Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Cinema
Do lado de lá do muro

Eis um produto raro nas
telas: um filme palestino


Marcelo Marthe

Trailer do filme

Numa passagem de Intervenção Divina (Yadon Ilaheyya, 2002), que estréia em São Paulo nesta sexta-feira, um homem reclama com sua vizinha do fato de ela ter jogado lixo em sua casa. "Estou devolvendo o lixo que o senhor jogou em meu quintal", diz ela. "Isso não importa. Deve-se respeitar os vizinhos", retruca ele. Trata-se de uma cena da vida de pessoas comuns, mas também de uma metáfora política – como cada detalhe da produção de Elia Suleiman, o único cineasta palestino de projeção mundial. A matéria-prima do diretor é a relação belicosa entre seus compatriotas e os israelenses. O ponto de vista é o dos palestinos, claro, mas ele não poupa nenhum dos lados de seu sarcasmo. Seu objetivo é expor o cinismo e o absurdo que passam a reger o convívio humano num ambiente embrutecido. Suleiman faz isso com humor, mas não é um humor fácil. O filme tem narrativa fragmentada e quase nenhum diálogo. Sucedem-se esquetes com diferentes personagens. O principal deles é vivido pelo próprio cineasta, numa interpretação que presta homenagem aos filmes de Buster Keaton. Ele é um palestino que mora em Jerusalém e namora uma moça de Ramalah, na Cisjordânia. O local onde se encontram é insólito: o estacionamento de um posto militar. O filme tem seqüências dignas de videoclipe. Nessas horas, a música aumenta e há coreografias que mais parecem saídas de uma fita de ação do cineasta John Woo – como na cena fantasiosa em que uma "ninja" palestina duela com militares israelenses.

 
 
 
 
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