Para fugirem da crise na terra natal, muitos argentinos procuram emprego no Brasil
Diogo Schelp
No verão de 2001, turistas argentinos invadiram o Brasil. O fluxo refluiu no verão deste ano, como reflexo da crise no país vizinho, com uma queda de 20% no número de visitantes. Mas a partir de janeiro começou a aparecer outro tipo de argentino: o que vem para procurar um lugar ao sol no mercado de trabalho brasileiro. São pessoas que fogem de uma situação de desemprego três vezes pior que a do Brasil. As grandes empresas e as consultorias de recolocação profissional brasileiras têm recebido uma enxurrada de currículos de argentinos. À filial de São Paulo de uma grande consultoria internacional, a Ray & Berndtson, chegam 120 currículos de argentinos por mês. Até dezembro do ano passado, era apenas um. Os profissionais que procuram a consultoria, especializada em vagas de diretoria, são executivos experientes, que almejam salários de mais de 10.000 reais.
Os consultores de recursos humanos acreditam que os imigrantes com formação técnica têm melhores condições de ser contratados. O engenheiro de sistemas Elias Fernando Gigena, de 31 anos, apostou nisso quando largou em janeiro um emprego em Córdoba, na Argentina, onde ganhava cerca de 3.000 reais, para tentar a sorte em São Paulo. Mesmo não estando desempregado, Elias não agüentou o marasmo produtivo na terra natal. "Aqui tenho mais possibilidade de crescer na minha profissão, enquanto lá eu ficaria anos sem avançar, isso se não fosse demitido antes", diz Elias. A empresa de recursos humanos Dow Right, de São Paulo, recebe cerca de oitenta currículos e e-mails por mês de jovens argentinos qualificados. Conseguir uma autorização de trabalho no Brasil é a tarefa mais árdua. "A empresa interessada tem de provar para o Ministério do Trabalho que o imigrante é um profissional insubstituível", afirma a advogada Ziara Abud, especialista em direito de imigração. A cada ano, em média 500 argentinos recebem autorização para trabalhar no país. Nos primeiros três meses deste ano, a Polícia Federal registrou a entrada de 223 imigrantes do país vizinho com visto permanente, um crescimento de 30% em relação ao mesmo período do ano passado.
Os argentinos que não têm a possibilidade de preencher os critérios do governo brasileiro para conseguir visto de trabalho tendem a voltar para casa com as expectativas frustradas ou são absorvidos pelo mercado informal. Não há um dado oficial que indique quantos argentinos vivem e trabalham ilegalmente no país. Estima-se que sejam mais de 70.000. Toda semana, há pelo menos mais dois no Abrigo Beneficente Monsenhor Felipe Diel, ligado à Igreja Católica, que acolhe pessoas carentes e moradores de rua de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. "O que impressiona é que predominam pessoas que têm até curso superior, dispostas a conseguir qualquer tipo de trabalho", diz Juliano Kochhann, funcionário do albergue.