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É
possível? Possível, é. Mas...
Esta
campanha se
transformou numa
vitrine de jacarés com cobras-d'água,
como
mostrou a turma de Ciro
Maurício Lima e Vannildo Mendes
Ilustração Attilio com fotos Ana Araujo/Moreira
Mariz/Domingues/Nelio Rodrigues e Ricardo Stuckert
Com
a decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a verticalização
das coligações partidárias, a maioria dos candidatos
ficou exposta ao sereno. Mas quem está colhendo os prejuízos
mais visíveis até agora é o candidato Ciro Gomes,
do PPS. A decisão do STF tornou praticamente inviável a
aliança de Ciro com o PFL, que agora deve tomar outro rumo (veja
reportagem). Até a quinta-feira passada, o candidato
ainda travava um acalorado duelo para desarmar as resistências ao
casamento com os pefelistas. O PDT de Leonel Brizola, aliado de Ciro,
estava feliz com a possibilidade de abrir os braços aos pefelistas.
"Pode ser uma aliança anti-social, mas não é antinacional",
dizia o velho caudilho. O PTB, de José Carlos Martinez, outro aliado
de Ciro, também estava empolgado com a idéia. Mas o presidente
do PPS, senador Roberto Freire, desembainhou a espada e esconjurou a aliança
como coisa do diabo. "O PFL sempre foi governista, com interesses aos
quais nosso projeto é contrário e vai tentar mudar", disse.
"É uma aliança de jacaré com cobra-d'água",
completou.
De fato, seria engraçado contemplar um palanque em que Jorge Bornhausen,
o vetusto timoneiro do liberalismo pefelista, fosse entusiasticamente
saudado pelo nacionalista Leonel Brizola. Ou um comício de rua
em que o ex-comunista Roberto Freire erguesse os braços de Antonio
Carlos Magalhães, cacique do PFL baiano, para saudá-lo como
a mais recente lufada de renovação na política brasileira.
Ou, ainda, o próprio Ciro Gomes e ACM sepultando, em público,
toda aquela discussão de sujeiras e galinheiros. Há três
anos, num bate-boca público, Ciro Gomes disse o seguinte: "ACM
é sujo como pau de galinheiro". Ao que ACM respondeu: "Ciro é
o próprio galinheiro". Com longa militância no Partido Comunista
Brasileiro, antecessor do PPS, Roberto Freire tem tudo para renegar a
aliança com pefelistas, do ponto de vista político e ideológico.
O curioso é que o jacaré Roberto Freire nunca tenha reclamado
de aliar-se à cobra-d'água do PTB, uma sigla que nem merece
o rótulo de governista porque é tão fisiológica,
mas tão fisiológica, que até mesmo seu governismo
é secundário.
Mesmo com as chances de Ciro aliar-se ao PFL agora reduzidas a perto de
nada, a atual campanha eleitoral tem sido generosa em alianças
de aparência esdrúxula. Com a verticalização
mantida ficou mais difícil, mas Luís Inácio Lula
da Silva, do PT, ainda tem esperanças de atrair o apoio do PL,
um partido de corte abertamente liberal e com forte influência evangélica.
Outro que tenta um casamento esquisitíssimo é o ex-governador
do Rio Anthony Garotinho, candidato do Partido Socialista Brasileiro.
Quer o apoio de ninguém menos que o PPB de Paulo Maluf. Com a verticalização,
a própria candidatura de Garotinho está ameaçada
de naufragar mas seria impagável ver Maluf subindo num palanque
para apoiar "o candidato do socialismo brasileiro".
A busca por apoios às vezes pode perder em coerência ideológica,
mas faz todo o sentido eleitoral. Rende votos. É disso que um candidato
precisa para chegar lá. É por essa razão que a campanha
eleitoral tem proporcionado um notável cortejo aos evangélicos,
um precioso rebanho de 20 milhões de votos que, além de
numeroso, costuma ser fiel às orientações eleitorais
dos pastores. Garotinho, convertido em 1994, nunca perde uma chance de
lembrar à platéia sua opção religiosa e dirige-se
aos eleitores com o indefectível tratamento de "meus irmãos,
meus irmãos". Lula, ainda percorrendo o calvário de seduzir
o PL, um partido que abriga representantes da Igreja Universal do Reino
de Deus, defendeu na semana passada a adoção obrigatória
da Bíblia nas escolas de ensino fundamental. "Amém,
amém", murmuraram os oitenta pastores presentes à reunião.
Recentemente, o candidato José Serra, do PSDB, também entrou
no cortejo. No Rio, participou de uma cerimônia da Assembléia
de Deus, a maior igreja evangélica do país. Falou, falou
e, no final, deixou escapar um pecadilho: elogiou a parceria do governo
com a Igreja... Católica!
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