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Turismo
O
maior de todos os tempos
O
Queen Mary 2 é uma luxuosa
cidade flutuante que custou
o preço de quatro Boeing 747

João
Gabriel de Lima, de Barbados
AFP
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Divulgação
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transatlântico em Fort Lauderdale, nos Estados Unidos,
e seu capitão, o inglês Ronald Warwick: todo computadorizado,
o navio pode ser controlado por um único joystick, como
se fosse um videogame |
O
transatlântico Queen Mary 2 é o maior, mais
pesado e mais caro navio de passageiros já construído.
Da proa à popa, mede 345 metros teoricamente, seria
possível deitar a Torre Eiffel em seu convés. Seu
peso, 150.000 toneladas, equivale ao de três navios iguais
ao malfadado Titanic. Para construí-lo, a companhia
britânica Cunard investiu 800 milhões de dólares,
valor que daria para adquirir quatro Boeing 747-400. Esses números
superlativos se aplicam a um navio destinado a reviver uma época
que já passou. O auge dos grandes transatlânticos foi
a primeira metade do século XX, quando eles eram o meio de
transporte mais seguro para atravessar o oceano. Era um tempo em
que só reis, rainhas, astros e estrelas do cinema, milionários
e suas famílias viajavam com luxo na primeira classe. Navios
como o Queen Mary 2 democratizaram o acesso ao luxo flutuante.
Os corredores do novo transatlântico são decorados
com fotos de gente famosa a bordo de grandes navios do passado
Walt Disney, Charles Chaplin, Marlene Dietrich e Reza Pahlevi, o
último xá do Irã. As celebridades não
se entregam mais a esse tipo de divertimento. Os cruzeiros turísticos
tornaram-se lazer típico da classe média. "Quando,
em 1998, fiquei sabendo do projeto da Cunard, tive uma grande surpresa,
porque achei que nunca mais se construiriam embarcações
dessa envergadura", diz o inglês Ronald Warwick, comandante
do Queen Mary 2.
O
objetivo do navio é atender um público crescente e
nostálgico do luxo de outrora. "Entre 2002 e 2003, o número
de passageiros em cruzeiros aumentou 10,2%", informa o agente turístico
Ilya Hirsch, representante da Cunard no Brasil. O grosso desse contingente
é formado por americanos de classe média e faixa etária
elevada. Para eles, o Queen Mary 2 revive o frisson dos transatlânticos
do passado. A comparação com o Titanic é
quase automática. Estranhamente, os passageiros a bordo do
Queen Mary 2 falam apenas da exuberância do Titanic,
esquecendo seu trágico destino na viagem inaugural, que terminou
em naufrágio e morte de 1.500 pessoas.
"É
o Titanic de nossa época. Eu não poderia perder
a chance de viajar no Queen Mary 2", diz o aposentado Jack
Omeara, morador da Flórida e passageiro de um cruzeiro que
aportou no Rio de Janeiro durante o Carnaval. O navio tem cassino
a bordo, baile de máscaras e o maior consumo de lagostas
da história da navegação 28 toneladas
por ano. Em noites especiais, os casais são orientados a
sair da cabine usando trajes de gala. O desfile de chapéus
com plumagem lembra um filme de Federico Fellini. Devidamente paramentados,
os passageiros fazem fila em frente ao fotógrafo de bordo.
A pose mais desejada é aquela em que se aplica ao fundo,
com a ajuda de computador, um pedaço do cenário do
filme Titanic. A foto custa 27 dólares. Celebridades?
Só clones. Na noite de entrega do Oscar, os passageiros puderam
confraternizar com sósias de Marlon Brando, Jim Carrey, Bruce
Willis e Drew Barrymore. O Queen Mary 2 é a prova
de que a história também pode se repetir como parque
temático. A maior parte das cabines custa entre 2.000 e 5.000
dólares, valores altos para a classe média brasileira,
mas perfeitamente acessíveis a sua equivalente americana.
Por esse preço, o passageiro pode brincar de milionário
dos anos 30 nas duas semanas de duração de um cruzeiro.
Não
importa que um aposentado da Flórida entenda menos de jóias,
vinhos ou arte que uma celebridade dos anos 30 ou 40. O Queen
Mary 2 é uma escola de consumo de alto luxo. Os passageiros
podem freqüentar cursos de vinho ministrados pelo sommelier
alemão Olaf Paulat. Especialistas dão dicas sobre
como comprar jóias e representantes de diversas joalherias
sensibilizam os passageiros a visitar suas lojas nos portos de destino.
Há também palestras sobre artes com especialistas
de universidades inglesas. Graças a elas, o passageiro adquire
noções básicas antes de comparecer aos animados
leilões que ocorrem diariamente no salão de chá
do navio. "Chegamos a movimentar cerca de meio milhão de
dólares numa viagem dessas, e alguns compradores por
exemplo, os que moram nos Estados Unidos têm isenção
fiscal para arte adquirida a bordo", informa o inglês Richard
Furlong, leiloeiro oficial do Queen Mary 2. Para os passageiros
mais intelectualizados, os alunos da Royal Academy of Dramatic Art
de Londres encenam um espetáculo com os melhores momentos
de Shakespeare. O maior sucesso é a cena do balcão
da tragédia Romeu e Julieta. "Montamos essa peça
para quem quer ter um primeiro contato com Shakespeare. Na Inglaterra,
apresentamos o mesmo espetáculo em escolas", diz Tom Foster,
diretor do grupo que atua no Queen Mary 2.
