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O enigma Houellebecq

Seria o autor francês um novo
Albert Camus ou apenas um
romancista medíocre e apelativo?

Moacyr Scliar*

Veja também
Trechos de Plataforma
Trechos de Extensão do Domínio da Luta

Fazia muito tempo que não surgia na França, o país da polêmica intelectual, uma controvérsia literária tão intensa. Toda ela gira em torno de um nome - o do escritor Michel Houellebecq. Alguns o consideram um Albert Camus da geração digital e um destemido radical. Para outros, é um autor medíocre e apelativo e um conservador feroz. Dificilmente se chegará a um consenso sobre esse ainda jovem autor - tem 44 anos -, de vida tão tumultuada quanto sua ficção. Entregue pelos pais a uma avó comunista, Houellebecq formou-se em agronomia, casou-se, teve um filho, divorciou-se, foi hospitalizado por depressão. Começou a escrever muito cedo, mas a glória só veio em 1998, com Partículas Elementares (já publicado no Brasil). Trata-se da história de dois meios-irmãos que buscam na ciência e no sexo, respectivamente, uma resposta para os enigmas da existência. Uma busca fadada ao fracasso: a revolução científica afastou Deus e a revolução sexual resultou em decepção. Esse é o tom que prevalece também em dois de seus romances que chegam agora ao Brasil - o mais recente, Plataforma (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman; Record; 384 páginas; 30 reais), e Extensão do Domínio da Luta (tradução de Juremir Machado da Silva; Sulina; 142 páginas; 21 reais), de 1994.

"Atualmente, o valor de um ser humano é medido por sua eficácia econômica e seu potencial erótico", disse Houellebecq num ensaio. Sua ficção segue essa fórmula - para ironizá-la. Os personagens de Domínio da Luta são um exemplo disso. O narrador trabalha com computadores (como Houellebecq o fez) e tem de viajar a trabalho com um colega medíocre, alienado e frustrado na cama. O narrador, ele próprio atormentado pela obsessão por sexo, tenta convencer o amigo a perpetrar um crime sexual - visto, à semelhança do que Camus descreve em O Estrangeiro, como uma espécie de antídoto contra o tédio.

Plataforma teve uma repercussão ainda maior que Domínio da Luta. Mistura turismo sexual e Islã. De novo, o narrador é um tipo meio esquisito. O pai morre e deixa-lhe uma herança. Michel (como se vê, Houellebecq não tem problemas em dar a personagens seu próprio nome) faz uma viagem à Tailândia. Lá, entre visitas a bordéis, descritas em páginas titilantes, conhece Valérie, executiva de uma companhia de turismo. Nasce uma paixão tórrida. Com Valérie, Michel tem uma idéia não muito original: criar clubes de turismo sexual. O primeiro deles funcionará no paradisíaco litoral tailandês. Mas terroristas islâmicos atacam o lugar, deixando dezenas de mortos, entre os quais Valérie. Michel decide escrever a história como meio de elaborar o luto.

Plataforma é um livro provocador e politicamente muito incorreto. Houellebecq fala mal de muitos lugares: da Tailândia, de Cuba e de São Paulo, que ganha algumas linhas sobre seus assaltos, suas quadrilhas e seus ricos que se deslocam de helicóptero (já a lingerie brasileira é mencionada com entusiasmo). Mas foram as referências aos muçulmanos que causaram a maior polêmica. Lemos que o Islã se caracteriza "por uma sucessão ininterrupta de guerras, invasões e massacres". E, depois do atentado descrito no livro, o personagem Michel diz sentir "um arrepio de entusiasmo" sempre que ouve que um palestino - terrorista, mulher ou criança - foi abatido por uma bala. Não é de surpreender que o romance tenha desencadeado uma onda de protestos.

O fato é que Houellebecq põe o dedo em feridas dolorosas. Faz um retrato perturbador da cultura ocidental: uma cultura, para ele, estagnada ou até decadente, mas que paradoxalmente mantém o poder econômico, científico e intelectual. "Vão me esquecer bem rápido" é a última frase do protagonista de Plataforma. Soa como vaticínio para a sociedade que Houellebecq retrata e que o produziu.

 

* Moacyr Scliar é escritor, autor de
A Mulher que Escreveu a Bíblia, entre outros livros.



   
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