Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Divertimento
O bilionário do circo

Como o canadense Guy Laliberté
acumulou 1 bilhão de dólares com
seu Cirque du Soleil


Camila Antunes


A Seib/Traje: Dominique Lemieux/Cirque du Soleil
A peça O: acrobacias na piscina ao custo de 92 milhões de dólares

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A carreira do canadense Guy Laliberté, fundador e presidente do Cirque du Soleil, é tão surpreendente quanto os shows que ele criou. Em 1984, aos 24 anos, ele andava de pernas de pau e engolia fogo nas esquinas de Montreal. Hoje, é dono de um patrimônio de 1,1 bilhão de dólares e entrou para a lista da revista americana Forbes que reúne as pessoas mais ricas do planeta. Ele é festejado como um dos maiores anfitriões do Canadá. Todos os anos, abre sua casa para famosos depois da corrida de Fórmula 1 em Montreal. Laliberté é solteiro e muito amigo de modelos. A indefectível Naomi Campbell é presença constante no cirquinho pessoal do empresário – e dizem que já foi algo mais dele. O empreendimento que enriqueceu Laliberté tem escritórios em três continentes e 2 700 funcionários de quarenta nacionalidades – entre os quais 28 brasileiros. Com nove espetáculos em cartaz pelo mundo, o Cirque du Soleil atrai atualmente 60 000 espectadores a cada fim de semana. O próximo investimento será no ramo hoteleiro. Até 2017, serão construídos seis resorts do Cirque du Soleil, com boates, bares e cassinos que terão decoração temática e artistas que trabalharão para entreter os visitantes (espere por garçons malabaristas nas boates e trapézios na sala de ginástica dos hotéis).

AP
Guy Laliberté: das apresentações na rua ao clube dos ricos da revista Forbes


Laliberté goza da fama de ter o toque de Midas. Desde sua fundação, o Cirque du Soleil estreou quinze grandes produções e nenhuma deu prejuízo. Em comparação, nove entre dez peças que estréiam na Broadway não têm o retorno esperado por seus investidores – e elas são destinadas ao mesmo público do Soleil: gente disposta a pagar entre 100 e 400 reais por um ingresso. Especialistas atribuem o sucesso do Cirque du Soleil à decisão de não multiplicar os shows nem licenciá-los, o que limita o risco da perda de qualidade e de dispersar a atenção do público. Das nove peças em cartaz no mundo, cinco são itinerantes e rodam pela Ásia, pela Europa e pela América. As demais são fixas, apresentadas em teatros em Las Vegas e em Orlando. O faturamento do Soleil, só com as apresentações de circo e a venda de DVDs e programas para emissoras de televisão, atinge 500 milhões de dólares. Para efeito de comparação, é a metade do lucro dos parques de diversão da Disney, a marca mais conhecida no ramo do entretenimento.


Walt Disney Company/Traje: Dominique
Lemieux/Cirque du Soleil
Artista do Cirque du Soleil: 2 700 funcionários de quarenta nacionalidades

Fanático por Fórmula 1, Laliberté diz que aprendeu suas táticas de negócios com o italiano Enzo Ferrari. O fundador da célebre marca de automóveis esportivos sempre mandava fazer menos carros do que o número potencial de compradores. Isso garantia a raridade e o valor do produto. Da mesma forma, as apresentações do Soleil têm temporada curta e deixam alguns espectadores de fora. Como artista, a principal escola de Laliberté foi a rua. Aos 14 anos, ele saiu de casa para viajar pela Europa, levando uma mochila e um violão. Foi nessa viagem que tomou as primeiras lições de equilíbrio nas pernas de pau. De volta a Montreal, mergulhou num projeto de reinvenção do circo, elaborado juntamente com outros doze artistas mambembes. O grupo promovia festas e participava de festivais na América do Norte. O Soleil apareceu para o mundo na abertura das Olimpíadas de Inverno de 1988, em Calgary, no Canadá. Viu-se então o resultado do esforço da trupe: uma arte que unia o melhor do malabarismo com os mais avançados elementos cênicos, num espetáculo tão surrealista que rendeu ao seu líder, Laliberté, o título de "Salvador Dalí" dos novos tempos. Talvez fosse mais preciso comparar o artista canadense ao empresário americano P.T. Barnum, uma personalidade exuberante que, na Nova York do século XIX, inventou o circo moderno, ao lado do sócio J.A. Bailey.

No Cirque du Soleil, Guy Laliberté acumula funções administrativas, faz questão de participar do desenvolvimento artístico de seus shows e não poupa esforço nem dinheiro para inovar. Seus espetáculos levam em média três anos para ser gestados e custam vários milhões de dólares. Sua regra de ouro é: "Para pensar num novo espetáculo, rejeite tudo o que foi feito. Volte ao zero, não tente partir do que já deu certo". Foi assim que surgiu o número aquático O (vogal cujo som, em francês, abrevia a palavra "eau", que significa água), que estreou em 1998 em Las Vegas. Com um custo de 92 milhões de dólares, trata-se da produção mais cara do Soleil. Ela conta com uma piscina monumental, onde os artistas se apresentam numa mistura de balé aquático com saltos ornamentais. As trocas de roupa são feitas debaixo d'água, com ajuda de mergulhadores munidos de tanques de oxigênio. A mais recente empreitada ousou no tema: Zumanity, que estreou no ano passado, é um espetáculo para maiores de 18 anos apresentado por uma drag queen e interpretado por artistas que, vestidos de maneira sensual, encenam uma dança erótica. Vive Laliberté!



 
 
 
 
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