Além de sommelier, leiloeiro e atores shakespearianos, músicos,
bailarinos e um tenor tornam a vida a bordo mais divertida. Cerca
de 120 artistas ocupam as cabines do Queen Mary 2 a cada
viagem. Atuar em transatlânticos constitui um bom mercado
para esses profissionais. "Ganhamos melhor aqui do que tocando em
orquestras no Leste Europeu, e ainda nos divertimos conhecendo lugares
diferentes", comenta a ucraniana Anna Samoylova, violinista que
atua no Viva Classica Trio, responsável pelos concertos de
câmara a bordo. A companhia britânica Belinda King encena
no Royal Court Theater montagens musicais no estilo Broadway. Localizado
na proa do navio, o Royal Court é inspirado nas casas de
espetáculos do West End londrino, e não fica a dever
a elas em tamanho tem impressionantes 1.100 lugares. "Nos
dias de mar agitado, às vezes é difícil manter
o equilíbrio no palco, mas com o tempo a gente se acostuma",
conta o bailarino paulista André Reis, o único brasileiro
entre os artistas de bordo. "Gastamos 2,5 milhões de dólares
por ano para manter a programação de espetáculos",
informa o inglês Paul Becque, diretor artístico do
cruzeiro. Existe até um tenor de bordo, o italiano Renato
Pagliari, um especialista em animar navios. A um tenor de bordo
não cabe apenas dar recitais. Faz parte de suas atribuições,
por exemplo, irromper no restaurante Britannia, o maior do navio,
disfarçado de cozinheiro, enquanto posa para fotos e entoa
cançonetas napolitanas. Além dos artistas, o navio,
que tem capacidade para 2 620 passageiros, é tocado por 1
250 tripulantes, entre camareiros, marinheiros, garçons,
cozinheiros etc.
No
primeiro e no último andar localizam-se, respectivamente,
o coração e o cérebro do Queen Mary 2.
No ponto mais alto do navio fica a cabine de comando, onde reina
o capitão Ronald Warwick. "A tecnologia simplificou o controle
de transatlânticos", diz ele, que tem no currículo
o comando de outros navios famosos, como o Queen Elizabeth 2.
Em sua sala cheia de cartas marítimas computadorizadas e
instrumentos capazes de mostrar as condições atmosféricas
e de maré com altíssima precisão, não
existe um timão. No lugar dele, vê-se um volante pequeno
como o de um carro de Fórmula 1. Warwick gosta também
de mostrar como todos os controles podem ser substituídos
por uma espécie de bastão ligado ao computador central.
Se o comandante quiser, pode dirigir o navio dali, como uma criança
brincando com o joystick de seu videogame. No 1º andar, logo
acima do porão, fica a sala das máquinas, onde reina
o engenheiro-chefe, o escocês Ronnie Keir. Sua sala lembra
a nave espacial Enterprise, com nove monitores de computador
nos quais é possível checar desde as condições
dos motores Rolls-Royce que impulsionam o navio até a temperatura
do ar condicionado nas cabines. É possível dizer que
o Queen Mary 2 é "unsinkable" ("inafundável",
neologismo criado com arrogância para ressaltar o que se acreditava
ser a característica básica do Titanic)? "Atrás
de cada aparelho desses existe um ser humano. Nós somos falíveis",
diz o cauteloso Keir. Com o uso da tecnologia atual é virtualmente
impossível que o Queen Mary 2 se choque com um iceberg
como o Titanic na fria madrugada de 15 de abril de 1912.
Mesmo que houvesse um choque, dificilmente iria a pique. De seu
antecessor famoso na linhagem dos grandes navios de passageiros,
o Queen Mary 2 só quer mesmo o glamour que sobreviveu
à tragédia.
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Isto
é o Queen Mary 2
O navio tem 345 metros de comprimento. Colocado de pé,
seria maior que a Torre Eiffel, que mede 300 metros
Pesa 150 000 toneladas. O Titanic pesava 46 000
São 17 deques, totalizando 61 metros de altura
o equivalente a um prédio de vinte andares
Existem 10 restaurantes a bordo, que servem 1,5 milhão
de drinques por ano e 28 toneladas de lagosta
O transatlântico tem cassino, teatro com 1 100
lugares e até um planetário o único
do gênero em alto-mar
São 1 310 cabines. Ao todo, o navio tem 2 000
banheiros
A capacidade total é de 2 620 passageiros, e
os tripulantes chegam a 1 250
O Queen Mary 2 tem 30 000 pontos de luz e consome
energia suficiente para alimentar metade da cidade de
Southampton, onde se localizam seus estaleiros
O custo de construção chegou a 800 milhões
de dólares, o preço de quatro Boeing 747-400
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