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Cobertor curto
Com a
possível suspensão da CPMF,
o governo ataca em outra ponta e
ameaça aumentar a alíquota do IOF

Adriana Carvalho
e Denise Ramiro
A partir
de 17 de junho a contribuição provisória sobre movimentação
financeira (CPMF), também conhecida como imposto do cheque, poderá
ter sua cobrança suspensa. O que pode ser um alívio para
os brasileiros, sufocados por uma carga tributária que está
entre as maiores do planeta, é ao mesmo tempo um grande motivo
de preocupação. Como a votação da continuidade
da CPMF foi paralisada no Congresso pelo PFL, em retaliação
às investigações da Polícia Federal nas empresas
da ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney, estima-se que o governo
deixará de arrecadar 400 milhões de reais por semana. Sem
esses recursos, o país corre o risco de ficar sem dinheiro para
pagar aposentados, funcionários públicos e cumprir as exigências
constitucionais de investimento em áreas como saúde e educação.
O rombo é tão grande que, se nada for feito, uma conquista
cara à sociedade brasileira, a estabilidade monetária, ficará
em perigo.
Para compensar
parte das perdas provocadas pela cessação da cobrança
da CPMF, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, anunciou na última
terça-feira que o imposto sobre operações financeiras
(IOF) poderá ser elevado. Ainda não foi definido o tamanho
do aumento. Nem se ele realmente sairá. Alguns analistas suspeitam
que Malan colocou a idéia no pano verde para que os políticos
entendam a gravidade do problema e aprovem logo a prorrogação
da CPMF. O aumento do imposto ajudaria efetivamente a equilibrar uma situação
frágil nas contas públicas, minadas que estão pelo
déficit da Previdência, o custo da dívida pública
e repasses obrigatórios para os Estados. A CPMF, que rende anualmente
ao governo 19,2 bilhões de reais, incide sobre uma quantidade gigantesca
de operações financeiras. Todas as pessoas que possuem conta
corrente em um banco pagam o imposto de 0,38% quando fazem uma transferência
financeira ou têm um cheque compensado. Para arrecadar o mesmo volume
financeiro que é gerado pela CPMF, seria necessário aumentar
e muito o IOF.
"O
imposto teria de subir do atual 1,5% ao ano para 15% para cobrir a falta
da CPMF. Mas isso seria desastroso para a economia. Inibiria empréstimos
e financiamentos, aumentaria a inadimplência, diminuiria as vendas
das empresas, o que pode resultar em demissões", afirma Álvaro
Taiar, sócio-diretor da consultoria PricewaterhouseCoopers. Além
de comprometer a saúde econômica do país, a elevação
do IOF nessas proporções seria um tiro no próprio
pé no que diz respeito à arrecadação de outros
tributos. Ao desaquecer a economia, o governo recolhe menos imposto sobre
circulação de mercadorias e serviços (ICMS) e imposto
sobre produtos industrializados (IPI). Miguel Ribeiro de Oliveira, vice-presidente
da Associação Nacional dos Executivos de Finanças,
Administração e Contabilidade (Anefac), acredita que o governo
deverá aumentar o IOF para cerca de 6%. "Não será
viável aumentar mais que isso. E, como um aumento dessa magnitude
não será suficiente, é de esperar que outros impostos
também sejam elevados", afirma Oliveira. Para ele, o IPI e
o imposto de importação são outros candidatos a acompanhar
o IOF na subida de taxas.
O temporal
de aumento de impostos que se está formando sobre a cabeça
dos brasileiros reforça as estatísticas desanimadoras da
carga tributária do país. Um estudo divulgado recentemente
pela PricewaterhouseCoopers mostra que uma família com renda mensal
bruta de 3.300 reais tem 30% de sua remuneração consumida
por impostos e taxas. Ou seja, cada brasileiro trabalha quase quatro meses
do ano para pagar o governo. Um terço de tudo que se produz durante
um ano é absorvido na forma de impostos.
O Brasil
está vivendo um impasse clássico. Por um lado, o país
não funciona sem o dinheiro dos impostos. Por outro, sufoca as
pessoas, as empresas e dificulta o próprio crescimento ao impor
uma carga tributária tão violenta. Um levantamento da Coordenadoria
de Política Tributária da Receita Federal informa que nos
últimos oito anos essa carga subiu muito mais que o PIB: cresceu
num ritmo 2,3 vezes maior que a taxa de expansão da riqueza do
país. Ou seja, o governo se apropriou de mais e mais recursos;s
não funciona sem o dinheiro dos impostos. Por outro, sufoca as
pessoas, as empresas e dificulta o próprio crescimento ao impor
uma carga tributária tão violenta. Um levantamento da Coordenadoria
de Política Tributária da Receita Federal informa que nos
últimos oito anos essa carga subiu muito mais que o PIB: cresceu
num ritmo 2,3 vezes maior que a taxa de expansão da riqueza do
país. Ou seja, o governo se apropriou de mais e mais recursos da
sociedade. A máquina exatora está tão azeitada que
no Brasil ocorreu um fenômeno raríssimo: o volume da arrecadação
só apontou para cima. Em outras palavras, a economia brasileira,
no período medido pela Receita Federal, teve momentos de aquecimento
e outros de quase recessão. Nas duas situações, a
coleta de impostos aumentou, quando o natural é que se recolhesse
menos nos períodos de desaquecimento. Tem saída? Tem. É
preciso reformar a Previdência e cortar gastos. Mas essas são
saídas políticas complexas e de efeitos de longo prazo.
Por enquanto, o menos dolorido seria mesmo a prorrogação
da CPMF.
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