Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Showbiz
Euros à vista

Artistas brasileiros começam a se organizar
para explorar Portugal – onde eles são
paparicados, prestigiados e recebem
em moeda forte


Ricardo Valladares


José Oliveira/TV Mais
Luiz Miguel Coelho
VERA FISCHER
grava comercial de cosméticos no bairro do Chiado, em Lisboa: oportunidades na publicidade
REYNALDO GIANECCHINI
(ao microfone), numa entrevista à TV: idolatrado pelas raparigas

Paparicos, prestígio e euros: por causa dessas três coisas, os artistas brasileiros resolveram colocar Portugal definitivamente em seu mapa profissional. Já faz tempo que se sabe que nossa antiga metrópole é receptiva aos talentos nacionais. Mas, até recentemente, as tentativas de atores e músicos para se aproveitar desse mercado haviam sido tímidas, além de exclusivamente atreladas aos projetos da Rede Globo em Portugal e às novelas da emissora que são exibidas por lá. Aos poucos isso está mudando. Em parceria com promotores de eventos e empresários independentes, os próprios artistas encontram novos meios de desbravar o território luso. As montagens teatrais, por exemplo, tornaram-se um ótimo negócio – como puderam comprovar atores como Antonio Fagundes, Miguel Falabella, Tony Ramos e Irene Ravache nos últimos meses. Também há boas oportunidades no campo publicitário. A beldade Vera Fischer já fez um comercial de produtos para o cabelo em Lisboa, e Reynaldo Gianecchini, idolatrado pelas raparigas de lá, abocanhou 50.000 euros (cerca de 180.000 reais) para associar sua imagem à de uma marca de artigos esportivos. "Portugal tem muito para nos oferecer", diz o galã. No campo da música, Adriana Calcanhotto e Os Tribalistas fazem sucesso nas rádios, enquanto o empresário Roberto Medina articula para maio a realização do megashow Rock in Rio Lisboa, que deverá contar com pelo menos dez artistas brasileiros.


Edmea Brigman/TV Mais
OSCAR MAGRINI
dá autógrafos em Cascais: mordomias e status de artista de primeiro time

Desde que a novela Gabriela foi exibida em Portugal, em 1977, a televisão de maneira geral e a Rede Globo em particular desempenham um papel essencial no acesso dos artistas brasileiros ao mercado português. No começo da década de 90, a Globo chegou a subscrever 15% do capital da emissora SIC (Sociedade Independente de Comunicação), que organizou uma programação fortemente calcada na teledramaturgia brasileira e assim, em poucos anos, se tornou líder de audiência naquele país. Hoje a concorrência é mais acirrada. A rede TVI, por exemplo, ganhou espaço com novelas e reality shows de produção local. Para um artista brasileiro, contudo, integrar o elenco ou a trilha sonora das novelas da Globo continua sendo a principal plataforma de lançamento para uma investida profissional em Portugal. Atualmente, há sete folhetins globais em cartaz nesse país. Chocolate com Pimenta, também exibido aqui no horário das 6, é o que faz mais sucesso. Seus capítulos chegam ao outro lado do Atlântico com pouco mais de um mês de atraso.


Abel Dias/Caras
MIGUEL FALABELLA,
num museu de Lisboa: "Eles nos tratam muito bem"

Por volta do ano 2000, a notoriedade que atores brasileiros, tanto jovens quanto da velha-guarda, haviam alcançado em Portugal fez com que a produtora de eventos Plano 6, de Lisboa, decidisse levar para lá peças de teatro que lotavam platéias em São Paulo e no Rio. A primeira experiência foi com Honra, estrelada por Regina Duarte. Deu certo, e desde então uma das sócias da Plano 6, Ana Rangel, vem ao Brasil duas vezes ao ano para maratonas teatrais que a fazem assistir a até doze montagens num curto espaço de tempo. Ela promove uma triagem dos espetáculos com melhor potencial e então negocia pacotes de apresentações. "Já sabemos que peças com temática regional e muito cheias de piadas políticas não funcionam. Os portugueses não entendem as piadas de vocês", diz Ana. Também é preciso fazer adaptações na linguagem. Vários diálogos da comédia Intimidade Indecente, de Irene Ravache, que estreou na terça-feira passada em Portugal, tiveram de ser mudados. A frase "eles só estão transando", por exemplo, transformou-se em "é só uma queca".

Um bom exemplo dos resultados que vêm sendo obtidos pelas peças brasileiras está em Sete Minutos, que Antonio Fagundes levou a Portugal em novembro. Em cinco semanas de apresentação (quatro semanas em Lisboa, mais três exibições no Porto), 20.000 pessoas assistiram ao espetáculo. Houve até confusão e polêmica. Numa apresentação no teatro Coliseu do Porto, para 1.700 pessoas, ele mandou que as portas fossem fechadas pontualmente às 21h30. Cerca de 200 espectadores que chegaram atrasados não puderam entrar, o que criou um empurra-empurra que só terminou com a presença da polícia. Programas de televisão e jornais discutiram o assunto e Antonio, como Fagundes é conhecido por lá, ganhou a discussão com os "atrasadinhos": nos espetáculos seguintes, tudo aconteceu no horário. Segundo Ana Rangel, o rendimento de Fagundes em sua turnê portuguesa foi semelhante ao que ele teria obtido num período de casa cheia num grande teatro paulistano. Mas essa não é a única recompensa.


Divulgação
João Lima/Caras
OS PORTUGUESES
João Catarré e Benedita Pereira, de Morangos com Açúcar: no caminho inverso
ADRIANA CALCANHOTTO
faz show em Portugal: músicos brasileiros emplacam sucessos nas rádios

"A questão não é só o dinheiro, é também a realização profissional. Eles nos tratam muito bem", diz Miguel Falabella, que foi para lá como diretor da peça Veneza e agora planeja uma temporada portuguesa com o espetáculo Batalha de Arroz num Ringue para Dois. Portugal pode ser, ainda, uma meca para celebridades brasileiras de segundo escalão. O ator Oscar Magrini, por exemplo, passou um ano no país e descobriu o verdadeiro sabor do sucesso. Acostumado a fazer papéis menores em novelas da Globo, Magrini participou de duas novelas por lá, e numa delas foi protagonista. "Eu tinha carro, casa e mordomias. Até pagavam o meu celular", diz o ator. Na Globo, onde atualmente grava a novela Cabocla, seu salário nunca foi maior que 20.000. Em Portugal, ele chegou a ganhar o equivalente a 12.000 dólares por mês.

Assessor de diversas celebridades nacionais importantes, o advogado Sérgio Dantino juntou-se a um colega português, João Paulo Abreu, para incrementar a ponte aérea artística entre os dois países. Os dois já negociaram contratos para Reynaldo Gianecchini, Regina Duarte e Luciana Gimenez, entre outros, e também ajudaram estrelas portuguesas como Nuno Lopes, Duarte Guimarães e Elisa Lisboa a fazer o caminho contrário. Um caminho, aliás, que também é dos mais atraentes. "Se levarmos em conta o tamanho dos dois países, os portugueses têm ainda mais a ganhar vindo para cá", diz Dantino. Há dois meses, a Rede Bandeirantes encaixou a novela portuguesa Olhos d'Água em sua programação vespertina. Agora, prepara-se para lançar Morangos com Açúcar, espécie de Malhação lusitana que comprou da TVI. A novela adolescente entra no ar na semana que vem. Sua tarefa é roubar espectadores de Celebridade.

 
 
 
 
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