Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Turismo
O maior de todos os tempos

O Queen Mary 2 é uma luxuosa
cidade flutuante que custou
o preço de quatro Boeing 747


João Gabriel de Lima, de Barbados

 
AFP
Divulgação
O transatlântico em Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, e seu capitão, o inglês Ronald Warwick: todo computadorizado, o navio pode ser controlado por um único joystick, como se fosse um videogame

O transatlântico Queen Mary 2 é o maior, mais pesado e mais caro navio de passageiros já construído. Da proa à popa, mede 345 metros – teoricamente, seria possível deitar a Torre Eiffel em seu convés. Seu peso, 150.000 toneladas, equivale ao de três navios iguais ao malfadado Titanic. Para construí-lo, a companhia britânica Cunard investiu 800 milhões de dólares, valor que daria para adquirir quatro Boeing 747-400. Esses números superlativos se aplicam a um navio destinado a reviver uma época que já passou. O auge dos grandes transatlânticos foi a primeira metade do século XX, quando eles eram o meio de transporte mais seguro para atravessar o oceano. Era um tempo em que só reis, rainhas, astros e estrelas do cinema, milionários e suas famílias viajavam com luxo na primeira classe. Navios como o Queen Mary 2 democratizaram o acesso ao luxo flutuante. Os corredores do novo transatlântico são decorados com fotos de gente famosa a bordo de grandes navios do passado – Walt Disney, Charles Chaplin, Marlene Dietrich e Reza Pahlevi, o último xá do Irã. As celebridades não se entregam mais a esse tipo de divertimento. Os cruzeiros turísticos tornaram-se lazer típico da classe média. "Quando, em 1998, fiquei sabendo do projeto da Cunard, tive uma grande surpresa, porque achei que nunca mais se construiriam embarcações dessa envergadura", diz o inglês Ronald Warwick, comandante do Queen Mary 2.

O objetivo do navio é atender um público crescente e nostálgico do luxo de outrora. "Entre 2002 e 2003, o número de passageiros em cruzeiros aumentou 10,2%", informa o agente turístico Ilya Hirsch, representante da Cunard no Brasil. O grosso desse contingente é formado por americanos de classe média e faixa etária elevada. Para eles, o Queen Mary 2 revive o frisson dos transatlânticos do passado. A comparação com o Titanic é quase automática. Estranhamente, os passageiros a bordo do Queen Mary 2 falam apenas da exuberância do Titanic, esquecendo seu trágico destino na viagem inaugural, que terminou em naufrágio e morte de 1.500 pessoas.

"É o Titanic de nossa época. Eu não poderia perder a chance de viajar no Queen Mary 2", diz o aposentado Jack Omeara, morador da Flórida e passageiro de um cruzeiro que aportou no Rio de Janeiro durante o Carnaval. O navio tem cassino a bordo, baile de máscaras e o maior consumo de lagostas da história da navegação – 28 toneladas por ano. Em noites especiais, os casais são orientados a sair da cabine usando trajes de gala. O desfile de chapéus com plumagem lembra um filme de Federico Fellini. Devidamente paramentados, os passageiros fazem fila em frente ao fotógrafo de bordo. A pose mais desejada é aquela em que se aplica ao fundo, com a ajuda de computador, um pedaço do cenário do filme Titanic. A foto custa 27 dólares. Celebridades? Só clones. Na noite de entrega do Oscar, os passageiros puderam confraternizar com sósias de Marlon Brando, Jim Carrey, Bruce Willis e Drew Barrymore. O Queen Mary 2 é a prova de que a história também pode se repetir como parque temático. A maior parte das cabines custa entre 2.000 e 5.000 dólares, valores altos para a classe média brasileira, mas perfeitamente acessíveis a sua equivalente americana. Por esse preço, o passageiro pode brincar de milionário dos anos 30 nas duas semanas de duração de um cruzeiro.

Não importa que um aposentado da Flórida entenda menos de jóias, vinhos ou arte que uma celebridade dos anos 30 ou 40. O Queen Mary 2 é uma escola de consumo de alto luxo. Os passageiros podem freqüentar cursos de vinho ministrados pelo sommelier alemão Olaf Paulat. Especialistas dão dicas sobre como comprar jóias – e representantes de diversas joalherias sensibilizam os passageiros a visitar suas lojas nos portos de destino. Há também palestras sobre artes com especialistas de universidades inglesas. Graças a elas, o passageiro adquire noções básicas antes de comparecer aos animados leilões que ocorrem diariamente no salão de chá do navio. "Chegamos a movimentar cerca de meio milhão de dólares numa viagem dessas, e alguns compradores – por exemplo, os que moram nos Estados Unidos – têm isenção fiscal para arte adquirida a bordo", informa o inglês Richard Furlong, leiloeiro oficial do Queen Mary 2. Para os passageiros mais intelectualizados, os alunos da Royal Academy of Dramatic Art de Londres encenam um espetáculo com os melhores momentos de Shakespeare. O maior sucesso é a cena do balcão da tragédia Romeu e Julieta. "Montamos essa peça para quem quer ter um primeiro contato com Shakespeare. Na Inglaterra, apresentamos o mesmo espetáculo em escolas", diz Tom Foster, diretor do grupo que atua no Queen Mary 2.

