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Edição 1 748 - 24 de abril de 2002
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As idéias explosivas
da dama de ferro

Em livro, Thatcher reafirma
os conceitos fortes do tempo
em que governou a Inglaterra

Ruth de Aquino, de Londres

 
AFP

Margaret Thatcher no lançamento de seu livro: nenhuma paralisia visível

O médico de Margaret Thatcher proibiu-a, por tempo indefinido, de dar conferências. Os derrames nos últimos quatro meses são sinais de que a saúde da Dama de Ferro, que governou a Inglaterra com pulso de general durante onze anos (1979-1990), começa a baquear. Isso não significa que ela foi reduzida ao silêncio. Aos 76 anos, Thatcher está lançando um livro explosivo, Statecraft, Strategies for a Changing World (A Arte de Governar – Estratégias para um Mundo em Mutação). Os ingleses que não gostam da Inglaterra do trabalhista Tony Blair e discordam da própria existência da União Européia vão encontrar farta argumentação nas 500 páginas escritas em linguagem rebuscada. Na hora em que as principais economias européias festejam a moeda comum, o euro, como símbolo de fraternidade e, talvez, de um futuro super-Estado, Thatcher exorta a Inglaterra a aproveitar o momento para começar a se retirar da União Européia. A Europa, escreve a ex-primeira-ministra, é um continente "fundamentalmente irreformável". Trata-se da ressurreição do mesmo discurso separatista que a derrubou do governo. A arrogância de Thatcher também é a mesma: "A verdade crua é que os demais países da União Européia precisam mais de nós do que nós precisamos deles".

 
AP

"A União Européia é um clássico projeto utópico, um monumento à vaidade de intelectuais, um programa condenado inevitavelmente ao fracasso."
Margaret Thatcher

De tailleur bege e colar de pérolas, no agitado lançamento de seu livro, em Londres, no início do mês, apenas a palidez traía seu estado de saúde. Nenhuma paralisia aparente. Na fila, cerca de 300 pessoas aguardavam seu autógrafo e um sorriso. Há quem comemore, até entre seus pares no Partido Conservador, as restrições médicas a Thatcher. Mais de uma década depois de cair, ela ainda ofusca e talvez mesmo impeça o surgimento de uma forte liderança conservadora. Sabe-se que a maioria dos ingleses é contra a adoção do euro no país – trata-se de uma ilha peculiar, em que o abandono da libra esterlina é visto como capitulação da soberania. A caça à raposa inflama os debates políticos, os pubs fecham às 23 horas, e a veneração a uma rainha inativa, morta aos 101 anos, chega às raias da histeria. Nesse pano de fundo, dá para entender que o jornal The Times reserve a Margaret Thatcher uma imensa manchete, com foto de estadista, e publique em série alguns capítulos de seu livro. Thatcher dormia quatro horas por noite quando era primeira-ministra, bateu os argentinos na Guerra das Malvinas, dobrou o sindicalismo inglês num longo confronto nos anos 80, cortou profundamente os gastos sociais e impôs uma privatização desenfreada. Venceu três eleições consecutivas até ser derrubada, pelo próprio partido, em 1990 – e continua a seduzir uma imensa parcela da população atada às tradições. Uma pesquisa no ano passado mostrou que 50% dos ingleses votariam em favor de o país se retirar da União Européia se tivessem garantias de que o comércio com os europeus não seria alterado e que 60% prefeririam sair da UE a acabar com a libra esterlina.

Thatcher escreve que a Europa é um continente sem linguagem, cultura nem valores comuns. Sua união, portanto, "é um clássico projeto utópico, um monumento à vaidade de intelectuais, um programa condenado inevitavelmente ao fracasso". Explica que não foi ao aniversário de dez anos da queda do Muro de Berlim, em 1999, por não querer estragar a festa, porque considera a Alemanha unida um perigo para a Europa: "Os alemães são um povo culto e talentoso, mas no passado demonstraram clara incapacidade de limitar suas ambições e respeitar seus vizinhos". O desprezo pela Europa se transforma em tietagem em relação aos Estados Unidos. Ela escreve que os maiores problemas enfrentados pelo mundo no século XX, como o nazismo e o comunismo, tiveram origem no continente europeu. Já as soluções, acrescenta, "vieram de fora", com a intervenção dos Estados Unidos e da Inglaterra. O livro é dedicado ao ex-presidente americano Ronald Reagan, "a quem o mundo deve tanto". Também se derrete na defesa de seu amigo, o ex-ditador chileno Augusto Pinochet. "O que a esquerda não perdoa em Pinochet é o fato de ele ter salvo o Chile e ter ajudado a salvar a América Latina." Em pouco mais de uma página com agradecimentos, nenhuma palavra para sir Denis, o marido que lhe deu o sobrenome e com quem comemorou bodas de ouro, em dezembro, na Ilha da Madeira. Típico de Thatcher.

 

 
 
   
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