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Edição 1 748 - 24 de abril de 2002
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O brilho da estrela

Lula está em seu melhor momento
nas pesquisas e com uma campanha
cada vez mais profissional

Maurício Lima

Roberto Castro/AE
Lula, saboreando a liderança de votos: o melhor porcentual nas pesquisas neste ano de eleições



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A barreira dos 30 pontos é rompida

Desde que começou a agonia da candidatura presidencial de Roseana Sarney, especula-se quem seria o maior beneficiário de seu balaio de votos. No início, seu espólio foi fraternalmente dividido entre o candidato do governo, José Serra, e o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva. Há duas semanas, pesquisa do instituto Datafolha mostrou que Lula estava avançando com mais intensidade sobre os votos antes destinados a Roseana. Seu desempenho subiu de 26% para 31%, enquanto Serra permaneceu estacionado em 19%. Na semana passada, nova rodada de consultas, desta vez feita pelo Ibope, confirmou essa tendência e apontou que sua intensidade aumentou ainda mais. Pela primeira vez neste ano, Lula chegou a 35% da preferência do eleitorado, cravando quase o dobro das intenções de voto de Serra, o segundo colocado, com 18%.

As pesquisas são retratos momentâneos, sujeitos a todo tipo de alteração. A seis meses da eleição presidencial de 1994, por exemplo, Lula exibia um desempenho espetacular, reunindo a preferência de mais da metade do eleitorado, mas Fernando Henrique acabou ganhando no primeiro turno, graças ao Plano Real. Agora, existem pelo menos três explicações para a ascensão de Lula. A primeira está no programa de televisão do PT, transmitido há quinze dias. Com cenas bem produzidas, exibindo um Lula cativante e com discurso ameno, o programa ainda está na memória do eleitor. A segunda razão é que, ao contrário do que se imagina, dada a distância ideológica entre Lula e Roseana, havia uma interseção dos eleitores. Roseana tinha penetração expressiva nas camadas mais pobres e menos instruídas que querem votar contra o candidato oficial – e viam na ex-governadora uma novidade. Com a renúncia de Roseana, esse eleitor foi para Lula.

 
Cacalo Kfouri
Egberto Nogueira
André Singer, recém-contratado para a equipe de Lula, e o publicitário Duda Mendonça: imagem nova

O outro motivo para o desempenho de Lula está nos motes de sua própria campanha. Até agora, o petista tem se esforçado – com sucesso – para mostrar uma imagem mais flexível e transigente, afastando o ranço radical do passado. Quando os sem-terra ocuparam a fazenda dos filhos de Fernando Henrique, Lula condenou publicamente a invasão, e 30% do eleitorado achou que o petista foi o mais beneficiado pelo episódio. Em seus discursos, entrevistas e conversas políticas, o candidato do PT também tem defendido posições menos radicais, especialmente no plano econômico. Faz sentido eleitoral. Afinal, pesquisas indicam que apenas 27% do eleitorado se identifica plenamente com as teses de esquerda. O restante, que vem a ser a esmagadora maioria, não deseja uma ruptura brusca no atual modelo – e é para essa massa que Lula está falando, com o objetivo de ampliar seu eleitorado. O candidato petista já tem a esquerda. Para ganhar, isso não é suficiente. Ele tem de conquistar o voto do centro. "Lula está se aproximando de nosso discurso macroeconômico", opina o líder do governo no Congresso, Arthur Virgílio, ao exibir uma ponta de preocupação com essa inflexão.

Depois de perder três vezes seguidas as eleições presidenciais, Lula está caprichando mais nesta campanha. Na semana passada, criou a figura do porta-voz de campanha. Para a função, convidou o jornalista André Singer, que trabalhava no jornal Folha de S.Paulo e agora se encarregará de responder às perguntas dirigidas a Lula. É uma forma de poupar o petista de questionamentos embaraçosos ou declarações precipitadas. Outra mudança, essa crucial para os destinos da campanha, foi a contratação do publicitário Duda Mendonça, um profissional competente que fez fama como marqueteiro malufista. Aos poucos, Duda Mendonça está ganhando força no PT e conseguindo imprimir sua marca na campanha petista. Já mudou o visual do candidato, que trocou a indumentária despojada por terno e gravata tinindo de novos. Lula está com a fisionomia descontraída e é todo sorrisos no comercial eleitoral do PT. Fala em amadurecimento do partido, diz que tem na cabeça os fios brancos da experiência.

O eixo central do trabalho do publicitário é eliminar imagens negativas de Lula: de que é tolerante com a baderna, não tem experiência administrativa, é ignorante e perdedor. Lula estrelou os programas regionais do partido dizendo que o MST não tem nenhum vínculo de subordinação ao PT – portanto, invasão de fazenda não é um credo do petismo. Noutra cena, surge um mapa do Brasil, cravejado de estrelas vermelhas, indicando os quatro Estados e os 187 municípios em que o PT é governo – e a mensagem é que seu partido tem experiência administrativa. Em outro momento, Lula coordena uma equipe de umas 100 pessoas. Como um líder, movimenta-se entre elas, nas quais se incluem figuras conhecidas, como a economista Maria da Conceição Tavares e o físico Luiz Pinguelli Rosa – e, portanto, se é capaz de comandar um grupo de notáveis, Lula é um homem com preparo e inteligência. A idéia de que o petista é um perdedor, por estar na quarta disputa presidencial, será abordada nos próximos programas. Vai tentar mostrar que o candidato não carrega o vírus da derrota, mas da perseverança.

Mesmo tendo rompido a barreira dos 30%, que muitos apontavam como teto de Lula, sua candidatura não é a maior dor de cabeça para os círculos governistas. Ali, o que provocou mais apreensão, com a pesquisa da semana passada, foi o crescimento do ex-governador Anthony Garotinho, do PSB. Garotinho está com 17% das intenções de voto, numa situação de empate técnico com o governista José Serra. Os tucanos acham que Lula é o melhor adversário, pois trabalham com a suposição de que o petista pode até chegar perto de Serra, mas não conseguiria vencê-lo no segundo turno. Assim, o temor do tucanato, com a ascensão de Garotinho, é que Serra não consiga a vaga no segundo turno. É por essa razão que os tucanos aparecem com freqüência distribuindo elogios a Lula – e fazendo alertas, numa alusão a Garotinho, sobre os perigos do populismo. É uma forma de deixar Lula nas alturas das pesquisas, já que sua presença no segundo turno parece cada vez mais provável, e impedir que Garotinho roube o lugar de Serra na rodada final.

Desde que perdeu seu candidato a vice, o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, a candidatura de Serra não produz uma notícia alentadora. Na semana passada, os tucanos se preocupavam, ainda, com a imobilidade de Serra nas últimas pesquisas. Embora sua rejeição tenha apresentado uma leve queda, há quatro semanas o candidato está parado na preferência do eleitorado, ficando sempre com 18% ou 19%. Na ânsia de procurar respostas para a estagnação, sobrou até para a equipe econômica. Os aliados de Serra avaliam que faltou sensibilidade política ao ministro da Fazenda, Pedro Malan, ao anunciar o aumento do imposto sobre operações financeiras (IOF). Também reclamam do aumento do preço da gasolina. Não deixa de ser curioso que uma candidatura oficial, poderosamente alavancada pela máquina, passe a entender que seu problema é justamente a máquina.

 

 

 

 
 
   
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