Além de sommelier, leiloeiro e atores shakespearianos, músicos, bailarinos e um tenor tornam a vida a bordo mais divertida. Cerca de 120 artistas ocupam as cabines do Queen Mary 2 a cada viagem. Atuar em transatlânticos constitui um bom mercado para esses profissionais. "Ganhamos melhor aqui do que tocando em orquestras no Leste Europeu, e ainda nos divertimos conhecendo lugares diferentes", comenta a ucraniana Anna Samoylova, violinista que atua no Viva Classica Trio, responsável pelos concertos de câmara a bordo. A companhia britânica Belinda King encena no Royal Court Theater montagens musicais no estilo Broadway. Localizado na proa do navio, o Royal Court é inspirado nas casas de espetáculos do West End londrino, e não fica a dever a elas em tamanho – tem impressionantes 1.100 lugares. "Nos dias de mar agitado, às vezes é difícil manter o equilíbrio no palco, mas com o tempo a gente se acostuma", conta o bailarino paulista André Reis, o único brasileiro entre os artistas de bordo. "Gastamos 2,5 milhões de dólares por ano para manter a programação de espetáculos", informa o inglês Paul Becque, diretor artístico do cruzeiro. Existe até um tenor de bordo, o italiano Renato Pagliari, um especialista em animar navios. A um tenor de bordo não cabe apenas dar recitais. Faz parte de suas atribuições, por exemplo, irromper no restaurante Britannia, o maior do navio, disfarçado de cozinheiro, enquanto posa para fotos e entoa cançonetas napolitanas. Além dos artistas, o navio, que tem capacidade para 2 620 passageiros, é tocado por 1 250 tripulantes, entre camareiros, marinheiros, garçons, cozinheiros etc.

No primeiro e no último andar localizam-se, respectivamente, o coração e o cérebro do Queen Mary 2. No ponto mais alto do navio fica a cabine de comando, onde reina o capitão Ronald Warwick. "A tecnologia simplificou o controle de transatlânticos", diz ele, que tem no currículo o comando de outros navios famosos, como o Queen Elizabeth 2. Em sua sala cheia de cartas marítimas computadorizadas e instrumentos capazes de mostrar as condições atmosféricas e de maré com altíssima precisão, não existe um timão. No lugar dele, vê-se um volante pequeno como o de um carro de Fórmula 1. Warwick gosta também de mostrar como todos os controles podem ser substituídos por uma espécie de bastão ligado ao computador central. Se o comandante quiser, pode dirigir o navio dali, como uma criança brincando com o joystick de seu videogame. No 1º andar, logo acima do porão, fica a sala das máquinas, onde reina o engenheiro-chefe, o escocês Ronnie Keir. Sua sala lembra a nave espacial Enterprise, com nove monitores de computador nos quais é possível checar desde as condições dos motores Rolls-Royce que impulsionam o navio até a temperatura do ar condicionado nas cabines. É possível dizer que o Queen Mary 2 é "unsinkable" ("inafundável", neologismo criado com arrogância para ressaltar o que se acreditava ser a característica básica do Titanic)? "Atrás de cada aparelho desses existe um ser humano. Nós somos falíveis", diz o cauteloso Keir. Com o uso da tecnologia atual é virtualmente impossível que o Queen Mary 2 se choque com um iceberg como o Titanic na fria madrugada de 15 de abril de 1912. Mesmo que houvesse um choque, dificilmente iria a pique. De seu antecessor famoso na linhagem dos grandes navios de passageiros, o Queen Mary 2 só quer mesmo o glamour que sobreviveu à tragédia.

 

Isto é o Queen Mary 2

• O navio tem 345 metros de comprimento. Colocado de pé, seria maior que a Torre Eiffel, que mede 300 metros

• Pesa 150 000 toneladas. O Titanic pesava 46 000  

• São 17 deques, totalizando 61 metros de altura – o equivalente a um prédio de vinte andares

• Existem 10 restaurantes a bordo, que servem 1,5 milhão de drinques por ano e 28 toneladas de lagosta

• O transatlântico tem cassino, teatro com 1 100 lugares e até um planetário – o único do gênero em alto-mar  

• São 1 310 cabines. Ao todo, o navio tem 2 000 banheiros

• A capacidade total é de 2 620 passageiros, e os tripulantes chegam a 1 250  

• O Queen Mary 2 tem 30 000 pontos de luz e consome energia suficiente para alimentar metade da cidade de Southampton, onde se localizam seus estaleiros  

• O custo de construção chegou a 800 milhões de dólares, o preço de quatro Boeing 747-400

 

 

 

Fotos divulgação
1. QUEENS ROOM – É o salão de baile do navio. De dia, abriga aulas de teatro e de danças de salão. De noite, festas de gala e baile de máscaras
2. RESTAURANTE BRITANNIA –
O Queen Mary 2 tem dez restaurantes, o maior deles, o Britannia, com 1 351 lugares. Em duas sessões de jantar, é possível alimentar todos os passageiros do navio
3. CASSINO DE BORDO – Tem desde jogos tradicionais, como roleta e bacará, até máquinas caça-níqueis. Nas sessões noturnas, seus freqüentadores costumam usar smoking
4. SPA DE BORDO Monitores orientam os exercícios na concorrida academia de ginástica, que também oferece massagens
5. PLANETÁRIO ILLUMINATIONS É o único planetário em alto-mar. O auditório serve também como sala de concertos e abriga palestras sobre jóias, teatro e literatura
 
 
 
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