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As idéias
explosivas
da dama de ferro
Em livro,
Thatcher reafirma
os conceitos fortes do tempo
em que governou a Inglaterra
Ruth de Aquino,
de Londres
AFP

Margaret
Thatcher no lançamento de seu livro: nenhuma paralisia visível |
O médico
de Margaret Thatcher proibiu-a, por tempo indefinido, de dar conferências.
Os derrames nos últimos quatro meses são sinais de que a
saúde da Dama de Ferro, que governou a Inglaterra com pulso de
general durante onze anos (1979-1990), começa a baquear. Isso não
significa que ela foi reduzida ao silêncio. Aos 76 anos, Thatcher
está lançando um livro explosivo, Statecraft, Strategies
for a Changing World (A Arte de Governar Estratégias
para um Mundo em Mutação). Os ingleses que não gostam
da Inglaterra do trabalhista Tony Blair e discordam da própria
existência da União Européia vão encontrar
farta argumentação nas 500 páginas escritas em linguagem
rebuscada. Na hora em que as principais economias européias festejam
a moeda comum, o euro, como símbolo de fraternidade e, talvez,
de um futuro super-Estado, Thatcher exorta a Inglaterra a aproveitar o
momento para começar a se retirar da União Européia.
A Europa, escreve a ex-primeira-ministra, é um continente "fundamentalmente
irreformável". Trata-se da ressurreição do mesmo
discurso separatista que a derrubou do governo. A arrogância de
Thatcher também é a mesma: "A verdade crua é que
os demais países da União Européia precisam mais
de nós do que nós precisamos deles".
AP
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"A
União Européia é
um clássico projeto utópico, um monumento à
vaidade de intelectuais, um programa condenado inevitavelmente
ao fracasso."
Margaret Thatcher
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De tailleur
bege e colar de pérolas, no agitado lançamento de seu livro,
em Londres, no início do mês, apenas a palidez traía
seu estado de saúde. Nenhuma paralisia aparente. Na fila, cerca
de 300 pessoas aguardavam seu autógrafo e um sorriso. Há
quem comemore, até entre seus pares no Partido Conservador, as
restrições médicas a Thatcher. Mais de uma década
depois de cair, ela ainda ofusca e talvez mesmo impeça o surgimento
de uma forte liderança conservadora. Sabe-se que a maioria dos
ingleses é contra a adoção do euro no país
trata-se de uma ilha peculiar, em que o abandono da libra esterlina
é visto como capitulação da soberania. A caça
à raposa inflama os debates políticos, os pubs fecham às
23 horas, e a veneração a uma rainha inativa, morta aos
101 anos, chega às raias da histeria. Nesse pano de fundo, dá
para entender que o jornal The Times reserve a Margaret Thatcher
uma imensa manchete, com foto de estadista, e publique em série
alguns capítulos de seu livro. Thatcher dormia quatro horas por
noite quando era primeira-ministra, bateu os argentinos na Guerra das
Malvinas, dobrou o sindicalismo inglês num longo confronto nos anos
80, cortou profundamente os gastos sociais e impôs uma privatização
desenfreada. Venceu três eleições consecutivas até
ser derrubada, pelo próprio partido, em 1990 e continua
a seduzir uma imensa parcela da população atada às
tradições. Uma pesquisa no ano passado mostrou que 50% dos
ingleses votariam em favor de o país se retirar da União
Européia se tivessem garantias de que o comércio com os
europeus não seria alterado e que 60% prefeririam sair da UE a
acabar com a libra esterlina.
Thatcher
escreve que a Europa é um continente sem linguagem, cultura nem
valores comuns. Sua união, portanto, "é um clássico
projeto utópico, um monumento à vaidade de intelectuais,
um programa condenado inevitavelmente ao fracasso". Explica que não
foi ao aniversário de dez anos da queda do Muro de Berlim, em 1999,
por não querer estragar a festa, porque considera a Alemanha unida
um perigo para a Europa: "Os alemães são um povo culto e
talentoso, mas no passado demonstraram clara incapacidade de limitar suas
ambições e respeitar seus vizinhos". O desprezo pela Europa
se transforma em tietagem em relação aos Estados Unidos.
Ela escreve que os maiores problemas enfrentados pelo mundo no século
XX, como o nazismo e o comunismo, tiveram origem no continente europeu.
Já as soluções, acrescenta, "vieram de fora", com
a intervenção dos Estados Unidos e da Inglaterra. O livro
é dedicado ao ex-presidente americano Ronald Reagan, "a quem o
mundo deve tanto". Também se derrete na defesa de seu amigo, o
ex-ditador chileno Augusto Pinochet. "O que a esquerda não perdoa
em Pinochet é o fato de ele ter salvo o Chile e ter ajudado a salvar
a América Latina." Em pouco mais de uma página com agradecimentos,
nenhuma palavra para sir Denis, o marido que lhe deu o sobrenome e com
quem comemorou bodas de ouro, em dezembro, na Ilha da Madeira. Típico
de Thatcher.
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