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Edição 1 748 - 24 de abril de 2002
Brasil Política

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...a solução do PFL
deve ser outra

Metade da base parlamentar do
partido não quer apoiar ninguém

Maurício Lima e Vannildo Mendes

A verticalização das alianças partidárias, mantida na semana passada pelo Supremo Tribunal Federal, está prestes a produzir uma novidade histórica no cenário político brasileiro. O PFL, partido celebrizado por seu inefável governismo, corre o risco de ficar alijado do poder federal, um exílio a que não se submete desde sua fundação, em 1985, à exceção do breve interregno do governo Itamar Franco (1992-1994). Desde que ficou desfalcado da candidatura de Roseana Sarney, o PFL passou a comportar-se como a noiva da temporada – mandava beijos tórridos para Ciro Gomes, do PPS, olhares lânguidos para José Serra, do PSDB, e até alguns muxoxos encabulados para Anthony Garotinho, do PSB. Como a verticalização força os partidos a reproduzir em âmbito estadual a aliança firmada para a Presidência da República, todos esses namoros pefelistas perderam o entusiasmo. Na semana passada, VEJA ouviu a bancada do PFL no Congresso para saber quais os rumos que o partido deve tomar com a verticalização. O vento virou: 48,6% acham que a legenda não deve consumar matrimônio com nenhum candidato ao Palácio do Planalto.

 
Alan Marques/Folha Imagem

Bornhausen, líder de um PFL dividido: crise começa com a morte de Luís Eduardo

Os deputados e senadores querem que o PFL fique livre para selar quaisquer alianças estaduais e possa trabalhar para eleger a maior bancada possível, mantendo-se assim na condição de potência parlamentar. Hoje, o partido tem a maior representação no Congresso. O levantamento de VEJA mostra quanto o PFL, partido que criou fama de unitário, quase monolítico, ficou fragmentado com a desistência de Roseana. Enquanto quase a metade prefere ficar sem candidato presidencial, 17,1% dos parlamentares defendem a adesão à candidatura de Ciro Gomes. Um naco semelhante, 16,2%, acha que o partido ainda deve insistir no lançamento de um candidato próprio, saído de suas fileiras. Entre os que defendem esse ponto de vista, os nomes mais mencionados são o do vice-presidente, Marco Maciel, e o do apresentador Silvio Santos, dono do SBT. Uma parcela menor, de menos de 10%, gostaria de ver o partido aliado a José Serra. Quase o mesmo tanto, 8,6%, não tem opinião formada ou não a revelou.

Dida Sampaio/AE

O tucano José Serra: verticalização ajuda a empinar sua candidatura


A decisão do STF terá impacto notável na sucessão presidencial, e não apenas na seara pefelista. A verticalização das coligações foi uma extemporânea invencionice do Tribunal Superior Eleitoral, no fim de fevereiro, mas o STF não teve a ousadia de derrubá-la. Rendendo-se ao burocratismo jurídico, sete dos onze ministros do STF preferiram não aceitar o questionamento legal, proposto pelo PFL e pelos partidos de oposição, contra a decisão do TSE – e, assim, mantiveram a verticalização. Fosse a eleição deste ano realizada nos moldes da anterior, com coligações livres, o próprio PFL tenderia a tomar outro rumo. VEJA pesquisou também esse cenário com a bancada pefelista. Nessa hipótese, o cenário seria outro: a maior parcela dos deputados e senadores, 28,6%, estava inclinada a apoiar Ciro Gomes. A outra opção mais mencionada, preferida por 26,7% da bancada, era deixar o partido sem candidato à Presidência da República – alternativa que, com a verticalização, acabou se tornando majoritária entre os pefelistas.

Além de afastar o PFL dos braços de Ciro Gomes, a verticalização complicou a vida de outros candidatos. O ex-governador do Rio Anthony Garotinho corre o risco até de ser forçado a abandonar a disputa. Pode morrer de inação, pela falta de apoios partidários, que tendem a minguar para que os palanques estaduais não sejam prejudicados. Mesmo Luís Inácio Lula da Silva, do PT, líder absoluto das pesquisas (veja reportagem), terá mais dificuldades para atrair o apoio do PL. Só quem ganhou com a verticalização foi o tucano José Serra. Seus aliados gostam de afirmar o contrário. Dizem que, se as alianças fossem liberadas, estariam eliminadas as arestas com o PMDB em alguns Estados e os tucanos seriam poupados de fazer complicadas ginásticas eleitorais. É verdade. Mas há vantagens para Serra. Uma: o PFL não deve caminhar com Ciro, o que é excelente para o tucano. Outra: Serra ficou livre para negociar alianças com o pedaço do PFL que lhe devota simpatia. Afinal, quase 10% da bancada pefelista quer apoiá-lo.

A desgraça em que o PFL se encontra a seis meses da eleição presidencial é resultado de seus próprios erros. No início, o partido trombou com a fatalidade – a morte prematura do deputado Luís Eduardo Magalhães, em 1998. Luís Eduardo era o candidato pefelista ao Palácio do Planalto e tinha chances, bem mais sólidas que as de Roseana Sarney, de aglutinar em torno de si o apoio dos tucanos, ficando ele próprio na cabeça de chapa. Embalado por essa esperança, o PFL sentia-se confortável no ninho da aliança governista, na qual tinha espaço de sobra e perspectivas reais de poder. A morte do deputado deixou o partido sem opção. O PFL julgou que, sem um candidato competitivo, seria triturado dentro da tróica de partidos que apoiavam Fernando Henrique.

Nesse contexto, a cúpula pefelista produziu a alternativa Roseana Sarney, para valorizar-se nas negociações com as outras duas legendas do governo – e aí começou a sucessão de erros. A candidata decolou nas pesquisas, subindo muito mais que o esperado, e o partido entusiasmou-se tanto que não teve a serenidade de perceber a hora de parar com a brincadeira. Quando Roseana se enrolou nas notas de 50 reais encontradas em sua empresa no Maranhão, o PFL não atentou para o perigo. Levou sua base parlamentar a abandonar o governo, rompendo uma aliança de sete anos. Chegou ao ponto de associar-se às oito versões para o dinheiro apresentadas pela família Sarney. Ficou sem candidata, sem credibilidade e sem companhia. E, vê-se agora, crivado de divisões internas.

 
 
   
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