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Gustavo
Franco
Eu
quero ser
Juscelino Kubitschek
"Em
todas as três eleições que tivemos
desde 1989 ganharam candidatos com
programas contrários à fórmula de JK.
Eles
tinham programas ortodoxos de
combate à inflação, baseados em corte
de gastos, aumento
de
impostos,
privatização, abertura, desregulamentação,
reforma antiestatizante e com
o apoio do FMI"
Ilustração Ale Setti
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Ouvindo nossos presidenciáveis falando de "política industrial",
"substituição de importações", tudo por causa
de perigos vindos do exterior, e da necessidade de grandes investimentos
públicos, a impressão é que todos repetem uma fórmula,
um paradigma de político vitorioso: JK, que governou o país
de 1956 a 1961.
Um extraordinário pequeno livro, Feliz 1958 O Ano que
Não Devia Terminar, de Joaquim Ferreira dos Santos, oferece
um lindo retrato desses anos dourados. JK empenhava-se numa grande obra,
Brasília, com o propósito de "liquidar a sonolência
de uma sociedade que parasitava em torno das praias, como caranguejos
ou como se quisesse ir embora". Do déficit público só
uns chatos falavam, e já se brigava com o FMI, para o deleite das
massas. A seleção brasileira ganhou nossa primeira Copa
do Mundo e o futuro era brilhante, pois Pelé tinha apenas 17 anos.
Eram tempos da bossa nova, mas também das chanchadas e macacas
de auditório. Nas praias brilhavam os maiôs Catalina, mas
também as bóias de pneu. As crianças brincavam de
bambolê e com a espada do Falcão Negro, cujo long-play vendia
como os videogames de agora. Os carros americanos importados na farra
do pós-guerra tinham virado táxis pretos caindo aos pedaços,
e nas ruas circulavam DKW-Vemag, Romi-Isetta e Fusca feitos no Brasil.
A inflação estava começando a doer, a pobreza era
como hoje, mas dizem que o crime era menor. O progresso criava tensões,
mas éramos um país de bom humor, que estava sendo inundado
pelo capital estrangeiro.
Em 12 de setembro de 2002 completa-se o centenário de JK, e sua
fórmula continua dominante. Nenhum político parece capaz
de entrar numa eleição sem estar fantasiado de JK. Todos
os presidentes que se seguiram adotaram o ideal nacionalista da auto-suficiência,
expresso em algum Plano Nacional de Desenvolvimento, cheio de "ativismo
estatal esclarecido", e de grandes investimentos públicos de "alto
interesse estratégico ou social", do general Geisel a João
Goulart, praticamente sem exceção.
O fenômeno se parece com o que se passa no filme Quero Ser John
Malkovich, de Spike Jonze, em que um especialista em manipulação
de marionetes descobre em um edifício de estranha arquitetura um
portal que leva diretamente ao cérebro de John Malkovich, um dos
mais admirados atores americanos. O portal se torna um sucesso de bilheteria,
e filas enormes se formam com pessoas querendo ser John Malkovich a 200
dólares por quinze minutos.
Sempre me ocorre, chegando a Brasília e transitando pelos longos
corredores do aeroporto, ou pelos enormes túneis do Congresso Nacional,
que as pessoas estão querendo penetrar no cérebro de Juscelino
Kubitschek. Alguns por quinze minutos, outros com a intenção
de não sair nunca mais. Milhares de políticos, no figurino
do filme, se tornaram "hospedeiros" de JK.
Mas o fato é que o paradigma parece ter mudado, como o próprio
país, depois que começamos a ter eleições
diretas de verdade, em 1989, e de a inflação ter ultrapassado
80% mensais. Em todas as três eleições que tivemos
desde então ganharam candidatos com programas contrários
à fórmula de JK. Collor e mais notadamente FHC propunham
programas ortodoxos de combate à inflação, baseados
em corte de gastos, aumento de impostos, privatização, abertura,
desregulamentação, reformas de cunho liberal e antiestatizante
e com o apoio do FMI. Em comum com JK apenas a atitude amistosa diante
do investimento estrangeiro direto.
Poucos atinaram para a importância dessa mensagem enviada por sua
excelência, o eleitor: que não quer mais saber de inflação,
de governos "realizadores" mas despreocupados em pagar as contas que ficam.
Aliás, o povo disse de forma explícita que não gosta
muito de governo em geral, de impostos e de políticos em particular,
e votou muito claramente em quem propôs, mesmo sem o dizer, reduzir
o tamanho ou a importância dessas entidades. A fórmula mudou,
mas ninguém tem coragem de apresentar uma nova.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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