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Missão
quase impossível
Poucos países conseguiram
crescer
com inflação baixa
Marcelo
Carneiro
Eneida Serrano
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| Remarcação
de preços: lembrança da hiperinflação
brasileira nos anos 80 e 90 |
De
tempos a tempos, a discussão sobre os rumos da política
econômica no Brasil parece resumir-se a um slogan. Nos anos 70,
dizia-se que era preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo. Na
década de 80 e no início dos anos 90 , o bordão
era domar o dragão da inflação. Agora, afastado o
fantasma inflacionário, a palavra de ordem é crescer com
estabilidade. O chavão faz parte de qualquer mesa-redonda em que
haja um economista e ganhou lugar de destaque no palanque dos presidenciáveis.
Todos prometem levar o país a um novo ciclo de prosperidade. Há
também o consenso de que, dominada a inflação, é
hora de o país crescer. Mantendo o dragão adormecido, é
claro. Isso é possível? Um estudo inédito do economista
Antonio Dias Leite, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra
que esse é um desafio dos mais difíceis. No decorrer da
última década, pouquíssimos países no mundo
conseguiram conjugar boas taxas de crescimento e estabilidade da inflação.
Com base em estatísticas do Banco Mundial, o economista cruzou
dados anuais de crescimento do PIB e taxas de inflação de
72 países. Destes, 45 registraram crescimento de, pelo menos, 4%
ao ano, considerado pelos especialistas um indicador de bom desempenho
econômico, especialmente para os países em desenvolvimento.
Daí em diante, o estudo de Dias Leite mostra que o funil começa
a ficar cada vez mais estreito. Os dados apontam que apenas 28 países
cresceram em um ritmo superior a 4%, entre os anos de 1990 e 1999. Destes,
só seis conseguiram a façanha de apresentar taxas de crescimento
superiores a seus índices anuais de inflação. Somente
quatro deles China, Coréia, Malásia e Jordânia
se enquadram na categoria dos países em desenvolvimento,
como o Brasil. Ou seja: crescer mantendo taxas baixíssimas de inflação
é um fenômeno raríssimo especialmente entre países
que não podem ser classificados como desenvolvidos. Na América
Latina, nenhum país conseguiu esse desempenho na última
década. O Brasil teve seu último ciclo de crescimento nos
anos 70 e, nos quinze anos seguintes, juntou o pior de dois mundos: estagnação
econômica e inflação totalmente fora de controle.
Em 1994, com a edição do Plano Real, o país domou
a inflação. Mas o crescimento continuou a ser um desafio.
"Não
quero ressuscitar a velha tese de que um pouco de inflação
é benéfico para o crescimento econômico, mas nenhum
país pobre conseguiu bom desempenho com índices de custo
de vida em níveis europeus", observa Dias Leite, que aos 81 anos
acumula a experiência de ter sido chefe da assessoria econômica
do ministro da Fazenda Francisco Santiago Dantas, no governo João
Goulart, e ter comandado o Ministério das Minas e Energia, na década
de 70. Isso significa que o Brasil deve resignar-se a apresentar índices
medíocres de crescimento, para não correr o risco de uma
nova escalada da inflação? Alguns analistas garantem que
esse não é o único caminho. "O segredo é crescer
dentro de suas possibilidades", explica o economista Mailson da Nóbrega,
para quem o país tem todas as condições de crescer
a taxas próximas de 4% ao ano sem perder o controle da inflação.
Prometer muito mais que isso é um exercício de ficção.
Um documento do sempre realista Fundo Monetário Internacional divulgado
na semana passada prevê que a economia brasileira crescerá
de 2,5% a 3,5% em 2003.
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