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Edição 1 748 - 24 de abril de 2002
Entrevista: Peter Hakim

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mapa

Especialista em América Latina diz
que só o comércio e o eleitorado
hispânico podem tornar a região
mais visível para os Estados Unidos

Raul Juste Lores

O americano Peter Hakim passou as últimas quatro décadas de sua vida acompanhando de perto a América Latina. Morou no Brasil nos anos 60 como bolsista da Fundação Ford, viveu no Chile e visitou inúmeras vezes quase todos os países ao sul dos Estados Unidos. Presidente do Inter-American Dialogue, um centro de estudos especializado em análise política e nas relações entre os países do continente, ele também é conselheiro do Banco Mundial para a América Latina. No momento, Hakim está atarefado tentando entender uma série de crises simultâneas: a confusão na Venezuela, a guerra civil na Colômbia, a crise por que passa a economia argentina e também as eleições presidenciais no Brasil. Mas ele está especialmente intrigado com a política do presidente George W. Bush em relação aos vizinhos latinos. "Até agora, Bush demonstrou entusiasmo pouco comum com a América Latina", diz. "Mas sem uma política específica, sem foco no que pretende fazer na região." Hakim falou a VEJA em seu escritório em Washington.

Veja – O governo americano agiu de modo tão confuso em relação à tentativa de golpe de Estado na Venezuela que ficou a impressão de que Washington estava envolvida com os golpistas. O que aconteceu?
Hakim – O governo atuou de forma tola ao parecer aplaudir o golpe, sem demonstrar uma mínima preocupação com a maneira irregular e inconstitucional como foi feito. A Casa Branca pareceu indiferente ao processo democrático, só preocupada com a queda do presidente Hugo Chávez. É uma atitude que achávamos que tinha desaparecido com a Guerra Fria. Washington manchou sua credibilidade em assunto de democracia.

Veja – Por que a sociedade venezuelana chegou a esse ponto de polarização tão radical, de confronto?
Hakim – Divisões de classes existem em todas as sociedades. Tornaram-se mais profundas na Venezuela, porque os venezuelanos pensavam que seu país era rico. Os pobres achavam que sua parte da riqueza tinha sido roubada por quem tem dinheiro. Chávez tirou vantagem dessas divisões e as agravou como uma estratégia política. Se ele quiser mudar essa situação, pode fazer duas coisas. Uma seria adotar uma política de menos confrontação, mais conciliatória, para atingir seus objetivos. A segunda é nomear uma equipe econômica competente.

Veja – A tentativa de golpe e o clima de instabilidade do governo Chávez reforçam a imagem da América Latina como um lugar de badernas?
Hakim – A imagem da região sofreu claramente. Golpes militares, colapsos financeiros, instabilidade política são cenas que dominam a visão pública da América Latina. Muito agora depende do que acontecerá no Brasil nos próximos meses. Um Brasil bem-sucedido, estável, pode contrabalançar o que acontece no resto da América do Sul.

Veja – Qual a responsabilidade brasileira no futuro da América Latina?
Hakim – A preocupação com a eleição brasileira tem a ver com a economia. O temor é que o manejo da economia entre numa fase populista. E o populismo está representado pelo Lula, que está na frente nas pesquisas. Como seria a política econômica dele? As dúvidas são menores quanto a José Serra, que representa o continuísmo. O problema é que todo mundo acha que o Brasil não terá mais um presidente tão excelente como Fernando Henrique. Ele é visto como o top do que o Brasil pode ter nesse cargo.

Veja – Quando o presidente Bush assumiu, dizia-se que ele daria especial atenção à América Latina. Por que isso não aconteceu?
Hakim – Os primeiros meses de Bush foram animadores. Ele tem uma amizade especial com o presidente Vicente Fox, do México, e chegou a dizer que o México era o país mais importante para os Estados Unidos. Também se encontrou com vários presidentes latino-americanos. Mas o entusiasmo não era parte de uma estratégia. A rigor, a prioridade de Bush nem era a América Latina, mas apenas o México. Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro, mudaram-se as prioridades. As questões relativas à economia foram superadas pelas preocupações de defesa. Bush não tem política para a guerra civil e o narcotráfico na Colômbia. A América Latina não pode ser prioridade se a Argentina é tratada do jeito desastroso como está sendo feito. O que a América Latina deseja é aumentar a cooperação econômica. Bush nada tem de novo a oferecer sobre imigração e comércio, os temas que mais interessam.

