que já está na hora de a política externa americana ganhar "uma supervisão mais adulta". Para seu gosto, está infantil demais. Bush conta ainda com amplo apoio da opinião pública, mas na verdade o povo americano não é como ele. A média da população não está tão à direita nem é a favor de políticas tão auto-suficientes ou desrespeitosas. Explica-se o apoio a Bush ainda pelo trauma dos atentados terroristas de setembro, mas até quando? Lembremo-nos, para ficar no exemplo do velho Bush, de que ele também bateu recordes de popularidade, na época da Guerra do Golfo, para depois ir definhando, definhando – e perder a reeleição.

   
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