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As mil e uma festas
"Efeito
Clone" chega às noites
do Rio e de São Paulo e lota os
salões de Jades e Mohameds
Silvia
Rogar
Há
seis meses no ar, atingindo agora os momentos mais empolgantes e polêmicos,
a novela O Clone conseguiu dois feitos incontestáveis: resgatar
picos de 60 pontos de audiência no horário nobre e popularizar
em plagas tropicais um universo tão distante quanto o das areias
do Saara. Descortinado por véus esvoaçantes, temperado pela
culinária exótica e embalado em requebros sensuais, o neo-orientalismo
criado pela novelista Glória Perez virou mania. O "efeito Clone"
está onde quer que se olhe, desde as menininhas que adoram "brincar
de Jade" até o inescapável aumento na freqüência
às aulas de dança do ventre. O fenômeno é particularmente
evidente nas festas chiques do eixo RioSão Paulo, onde noite
temática no momento é sinônimo de noite árabe.
A da socialite Marie Mercier, por exemplo, realizada neste mês no
Rio de Janeiro, reuniu 1.000 convidados no Museu de Arte Moderna. Inicialmente
planejada para ser "uma mensagem de paz" em memória das vítimas
dos atentados de 11 de setembro, acabou virando uma noitada das arábias,
com uma profusão de Latiffas e Mohameds deslizando pelos salões
em meio a tendas coloridas e sedas bordadas.
A febre das mil e uma noites está fazendo a alegria dos que, com
ou sem um pé no Islã, já vinham investindo no filão.
A bailarina Claudia Cenci, coreógrafa de O Clone, diz que
nunca requebrou tanto como agora. "Antes, só fazia apresentações
em festas da comunidade. Agora, danço até em noivado católico",
conta. O show da bailarina foi o ponto alto da noite que comemorou os
34 anos da executiva baiana Sandra Teschner, em São Paulo. Sem
uma gota de sangue oriental correndo nas veias, ela escolheu o tema, entre
outras coisas, por estar fascinada pela culinária árabe,
uma descoberta recente, não obstante a sua longa tradição
em terras brasileiras. "Só sabia o que era quibe. Agora, como de
tudo", diz Sandra.
Os novos fãs incondicionais da cozinha oriental proliferaram com
tanta rapidez que importadoras de sêmola, matéria-prima do
cuscuz marroquino, triplicaram o volume de vendas neste ano. A Maison
Lafite distribuiu 6 toneladas do produto para lojas e restaurantes de
todo o país no primeiro trimestre do ano. O sucesso da trama de
Glória Perez foi bater no Marrocos. Destino turístico tradicionalíssimo
para os europeus, o país finalmente começou a deslanchar
no Brasil. Operadoras como a Queensberry afirmam que a procura por pacotes
marroquinos cresceu 80%. A socialite carioca Narcisa Tamborindeguy, antiga
freqüentadora, esteve lá em março e vai voltar em julho.
"Fiquei ainda mais apaixonada pelo Marrocos", diz.
"Não
assisto a novela nenhuma, mas acabei acompanhando O Clone", concede
a herdeira Paola Mansur, que comemorou o aniversário em São
Paulo com uma festa a caráter. Gente como Paola, cuja ligação
com os antepassados árabes muitas vezes não passa de um
sobrenome e vagas lembranças, está redescobrindo os encantos
da herança familiar. Calcula-se que no Brasil, entre descendentes
e imigrantes árabes de primeira geração, sejam 11
milhões de pessoas. Destas, cerca de 1,5 milhão são
seguidoras do islamismo, o universo retratado por Glória Perez
com larga dose de liberdade novelística, com seu Marrocos fictício,
onde as mulheres ora se cobrem da cabeça aos pés, ora ondulam
sensualmente na frente de estranhos. É dos muçulmanos, inevitavelmente,
que partem as maiores reclamações. A personagem vivida pela
atriz Giovanna Antonelli, cuja vida amorosa é tão conturbada
quanto a Faixa de Gaza, é acusada de ser estereotipada demais
e de passar a impressão de que todas as muçulmanas são
eternas sofredoras, vítimas de costumes atrozes. "Eu, por exemplo,
casei com meu marido por amor e sou feliz com minha religião",
diz a cientista social Magda Ares, que segue regras como a do véu.
Não se espera que uma novela seja uma aula de história do
Islã ou de cultura árabe, mas a obra de Glória Perez
deixa entrever um esforço sincero de retratar a religião
muçulmana às vezes com um exagero ingênuo a respeito
de suas virtudes. O principal é que a novela "pegou", espalhando
uma alegre, embora previsivelmente passageira, onda de orientalismo pelo
país. Paola Mansur dá um indício do verdadeiro segredo
do sucesso: "Os figurinos são lindos, enfeitam demais a mulher".
Ninguém resiste ao apelo do eterno feminino.
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Jademania
galopante
Oscar Cabral

As
meninas Nicole e Mariane: adereços da personagem |
A
quantidade de apetrechos que Giovanna Antonelli exibe em O Clone
só não é mais impressionante do que a freqüência
com que eles vêm sendo copiados nas ruas: a pulseira da Jade,
o esmalte da Jade, o brinco da Jade e mais um sem-fim de adereços,
todos da Jade, viraram itens obrigatórios no guarda-roupa
das meninas vidradas na muçulmana rebelde, como as amigas
Nicole Khouri, 11 anos, e Mariane Pereira, de 10. A pulseira-anel
usada pela heroína já atingiu níveis legendários,
com 120 000 unidades vendidas no país, e a curiosidade em
torno da cor do seu esmalte continua entupindo o correio eletrônico
da Globo (não, o produto não está disponível
no país). Por causa da popularidade da personagem, academias
de dança foram obrigadas a ampliar seu público: na
primeira classe infantil de dança do ventre do Centro Gaia,
no Rio, legiões de Jadezinhas já arriscam seus primeiros
requebros.
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