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O coronel voltou

Fracasso do golpe dá a Chávez
nova chance de tentar reconciliar
o país que ele dividiu

 
Fotos Reuters

Chávez, em seu retorno triunfal: o amigo de Fidel foi salvo pelos democratas

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Fotos da volta de Chávez

O coronel Hugo Chávez, quem diria, encontrou alguém com menos apreço pela democracia do que ele próprio. Pedro Carmona Estanga, o líder empresarial que o manteve afastado do poder por dois dias, fez em poucas horas o que Chávez ainda não havia conseguido em três anos. No primeiro ato, Carmona fechou o Parlamento e desconvocou a alta corte de Justiça do país. No segundo, avisou que faria eleições presidenciais só depois de um ano. Foi demais até mesmo para os golpistas companheiros de farda do empresário. Eles correram a buscar Chávez de volta. Os limites do autoritarismo do coronel, pelo menos, já são bastante conhecidos. De Carmona, não se sabe que barbaridades se poderiam esperar. Chávez retornou ao palácio do governo com o discurso renovado. Vestiu a roupa de conciliador. No lugar da farda de patrulheiro da selva camuflado e da ridícula boina vermelha, apresentou-se de terno e gravata. No fim da semana passada, os diversos setores da hierarquia política da Venezuela tentavam se recompor com o objetivo de dar um mínimo de estabilidade ao país. As diferenças são ainda profundas, as feridas estão abertas, mas, para surpresa geral, em nome de um bem maior, a democracia, admiradores e adversários do coronel Chávez empenhavam-se em uma forma civilizada de diálogo.



Carmona, o breve, é levado preso: "A crise continua"

De volta ao poder, aparentemente o ex-coronel pára-quedista não tem planos – nem força – para devastar os inimigos, como parece exigir a afronta de um golpe de Estado. Em tom conciliador, chegou a pedir que o país o ajude a guardar a espada e a farda no "baú de recordações". A classe média, frustrada e ridicularizada por apoiar o golpe fracassado, recolheu-se. Como em qualquer nação, essa classe é o alicerce sobre o qual se assentam as esperanças de desenvolvimento e a normalidade institucional. No caso da Venezuela, esse fiel da balança é ainda mais frágil que em outros países latino-americanos. No Brasil e na Argentina, numericamente e em porção da riqueza nacional que domina em conjunto, a classe média é bem mais representativa na sociedade que a da Venezuela. Na terra de Chávez, ela é mais rarefeita. Por isso mesmo, as pessoas desse estrato social são vistas com a mesma desconfiança que despertam as elites endinheiradas em outros países.

A queda e o retorno-relâmpago de Chávez projetaram mais uma vez no mundo aquela imagem de instabilidade que a América Latina tenta, em vão, exorcizar. Nem nas mais ferozes sátiras sobre as republiquetas bananeiras aconteceram tantas e tão inacreditáveis reviravoltas como nas 48 horas em que Chávez foi derrubado do cargo, preso, libertado e reempossado. Como coadjuvante, do outro lado, a figura agora patética do dirigente empresarial Pedro Carmona, um pacato economista que, no mesmo período, virou presidente, dissolveu o Congresso e o Supremo Tribunal por decreto, viu o chão sumir sob seus pés, renunciou e acabou preso. Colocado, educadamente, em prisão domiciliar, ele terminou a semana dando entrevistas por telefone. Nestas, desmentiu que o golpe tenha sido uma conspiração planejada em todos os detalhes pela aliança entre empresários e comandantes militares dissidentes que encabeçou. E apresentou seu argumento para comprovar o que afirmava: "Não foi uma coisa premeditada, como se viu pela confusão que se seguiu".

