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Na porta da esperança

Três brasileiros enfrentam
um concurso mundial, na
tentativa de virar pupilos
do maestro Lorin Maazel

Sérgio Martins

 
Maazel: estágio inclui aulas no teatro particular do maestro e dicas sobre como dar entrevistas

Veja também
Para ouvir: as obras que serão interpretadas pelos candidatos

Tente imaginar Paul McCartney ou Mick Jagger organizando gincanas ao redor do planeta para recrutar novos integrantes para suas bandas. Pois o mundo da música clássica vive agora uma situação comparável. O maestro americano Lorin Maazel, de 71 anos, desembarca nesta semana em São Paulo para supervisionar a quinta e penúltima eliminatória do Maazel/Vilar Conductors' Competition, um concurso que vai escolher aprendizes para o regente. Os testes serão realizados entre sexta e domingo no Teatro Municipal e os classificados disputarão a final no Carnegie Hall, em Nova York. Os vencedores devem ganhar 45.000 dólares e o privilégio de realizar três anos de estágio ao lado de Maazel. O treinamento incluirá ensaios com as principais orquestras do mundo, aulas sobre como escolher o repertório para um concerto e até mesmo dicas para enfrentar repórteres em entrevistas. Um dos maiores maestros surgidos no século XX, Maazel recentemente foi eleito diretor musical da prestigiadíssima Filarmônica de Nova York, cargo que assume em 18 de setembro. É isso que torna o concurso tão importante. É a primeira vez que um regente dessa envergadura sai do olimpo para avaliar novos talentos da batuta. "É preciso cuidar desses meninos. Eles estão mais interessados em ganhar dinheiro gravando qualquer coisa do que em saber como preparar uma orquestra", disse Maazel a VEJA.

 

MARCELO RAMOS, 29 anos

Alberto Cesar Araujo


Filho de um ex-regente de orquestra da cidade mineira de São João del Rei, ele balançou entre a música e a Igreja. "Fui coroinha por seis anos." Estudou com o maestro Eleazar de Carvalho e hoje é regente-assistente da Amazonas Filarmônica. Ramos é fã do austríaco Herbert von Karajan, mas desaprova o estilo ditatorial do maestro. Suas especialidades são Richard Strauss e Villa-Lobos

A organização do concurso, incluindo os prêmios, está orçada em 3 milhões de dólares. Maazel entrou só com o nome e o prestígio. O dinheiro saiu do bolso do empresário americano Alberto Vilar, que costuma patrocinar a Ópera de Nova York e a Royal Opera House, de Londres, entre outras casas de espetáculo. O Mozarteum Brasileiro tratou de organizar em São Paulo a etapa sul-americana. "Maazel sabe das qualidades do músico brasileiro", diz Sabine Lovatelli, presidente do Mozarteum. Dos 55 sul-americanos que mandaram seus currículos para a gincana da regência, 37 eram brasileiros. Desses, foram pinçados três maestros: os paulistas Rodrigo de Carvalho e Mateus Araujo, de 28 e 31 anos, respectivamente, e o mineiro Marcelo Ramos, de 29 anos – todos de classe média baixa. Os caminhos de Mateus Araujo e Marcelo Ramos têm se cruzado com freqüência. Nascido em São João del Rei, Ramos migrou para São Paulo na década passada a fim de se aprimorar como músico. Ganhou a vaga de violoncelista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Para equilibrar as contas, formou um grupo de música de câmara – no qual Araujo atuou como violista. "Morávamos no mesmo apartamento, e Ramos dividia até os centavos das nossas despesas", brinca Araujo. Já Rodrigo de Carvalho se iniciou na música por influência de sua mãe, professora do Conservatório de Música de Tatuí, no interior paulista. O que começou como obrigação logo virou gosto. "Rodrigo discutia com a classe inteira para provar que Brahms era mais talentoso que Chopin", diverte-se uma amiga. Carvalho estudou regência na Unicamp. Quatro anos depois, ganhou uma bolsa de estudos para completar o curso na prestigiada Academia Franz Lizst, na Hungria. Hoje, atua como regente convidado da Savarian Symphony Orchestra, naquele mesmo país, por um salário de 1.000 dólares. "O resto do orçamento vem do 'paitrocínio'. Meus pais e tios pagam minhas contas", diz.

