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Edição 1 748 - 24 de abril de 2002
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Lei do silêncio

Governo tenta abafar uma crise
que já está em ebulição no setor
de telecomunicações

 
Joedson Alves/AE

Celso Junior/AE

Confronto: Fraga pede flexibilização de regras e irrita Valente, da Anatel

Um documento feito pela operadora de celulares BCP, enviado ao governo, prevê que o sistema de telefonia no Brasil pode entrar em colapso. Apesar de terem movimentado 33 bilhões de dólares em 2001 e de seu desempenho operacional ser comparável ao das melhores companhias internacionais, as operadoras no Brasil estão tendo retorno financeiro muito abaixo do esperado. O documento da BCP foi apresentado pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, durante reunião na Câmara de Política Econômica. As sugestões de mudanças nas regras do setor, propostas por Fraga, enfureceram o presidente interino da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Antonio Carlos Valente.

As empresas de telecomunicações querem a flexibilização de um modelo de sucesso que triplicou a rede de telefonia do país mas começa a dar mostras evidentes de estar falido. "A crise é dramática. As empresas não vão quebrar da noite para o dia, mas o modelo atual se esgotou", diz Ethevaldo Siqueira, presidente da Telequest Telecomunicações e colunista do jornal O Estado de S..Paulo. O problema básico é o fato de estarem em vigor regras que foram muito adequadas para atender à demanda reprimida por telefones que a atuação estatal no setor deixou. Agora que o número de aparelhos celulares saltou de 5 milhões para 30 milhões e a procura está rarefeita, as regras que funcionaram tão bem antes começam a inviabilizar algumas operações. Além disso, as operadoras trabalham com margens operacionais muito pequenas e, em conseqüência, remuneram os fornecedores de equipamentos em níveis bem menores. Uma linha custava à estatal Telebrás 5.000 dólares há cinco anos. Hoje o custo de instalação de uma linha fixa caiu para 420 dólares.

O resultado é que há empresas de mais para clientes de menos. Para ganhar fôlego e crescer, não há como fugir da tendência natural de concentração de mercado. Qualquer passo nesse sentido só poderá ser dado em 2003, conforme as regras da Anatel. Mas o mercado não espera. "A fusão de empresas e a mudança do controle acionário já estão sendo discutidas agora", observa o presidente de uma das maiores companhias de telecomunicações do país. O problema enfrentado pelas operadoras se alastra para os fabricantes de equipamentos. Nos Estados Unidos, apenas três empresas, Nokia, Motorola e Ericsson, dominam 90% do mercado de celulares. No Brasil, nove companhias servem a uma clientela que equivale a 10% da americana. No setor de telefonia fixa a situação relativa se repete. Nos Estados Unidos, o mercado é dividido por duas fornecedoras de equipamentos, Lucent e Nortel. No Brasil, tem-se quase uma dezena. Resultado: há ociosidade de 80% nas empresas fabricantes de equipamentos de telefonia. A crise do setor que se anuncia no Brasil tem parte de suas causas vindas de fora. O mercado está duro para todo mundo. As companhias telefônicas européias acabam de investir 100 bilhões de dólares para comprar licenças de operação da tecnologia 3G, que conjuga texto e imagem em transmissões de banda larga. Ficaram descapitalizadas em um mercado já saturado. No Brasil, a previsão é que o setor investirá apenas 25% do total gasto em 2001. "O governo tentou empurrar a crise para depois da eleição, mas a divulgação do documento da BCP abriu a tampa da panela de pressão", diz o presidente de uma operadora.

 
 
   
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