 
AFP
Manifestante contra Chávez pede democracia, em inglês; chavistas saqueiam lojas: cinqüenta mortos

Os lances farsescos também não devem obstruir o fato de que golpe e contragolpe se deram contra o pano de fundo de multidões nas ruas, arrastadas para manifestações a favor ou contra a renúncia de Chávez que deixaram cinqüenta mortos e quase 400 feridos, além de 600 milhões de dólares de prejuízo pelos saques generalizados. O vai-e-vem no Palácio de Miraflores, sede do Executivo, e nas ruas da capital se repetiu pela diplomacia mundo afora. O governo americano e o da vizinha Colômbia, que não suporta o apoio mal disfarçado de Chávez à narcoguerrilha, não esconderam a alegria com a fugaz queda do presidente encrenqueiro. Como não podia deixar de ser, mudaram rapidamente de opinião ao ver que o governo golpista agia com truculência infinitamente maior que a do presidente deposto.

Do ponto de vista do esquema militar, que tanto conforto propicia aos presidentes de sustentação política frágil, Chávez está caminhando sobre campo minado. A dança das lealdades foi tamanha que nem ele sabe ao certo quem, nos quartéis, mudou de lado ou não. Embora a Venezuela tenha sido exceção nas últimas ondas latino-americanas e não saiba o que é uma ditadura militar desde 1958, Chávez politizou tanto as Forças Armadas, colocando o pessoal de farda na primeira linha dos ministérios e das estatais, que elas acabaram tomando gosto pelo poder de decidir quem fica e quem sai do comando do país.

Para os militares hostis a Chávez, existem várias questões pendentes. Uma é a suspeita de que ele tem simpatias pela guerrilha das Farc, na vizinha Colômbia. No encontro entre o presidente americano George W. Bush e seu colega colombiano Andrés Pastrana, na sexta-feira passada, a questão do apoio de Chávez à guerrilha foi abordada. Bush disse que a acusação de Pastrana de que guerrilheiros das Farc estão se refugiando na Venezuela "são muito preocupantes". Também há acusações de que os "círculos bolivarianos", os grupos de apoio ao regime, calcados nos comitês cubanos de defesa da revolução, estão sendo armados como milícias civis. Não existe controle sobre como foram gastos os 14 milhões de dólares que esses grupos já receberam. Outra pendência é se a companhia petrolífera estatal PDVSA sofrerá novas intervenções do governo. A empresa, que responde por 60% da arrecadação de impostos no país, teve seus dirigentes substituídos pelo presidente há dois meses por companheiros bolivarianos que nada entendiam de petróleo. A resposta foi uma greve que desembocou nos protestos de 11 de abril. Por enquanto, Chávez voltou atrás nas nomeações. "Só o fim da instabilidade econômica, política e jurídica vai permitir que o país cresça. A economia está em crise, apesar dos altos preços do petróleo", diz Domingo Fontiveros, diretor de uma consultoria econômica. "Nunca se sabe que decretos ou que regras do jogo podem mudar da noite para o dia."

O governo americano também enfrenta em relação à Venezuela, sua tradicional fornecedora de petróleo, uma situação nada confortável pelos erros que vem cometendo em matéria de política externa. Numa semana marcada pelo fracasso da missão do secretário de Estado Colin Powell no Oriente Médio e pela sensação de que o governo Bush está perdido num assunto vital para o interesse nacional, diplomatas americanos tiveram de se desgastar negando endosso ao golpe na Venezuela. A história toda trouxe à tona um personagem que parece saído de um filme de Oliver Stone: Otto Reich, cubano naturalizado que ocupa o cargo de subsecretário de Estado para a América Latina. Formado na obsessão anticastrista que é característica dos exilados cubanos, ele chegou a ser repreendido por um órgão oficial por causa da campanha de desinformação que conduziu na época em que o governo Reagan tentava derrubar os sandinistas nicaragüenses. Embaixador na Venezuela, foi acusado de interferir em favor do compatriota Orlando Bosch, que lá cumpria pena pelo atentado a bomba que matou 73 pessoas num avião da empresa aérea cubana.

A ironia final é que, em sua hora mais sombria, Chávez não recebeu apoio nem dos paladinos americanos da democracia nem de seu amigo Fidel Castro. Foram países latino-americanos, o Brasil à frente, que pediram respeito às regras democráticas. E a ironia adicional é que o mais conciso balanço da situação venezuelana depois de tantas reviravoltas foi feito por Pedro Carmona, de seu apartamento-cadeia: "A crise continua. Não foi resolvida".

 
 
   
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