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Edição 1 748 - 24 de abril de 2002
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As mil e uma festas

"Efeito Clone" chega às noites
do Rio e de São Paulo e lota os
salões de Jades e Mohameds

Silvia Rogar

 
Divulgação/Sandro Batista
Vera Donato

A bailarina Claudia animando a festa de aniversário de Sandra, a socialite Narcisa Tamborindeguy (de véu) e, ao lado, Paola Mansur e amiga: neo-orientalismo

Há seis meses no ar, atingindo agora os momentos mais empolgantes e polêmicos, a novela O Clone conseguiu dois feitos incontestáveis: resgatar picos de 60 pontos de audiência no horário nobre e popularizar em plagas tropicais um universo tão distante quanto o das areias do Saara. Descortinado por véus esvoaçantes, temperado pela culinária exótica e embalado em requebros sensuais, o neo-orientalismo criado pela novelista Glória Perez virou mania. O "efeito Clone" está onde quer que se olhe, desde as menininhas que adoram "brincar de Jade" até o inescapável aumento na freqüência às aulas de dança do ventre. O fenômeno é particularmente evidente nas festas chiques do eixo Rio–São Paulo, onde noite temática no momento é sinônimo de noite árabe. A da socialite Marie Mercier, por exemplo, realizada neste mês no Rio de Janeiro, reuniu 1.000 convidados no Museu de Arte Moderna. Inicialmente planejada para ser "uma mensagem de paz" em memória das vítimas dos atentados de 11 de setembro, acabou virando uma noitada das arábias, com uma profusão de Latiffas e Mohameds deslizando pelos salões em meio a tendas coloridas e sedas bordadas.

A febre das mil e uma noites está fazendo a alegria dos que, com ou sem um pé no Islã, já vinham investindo no filão. A bailarina Claudia Cenci, coreógrafa de O Clone, diz que nunca requebrou tanto como agora. "Antes, só fazia apresentações em festas da comunidade. Agora, danço até em noivado católico", conta. O show da bailarina foi o ponto alto da noite que comemorou os 34 anos da executiva baiana Sandra Teschner, em São Paulo. Sem uma gota de sangue oriental correndo nas veias, ela escolheu o tema, entre outras coisas, por estar fascinada pela culinária árabe, uma descoberta recente, não obstante a sua longa tradição em terras brasileiras. "Só sabia o que era quibe. Agora, como de tudo", diz Sandra.

Os novos fãs incondicionais da cozinha oriental proliferaram com tanta rapidez que importadoras de sêmola, matéria-prima do cuscuz marroquino, triplicaram o volume de vendas neste ano. A Maison Lafite distribuiu 6 toneladas do produto para lojas e restaurantes de todo o país no primeiro trimestre do ano. O sucesso da trama de Glória Perez foi bater no Marrocos. Destino turístico tradicionalíssimo para os europeus, o país finalmente começou a deslanchar no Brasil. Operadoras como a Queensberry afirmam que a procura por pacotes marroquinos cresceu 80%. A socialite carioca Narcisa Tamborindeguy, antiga freqüentadora, esteve lá em março e vai voltar em julho. "Fiquei ainda mais apaixonada pelo Marrocos", diz.

"Não assisto a novela nenhuma, mas acabei acompanhando O Clone", concede a herdeira Paola Mansur, que comemorou o aniversário em São Paulo com uma festa a caráter. Gente como Paola, cuja ligação com os antepassados árabes muitas vezes não passa de um sobrenome e vagas lembranças, está redescobrindo os encantos da herança familiar. Calcula-se que no Brasil, entre descendentes e imigrantes árabes de primeira geração, sejam 11 milhões de pessoas. Destas, cerca de 1,5 milhão são seguidoras do islamismo, o universo retratado por Glória Perez com larga dose de liberdade novelística, com seu Marrocos fictício, onde as mulheres ora se cobrem da cabeça aos pés, ora ondulam sensualmente na frente de estranhos. É dos muçulmanos, inevitavelmente, que partem as maiores reclamações. A personagem vivida pela atriz Giovanna Antonelli, cuja vida amorosa é tão conturbada quanto a Faixa de Gaza, é acusada de ser estereotipada demais – e de passar a impressão de que todas as muçulmanas são eternas sofredoras, vítimas de costumes atrozes. "Eu, por exemplo, casei com meu marido por amor e sou feliz com minha religião", diz a cientista social Magda Ares, que segue regras como a do véu.

Não se espera que uma novela seja uma aula de história do Islã ou de cultura árabe, mas a obra de Glória Perez deixa entrever um esforço sincero de retratar a religião muçulmana – às vezes com um exagero ingênuo a respeito de suas virtudes. O principal é que a novela "pegou", espalhando uma alegre, embora previsivelmente passageira, onda de orientalismo pelo país. Paola Mansur dá um indício do verdadeiro segredo do sucesso: "Os figurinos são lindos, enfeitam demais a mulher". Ninguém resiste ao apelo do eterno feminino.

Jademania galopante

 
Oscar Cabral

As meninas Nicole e Mariane: adereços da personagem

A quantidade de apetrechos que Giovanna Antonelli exibe em O Clone só não é mais impressionante do que a freqüência com que eles vêm sendo copiados nas ruas: a pulseira da Jade, o esmalte da Jade, o brinco da Jade e mais um sem-fim de adereços, todos da Jade, viraram itens obrigatórios no guarda-roupa das meninas vidradas na muçulmana rebelde, como as amigas Nicole Khouri, 11 anos, e Mariane Pereira, de 10. A pulseira-anel usada pela heroína já atingiu níveis legendários, com 120 000 unidades vendidas no país, e a curiosidade em torno da cor do seu esmalte continua entupindo o correio eletrônico da Globo (não, o produto não está disponível no país). Por causa da popularidade da personagem, academias de dança foram obrigadas a ampliar seu público: na primeira classe infantil de dança do ventre do Centro Gaia, no Rio, legiões de Jadezinhas já arriscam seus primeiros requebros.



   
 
   
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