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Edição 1 748 - 24 de abril de 2002
Brasil Política

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É possível? Possível, é. Mas...

Esta campanha se transformou numa
vitrine de jacarés com cobras-d'água,
como mostrou a turma de Ciro

Maurício Lima e Vannildo Mendes


Ilustração Attilio com fotos Ana Araujo/Moreira Mariz/Domingues/Nelio Rodrigues e Ricardo Stuckert

Com a decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a verticalização das coligações partidárias, a maioria dos candidatos ficou exposta ao sereno. Mas quem está colhendo os prejuízos mais visíveis até agora é o candidato Ciro Gomes, do PPS. A decisão do STF tornou praticamente inviável a aliança de Ciro com o PFL, que agora deve tomar outro rumo (veja reportagem). Até a quinta-feira passada, o candidato ainda travava um acalorado duelo para desarmar as resistências ao casamento com os pefelistas. O PDT de Leonel Brizola, aliado de Ciro, estava feliz com a possibilidade de abrir os braços aos pefelistas. "Pode ser uma aliança anti-social, mas não é antinacional", dizia o velho caudilho. O PTB, de José Carlos Martinez, outro aliado de Ciro, também estava empolgado com a idéia. Mas o presidente do PPS, senador Roberto Freire, desembainhou a espada e esconjurou a aliança como coisa do diabo. "O PFL sempre foi governista, com interesses aos quais nosso projeto é contrário e vai tentar mudar", disse. "É uma aliança de jacaré com cobra-d'água", completou.

De fato, seria engraçado contemplar um palanque em que Jorge Bornhausen, o vetusto timoneiro do liberalismo pefelista, fosse entusiasticamente saudado pelo nacionalista Leonel Brizola. Ou um comício de rua em que o ex-comunista Roberto Freire erguesse os braços de Antonio Carlos Magalhães, cacique do PFL baiano, para saudá-lo como a mais recente lufada de renovação na política brasileira. Ou, ainda, o próprio Ciro Gomes e ACM sepultando, em público, toda aquela discussão de sujeiras e galinheiros. Há três anos, num bate-boca público, Ciro Gomes disse o seguinte: "ACM é sujo como pau de galinheiro". Ao que ACM respondeu: "Ciro é o próprio galinheiro". Com longa militância no Partido Comunista Brasileiro, antecessor do PPS, Roberto Freire tem tudo para renegar a aliança com pefelistas, do ponto de vista político e ideológico. O curioso é que o jacaré Roberto Freire nunca tenha reclamado de aliar-se à cobra-d'água do PTB, uma sigla que nem merece o rótulo de governista porque é tão fisiológica, mas tão fisiológica, que até mesmo seu governismo é secundário.

Mesmo com as chances de Ciro aliar-se ao PFL agora reduzidas a perto de nada, a atual campanha eleitoral tem sido generosa em alianças de aparência esdrúxula. Com a verticalização mantida ficou mais difícil, mas Luís Inácio Lula da Silva, do PT, ainda tem esperanças de atrair o apoio do PL, um partido de corte abertamente liberal e com forte influência evangélica. Outro que tenta um casamento esquisitíssimo é o ex-governador do Rio Anthony Garotinho, candidato do Partido Socialista Brasileiro. Quer o apoio de ninguém menos que o PPB de Paulo Maluf. Com a verticalização, a própria candidatura de Garotinho está ameaçada de naufragar – mas seria impagável ver Maluf subindo num palanque para apoiar "o candidato do socialismo brasileiro".

A busca por apoios às vezes pode perder em coerência ideológica, mas faz todo o sentido eleitoral. Rende votos. É disso que um candidato precisa para chegar lá. É por essa razão que a campanha eleitoral tem proporcionado um notável cortejo aos evangélicos, um precioso rebanho de 20 milhões de votos que, além de numeroso, costuma ser fiel às orientações eleitorais dos pastores. Garotinho, convertido em 1994, nunca perde uma chance de lembrar à platéia sua opção religiosa e dirige-se aos eleitores com o indefectível tratamento de "meus irmãos, meus irmãos". Lula, ainda percorrendo o calvário de seduzir o PL, um partido que abriga representantes da Igreja Universal do Reino de Deus, defendeu na semana passada a adoção obrigatória da Bíblia nas escolas de ensino fundamental. "Amém, amém", murmuraram os oitenta pastores presentes à reunião. Recentemente, o candidato José Serra, do PSDB, também entrou no cortejo. No Rio, participou de uma cerimônia da Assembléia de Deus, a maior igreja evangélica do país. Falou, falou e, no final, deixou escapar um pecadilho: elogiou a parceria do governo com a Igreja... Católica!

 
 
   
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