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Preparar, apontar...
Campeã
de execuções legais, a China
condena à morte até quem comete
adultério ou passa cheque sem fundo

Amauri Segalla
AP

Julgamento
coletivo: os presos marcados com o "x" já foram condenados à morte
|
A cena se
passa na China atual, mas parece inspirada em relatos medievais. Antes
de morrerem, os prisioneiros condenados, de mãos atadas e com uma
espécie de coleira prendendo-os pelo pescoço, desfilam na
caçamba de caminhões pelas ruas da cidade. Como gado, eles
padecem em silêncio com a exposição pública
de sua desgraça. A chegada ao estádio onde serão
executados é triunfal. A multidão urra. Em seguida, o suspense
toma conta de tudo. Não demora muito e um tiro disparado por um
policial na nuca do prisioneiro culmina o espetáculo. A televisão
transmite a execução ao vivo para milhões de pessoas.
A barbárie patrocinada pela Justiça oficial chinesa tem
resistido a todos os ares de modernidade que o país vem ostentando
desde que se abriu para o Ocidente seja a entrada na Organização
Mundial do Comércio, seja a escolha de Pequim como sede das Olimpíadas
de 2008.
A China
é hoje o país recordista na execução de prisioneiros.
Segundo um relatório da Anistia Internacional divulgado há
duas semanas, no ano passado foram mortas pelo sistema legal em território
chinês 2.468 pessoas, ou 80% de todas
as execuções feitas por 31 países em 2001. Estima-se,
no entanto, que esse número seja muito maior, pois o governo chinês
esconde estatísticas sobre a pena de morte. "A tortura na China
é sistemática e o país tem um recorde de violações
graves dos direitos humanos", diz o relatório. Em nenhum outro
país do mundo um tribunal aplica a pena capital com tanta facilidade.
Pode-se receber essa sentença na China por transgressões
de comportamento que a maioria dos países nem sequer pune como
crime, como é o caso do adultério. Há casos registrados
de prisioneiros executados pela acusação de passar um cheque
sem fundo ou de envenenar bois. O número de execuções
tem crescido a cada ano. Em 1980, 21 tipos de crime podiam ser punidos
com a morte. Hoje, já são 68. O sistema judiciário
chinês também não respeita os procedimentos penais
aceitos internacionalmente. Muitos julgamentos são coletivos, e
os réus só têm direito a advogado poucos dias antes
do julgamento. Há casos de pessoas que foram julgadas, condenadas
e mortas em menos de duas semanas.
A caça
aos supostos criminosos intensificou-se no ano passado, quando o governo
pôs em prática um rigoroso programa de combate à violência.
Tudo porque, segundo cálculos das autoridades locais, o número
de crimes aumentou 50% nos últimos três anos. Para frear
a escalada da violência, os policiais foram autorizados a prender
todo e qualquer suspeito, inclusive deficientes mentais e mulheres acusadas
de esconder a gravidez. Como resultado, as execuções dispararam.
Entre abril e julho de 2001, pelo menos 1 781 pessoas foram executadas
no país, número maior que o total de prisioneiros mortos
legalmente no mundo nos três anos anteriores. Segundo a Anistia
Internacional, nenhum desses suspeitos teve um julgamento decente. Confissões
são arrancadas à força. Segundo o relatório
da Anistia Internacional, nas sessões de tortura, vítimas
foram queimadas com pontas de cigarro, outras tiveram os genitais decepados
e muitas sofreram espancamentos até desmaiar.
A China
tem um longo histórico de violação dos direitos humanos.
Em 1996, cinegrafistas ingleses filmaram orfanatos onde crianças
eram abandonadas à própria sorte. O documentário
com cenas horripilantes de meninas amarrados ao vaso sanitário,
esquecidas numa instituição pública para morrer de
inanição, causou comoção mundial. Era uma
história escabrosa, mas não totalmente desconhecida dos
observadores ocidentais. Já se sabia do cruel costume chinês
de matar recém-nascidos do sexo feminino, como conseqüência
da política de controle demográfico e da preferência
das famílias por filhos homens. No ano passado, foi a vez de um
médico chinês expor mais uma faceta cruel do submundo do
país. Segundo o relato de Wang Guoqi ao Congresso americano, presos
executados têm as córneas, os rins e a pele retirados para
venda no mercado negro de órgãos para transplante. Obrigadas
a pagar as balas usadas na execução, as famílias
das vítimas nunca são informadas da violação
dos corpos.
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A
indústria da morte
AFP

Execução
no estádio: antes de morrer, os presos desfilam pela cidade |
A
China lidera o relatório de 2001 da Anistia Internacional
sobre pena de morte. Foram executados mais prisioneiros em território
chinês do que em todas
as outras nações que adotam a punição
máxima
No ano passado, 2 468 pessoas foram executadas na China, o equivalente
a 80% de todas as execuções feitas por 31 países
em 2001
As execuções ocorrem em estádios de futebol
lotados ou em praça pública. Algumas são transmitidas
ao vivo pela TV estatal
As famílias dos condenados são obrigadas a pagar as
balas usadas na execução
Presos executados tiveram córneas, rins e pele retirados
para venda no mercado negro de órgãos para transplante
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