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Cinema
Do
lado de lá do muro
Eis
um produto raro nas
telas: um filme palestino

Marcelo
Marthe
Numa
passagem de Intervenção Divina (Yadon
Ilaheyya, 2002), que estréia em São Paulo nesta
sexta-feira, um homem reclama com sua vizinha do fato de ela ter
jogado lixo em sua casa. "Estou devolvendo o lixo que o senhor jogou
em meu quintal", diz ela. "Isso não importa. Deve-se respeitar
os vizinhos", retruca ele. Trata-se de uma cena da vida de pessoas
comuns, mas também de uma metáfora política
como cada detalhe da produção de Elia Suleiman,
o único cineasta palestino de projeção mundial.
A matéria-prima do diretor é a relação
belicosa entre seus compatriotas e os israelenses. O ponto de vista
é o dos palestinos, claro, mas ele não poupa nenhum
dos lados de seu sarcasmo. Seu objetivo é expor o cinismo
e o absurdo que passam a reger o convívio humano num ambiente
embrutecido. Suleiman faz isso com humor, mas não é
um humor fácil. O filme tem narrativa fragmentada e quase
nenhum diálogo. Sucedem-se esquetes com diferentes personagens.
O principal deles é vivido pelo próprio cineasta,
numa interpretação que presta homenagem aos filmes
de Buster Keaton. Ele é um palestino que mora em Jerusalém
e namora uma moça de Ramalah, na Cisjordânia. O local
onde se encontram é insólito: o estacionamento de
um posto militar. O filme tem seqüências dignas de videoclipe.
Nessas horas, a música aumenta e há coreografias que
mais parecem saídas de uma fita de ação do
cineasta John Woo como na cena fantasiosa em que uma "ninja"
palestina duela com militares israelenses.
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