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Feitas
para agradar
Mostra em São Paulo reúne
138 obras de Renoir, o artista
que não tinha vergonha de
celebrar a beleza
Marcelo
Marthe
Fotos divulgação
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Os
Remadores em Chatou (à
esq.) e A Dança em Bougival
(à dir.): a
explosão de cores e as
pinceladas fortes do
impressionismo, em
flagrantes da vida
no século XIX
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Veja também |
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"Por
que a pintura não pode ser bela? O mundo já tem coisas desagradáveis
demais." A frase do pintor francês Pierre-Auguste Renoir resume
bem o espírito de sua obra. Enquanto o compatriota Édouard
Manet cultivava fama de rebelde e o holandês Van Gogh expiava seus
fantasmas em telas atormentadas, o artista tinha uma visão mais
amena: achava que a pintura existia, antes de tudo, para maravilhar as
pessoas. Isso, ele soube fazer como poucos. Um dos fundadores do impressionismo,
o movimento que sacudiu a arte no fim do século XIX com sua explosão
de cores e pinceladas livres, Renoir tornou-se um campeão de popularidade.
Criou obras famosas a partir de flagrantes da vida em Paris, como a cena
de rua estampada no quadro Le Moulin de la Galette. Exímio
retratista, fez desse ofício o perfeito cruzamento entre a representação
naturalista e a arte em seu lirismo mais elevado. Renoir sofreu alguma
influência da fotografia então uma atividade nascente
na composição de seus retratos. Mas ele alcança
um efeito que esse meio dificilmente atinge: suas telas parecem ter alma.
Pela primeira vez, uma amostra abrangente de sua produção
chega ao Brasil com a exposição Renoir O Pintor
da Vida, em cartaz a partir desta terça-feira no Museu
de Arte de São Paulo, o Masp. Entre as 138 peças trazidas
ao país há óleos, gravuras, aquarelas, desenhos e
esculturas pertencentes a diversos acervos de primeira grandeza
como os dos museus D'Orsay, de Paris, e Metropolitan, de Nova York.
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Renoir,
em auto-retrato: artrite na velhice
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Filho
de um alfaiate, Renoir teve infância humilde. Já aos 13 anos
pintava porcelanas num ateliê. Tempos depois, conseguiu ingressar
na Academia de Belas-Artes de Paris. A influência de sua passagem
pela escola é nítida na obra mais antiga da mostra, o Retrato
de Marie-Zélie Laporte, de 1864. Renoir só se libertaria
dos tons escuros e daria vazão a seu estilo luminoso ao inventar,
com o amigo Claude Monet, aquilo que viria a ser o impressionismo. Passou,
então, a pintar ao ar livre, registrando cenas da vida comum. Desse
período vêm alguns dos melhores trabalhos da exposição,
como Os Remadores em Chatou (1879), da National Gallery de Washington,
que mostra uma paisagem bucólica às margens do Rio Sena,
onde Renoir e Monet freqüentemente pintavam juntos. Há ainda
outras telas importantes, como Na Campina (1890), a única
do acervo do Metropolitan, e A Dança em Bougival (1883),
que integra uma série que ele fez sobre o tema. As obras cedidas
pelo Museu d'Orsay, por sua vez, são o grande atrativo do módulo
dedicado aos retratos. Uma das principais fontes de renda de Renoir era
criar esses quadros sob encomenda para famílias abastadas. Fez
centenas deles, mas também retratou seus filhos, amigos e amantes,
como a bela Lise Tréhot, que aparece em Mulher Seminua Deitada
(1872). O próprio Masp, que possui doze telas do artista, contribui
com pérolas de seu acervo, como Rosa e Azul (1881), em que
duas irmãs aparecem de mãos dadas um trabalho cuja
demorada confecção deixou o pintor entediadíssimo.
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Na
Campina, do
Metropolitan, de
Nova York: "Por
que a pintura não pode ser bela?"
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Embora
o advento do impressionismo tenha causado uma onda de choque, Renoir muito
cedo caiu nas graças dos mecenas. Isso se explica por um fato simples:
mais do que qualquer outro representante do gênero, ele soube equilibrar
o moderno e a tradição. Em sua assumida estratégia
de agradar às platéias, ele não raro fazia concessões
ao gosto da época o que levou alguns críticos a torcer
o nariz para sua obra. Na velhice, quando estava preso a uma cadeira de
rodas e criava suas telas com um pincel amarrado à mão por
causa da artrite, Renoir chegou a assinar quadros que não eram
seus para satisfazer os clientes. Graças a esse modo pragmático
de encarar a profissão, ele teve uma existência confortável
e tornou-se mundialmente famoso em vida. Nada disso reduz sua grandeza.
"Renoir foi um pintor de temas aparentemente fáceis: belas paisagens,
crianças de faces rosadas e mulheres em flor. Mas envolveu tudo
isso numa atmosfera única, capaz de nos transportar para um mundo
de sonhos", opina Anne Distel, do Museu d'Orsay, responsável pela
seleção das obras francesas da mostra. Renoir contribuiu,
acima de tudo, para fazer uma ponte entre a técnica dos grandes
pintores do passado e as inovações impressionistas. Foi
altamente influenciado por mestres como Rafael, cuja obra conheceu em
viagem à Itália. Isso se atesta nos nus que compõem
um dos módulos da exposição, assim como em várias
das 55 gravuras emprestadas ao Masp pela Biblioteca Nacional da França.
"Não dou um nu por terminado até que tenha a sensação
de que possa beliscá-lo", costumava brincar o artista, que morreu
em 1919, aos 78 anos.
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