 

RODRIGO DE CARVALHO, 28 anos

Antonio Milena


O regente paulista é o orgulho da mãe, professora do Conservatório de Tatuí. Ganhou nota 10 em seu concerto de formatura e tem dedicado seis horas diárias a ensaios. Admira o maestro letão Mariss Jansons e o compositor Brahms. "Adoro a obra dele. E logo vou chegar aos 30 anos, idade ideal para reger suas sinfonias"

Lorin Maazel ainda não tem uma idéia exata de como será o estágio dos vencedores – o número de aprovados depende dos humores do maestro. A regularidade com que eles serão convocados também não está definida. "O maestro construiu um teatro em sua fazenda, no Estado americano da Virgínia. Eles poderão ter aulas ali. Maazel quer, ainda, chamar músicos e maestros de renome para dar aulas aos vencedores", diz Douglas Beck, um dos diretores do concurso. "Maazel poderá até usar de sua influência para arrumar uma vaga na Ópera de Nova York para um de seus aprendizes", completa.

 

MATEUS ARAUJO, 31 anos

Antonio Milena


Paulistano do bairro do Bixiga, regeu a Orquestra Jazz Sinfônica e trabalhou nos arranjos da nova versão do musical O Grande Circo Místico, de Edu Lobo e Chico Buarque. Sem dinheiro para comprar discos, conheceu diversas sinfonias graças à discoteca do Centro Cultural São Paulo. "Descobri que Shostakovich e Mahler são mais pauleira que os Ramones", provoca

O trio de brasileiros irá concorrer com adversários muito mais bem preparados. O Brasil possui um total de 128 orquestras, entre profissionais e amadoras. Para efeito de comparação, a Venezuela, país do tamanho do Estado de Mato Grosso, tem 168. Os cursos de regência nacionais são carentes até de orquestras com que os alunos possam treinar. Muitos se vêem na contingência de usar fitas (isso mesmo, fitas!) de gravações famosas, para que os novatos aprendam a empunhar a batuta. "Um maestro tem de ditar seu ritmo para a orquestra. Como irá se aperfeiçoar nessa arte copiando a marcação alheia?", espanta-se Lorin Maazel, que não fazia idéia de que tal disparate ocorresse em escolas brasileiras. Se um dos brasileiros for aprovado pelo maestro, ele terá a oportunidade única de usufruir da estrutura de que goza a música erudita no Primeiro Mundo. Mas também terá de enfrentar uma das personalidades mais exigentes do mundo da música clássica. Em bom português, Maazel não é bolinho.

As obras que serão interpretadas
pelos candidatos

Obrigatórias:

1. Stravinsky: Sinfonia em Três Movimentos
Ouça a versão do regente Pierre Boulez com Filarmônica de Berlim
Ouça a versão do regente Lorin Maazel com a Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera

2. Ravel: Tzigane
Ouça a versão regida por James Levine
Solista: Anne-Sophie Mutter

Orquestra: Filarmônica de Viena

3. Mozart: Don Ottavio, son Morta (Don Giovanni)
Ouça a versão do regente Claudio Abbado com a Orquestra de Câmara da Europa
Ouça a versão de Lorin Maazel com Coro e Orquestra da Ópera de Paris

Além das obras acima, cada candidato deverá ensaiar um destes trechos, que será designado pela organização da competição:

1. Mozart: Sinfonia Número 39 (I. Adagio - Allegro)
Ouça a versão do regente Riccardo Muti com a Filarmônica de Viena
Ouça a versão do regente Karl Bohm com a Filarmônica de Berlim

2. Beethoven: Sinfonia Número 4 (II. Adagio)
Ouça a versão de Claudio Abbado com a Filarmônica de Berlim

3. Schubert: Sinfonia Número 4 (IV. Allegro)
Ouça a versão de Claudio Abbado com a Orquestra de Câmara da Europa
Ouça a versão de Herbert von Karajan com a Filarmônica de Viena

4. Dvorak: Sinfonia Número 7 (I. Allegro maestoso)
Ouça a versão de Leonard Bernstein com a Filarmônica de Nova York

 

   
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