Veja – Por que a América Latina é sempre tão desimportante na política externa americana?
Hakim – Os Estados Unidos, como a maioria dos países, têm a grande dificuldade de enfrentar mais de um problema ao mesmo tempo. Na Guerra Fria, a América do Sul não era alvo de uma política constante. Vietnã, Coréia, China mereciam muito mais atenção. Quando acabou a Guerra Fria, abriu-se espaço para uma política mais consistente e mais coerente em relação à região. Bill Clinton escolheu o livre comércio como meta, mas não pôde avançar, pois o Congresso rejeitou o fast track, que daria ao presidente autoridade para negociar acordos comerciais. Ironicamente, a América Latina não chama a atenção porque não provoca o tipo de crises criadas pelo Oriente Médio e o Afeganistão.

Veja – O que o governo americano deveria fazer para ajudar a Argentina?
Hakim – Os Estados Unidos, junto com o FMI, deveriam apresentar um programa de ajuste para a Argentina. Algo do tipo: se vocês comprovarem que podem fazê-lo, damos um pacote de xis bilhões de dólares de ajuda. Os argentinos não têm como resolver, sozinhos, seus problemas. Quando uma casa está em chamas, os vizinhos não podem esperar que seus donos controlem o fogo. Têm de ajudar. O único país que pode ajudar para valer são os Estados Unidos. Já somos vistos como a superpotência que deu as costas à agonia argentina. É uma imagem de grande impacto para a relação dos Estados Unidos com os vizinhos. A Argentina foi o maior aliado dos Estados Unidos na região e é ignorada, na mesma época em que a Turquia – que tem problemas parecidos – recebeu ajuda por motivos estratégicos.

Veja – O que deveria mudar em relação à Colômbia?
Hakim – A Colômbia não pode resolver seu conflito sozinha. É importante que a entrada dos Estados Unidos lá seja para valer. A prioridade deveria ser fortalecer o governo e o Exército colombianos. É um governo democrático, que quer ajuda externa. Os vizinhos também deveriam participar mais. A impressão que eu tenho, e que as autoridades colombianas também têm, é que o Brasil quer manter distância do conflito colombiano. Como principal vizinho, o Brasil teria de estar mais envolvido. É curioso que o Brasil pareça mais incomodado com o papel que os Estados Unidos desempenham na Colômbia do que com a guerra que é travada lá.

Veja – O governo americano tem algum objetivo para a América Latina?
Hakim – Não há uma estratégia. De qualquer forma, é muito complicado ter um único plano. Em termos práticos, a América Latina são 33 países muito diferentes uns dos outros. Uma estratégia para o Brasil não serve para Honduras. É como um time de futebol: não se pode esperar que o técnico dê ao jogador perna-de-pau o mesmo tratamento concedido ao artilheiro da equipe. A política americana precisa ter como eixo central a economia, com claro apoio ao fortalecimento das instituições democráticas, livre comércio. Os Estados Unidos podem ajudar a evitar crises e a resolvê-las.

Veja – Como a Casa Branca deveria tratar o Brasil?
Hakim – Os Estados Unidos precisam ter uma relação mais fluida com o Brasil. Por causa de seu tamanho, sua economia e seu grau de desenvolvimento, o Brasil é um país que desempenha um papel importante no continente. Temos de pensar de que modo os dois países podem relacionar-se, sem ser adversários.

Veja – A presença de tantos imigrantes latino-americanos já influi no modo com que os políticos americanos vêem a América Latina?
Hakim – Com certeza. A mudança é muito rápida. O número de novos cidadãos e de eleitores hispânicos não pára de crescer, bem acima da média nacional. Um terço dos parlamentares da Califórnia é de hispânicos. Em dez anos, podem chegar a ser metade. Dessa forma, o México se tornou mais importante em razão da política interna americana. Não é à toa que Bush passa tanto tempo com o presidente Fox. No Texas, houve um debate em espanhol entre os candidatos democratas a governador. É de um simbolismo enorme.

Veja – O senhor vê possibilidade de o Brasil fechar sua economia?
Hakim – O Brasil está em um processo de abertura econômica lento e mais gradual que o do México ou o do Chile, que o fizeram rapidamente. Mas a direção é a mesma. Imagino que a abertura será mais lenta do que foi nos anos FHC. Em parte isso se deverá às negociações para a formação da Alca, o mercado comum das Américas. Mas também porque os Estados Unidos não têm sido muito abertos em política comercial. O empresariado brasileiro é mais fechado que a média latino-americana. As grandes empresas brasileiras são orientadas para o mercado interno. Cresceram muito, modernizaram-se, mas não têm a necessidade de conquistar outros mercados, como ocorre com os chilenos. A longo prazo, a abertura econômica é inevitável. Países fechados são mais vulneráveis a crises. Veja o que ocorre com o Brasil. Depende de investimentos externos, exporta pouco, o que o obriga a ajustes econômicos contínuos.

Veja – O populismo ainda é uma tentação para os países latino-americanos?
Hakim – Desde que começou a abertura econômica na América Latina, leio que há o perigo da volta do populismo. Mas veja: o sandinista Daniel Ortega perdeu várias eleições na Nicarágua. No Chile venceu um socialista que é neoliberal. O PT está cada vez mais centrista, menos radical, buscando aliados na direita. Os populistas perderam em todos os lugares, exceto na Venezuela. É evidente que há menor confiança nas reformas econômicas, mas o único país que voltou ao passado foi a Venezuela. Nenhum país na América Latina, fora o Haiti e a Nicarágua, teve resultados econômicos tão ruins nos últimos tempos como a Venezuela. O populismo lá é um desastre.

Veja – Qual é a maior ameaça neste período de recessão em quase todos os países do continente?
Hakim – O desânimo e a falta de confiança nas reformas e em si próprio são um perigo bem maior que o populismo. A Argentina é um país rico, de classe média, um povo bem-educado, e não consegue sair desse ciclo de crises. A imigração, que é um fenômeno em quase todos esses países, de jovens que vão embora por falta de perspectivas é um péssimo sinal para a região. Significa que a juventude perdeu a confiança nas instituições, em seu país.

Veja – Como contornar o fato de que os produtos mais competitivos do Brasil, como os agrícolas e o aço, sejam exatamente os que enfrentam maiores barreiras para entrar nos Estados Unidos?
Hakim – As indústrias mais modernas, com alto grau de tecnologia, competem sem subsídios. São as mais antigas, as de aço e de produtos agrícolas, que pedem subsídios. Não há maneira de evitar. Os parlamentares americanos lutam pelos interesses de seus eleitores e vão votar para defender as indústrias que representam. Se o Brasil insistir em que os Estados Unidos acabem com os subsídios, nenhum acordo irá em frente. O Brasil tem de se perguntar: estamos melhor com ou sem esse acordo?

Veja – O senhor acha que é por causa das medidas protecionistas americanas que a Alca tem uma imagem negativa tanto para a esquerda quanto para o empresariado do Brasil?
Hakim – Até o Nafta tem uma imagem ruim nos Estados Unidos. Há uma oposição muito grande ao acordo com o México. Todos têm uma história desastrosa para contar: aqui havia uma fábrica que foi para o México, agora há mais desempregados etc. O México ganhou muito com o Nafta, mas lá tampouco o Nafta é muito popular. O cultivo de milho mexicano está sendo destruído. E é injusto, porque o milho americano que vai para lá é subsidiado. Mas, se você soma tudo, o México saiu ganhando muito, vive uma grande história de sucesso.

Veja – Para que setores da economia brasileira um acordo de livre comércio com os EUA poderia ser benéfico?
Hakim – Todos os estudos dizem que o Brasil ganharia com a abertura da economia. O aço não seria beneficiado, mas chegariam investimentos para os setores que têm acesso seguro ao maior mercado do mundo. O mercado americano vale 10 trilhões de dólares. Em dois anos, a economia dos Estados Unidos cresce o equivalente à de um Brasil inteiro. Para qualquer investidor, é algo muito atraente. Esse acordo acaba dando confiança ao mercado, seria uma garantia de estabilidade. O Brasil deve negociar o melhor acordo possível. O que faz a Alca ser atrativa para o empresariado americano é o mercado brasileiro, que responde por 70% da economia da América do Sul.

Veja – O Brasil corre o risco de ficar isolado pela pressão americana para que os demais vizinhos entrem para a Alca?
Hakim – O Brasil é muito grande e muito importante para ser isolado. Sem o Brasil, esse acordo de livre comércio perde muito do interesse para o mercado americano. O grosso do investimento americano na América do Sul vai para o Brasil. E a Alca não é só comércio, é também investimento. O Brasil deve negociar seriamente. Afinal, é interesse dos dois países chegar a um acordo.

 
 
   
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