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Juros
O
Brasil ainda espanta
Juro
alto não é o maior obstáculo
ao crescimento. Outros fantasmas
assustam os investidores

Leandra Peres
Ana Araujo
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| Assim
é uma reunião do Copom: na semana passada, placar apertado
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De
vez em quando, adotando aquele comportamento de manada tão
próprio do mercado, a sociedade cria um certo consenso em
torno do que parece ser o grande dilema nacional e, nos últimos
tempos, esse dilema tem sido a taxa de juros. Na história
recente do país, os juros já foram mais altos do que
são hoje e também já foram um pouco mais baixos,
mas nunca se deu tanta atenção, nunca se criou tamanha
expectativa a cada vez que os nove membros do Conselho de Política
Monetária (Copom) se reúnem para decidir a nova taxa.
É como se, dessa reunião, pudesse sair o caminho da
salvação nacional. Na semana passada, o Copom reuniu-se
e fez uma redução de 0,25 ponto porcentual na taxa
coisa simbólica, é claro. Caiu de 16,5% para
16,25% e serve apenas para mostrar que, aparentemente, o Banco Central
vai retomar a trajetória de queda da taxa interrompida em
janeiro passado. Apesar do mero simbolismo da redução,
a decisão foi aprovada por 6 votos a 3, o placar mais apertado
desde o início do governo Lula.
A
divergência entre os membros do Copom não colocou em
xeque a independência da diretoria do Banco Central, comandada
pelo presidente Henrique Meirelles, que nesta semana deve fazer
uma visita ao Congresso. Os 6 votos a favor contam com fortes alicerces
de sustentação. A taxa de inflação de
fevereiro ficou abaixo das expectativas do mercado. O aumento do
preço de algumas matérias-primas não está
chegando com força às prateleiras dos supermercados.
Com isso, as projeções de inflação deste
ano estão convergindo para a meta de 5,5% fixada pelo Banco
Central. Alcançado o objetivo de domar as expectativas do
mercado, sempre ávido pelo aumento dos preços, a queda
da Selic foi bem recebida. Quanto aos 3 votos contrários
à redução, foram um sinal de que alguns membros
do Copom continuam com a intenção de tirar o pé
do freio mais lentamente.
Mudanças
na Selic costumam demorar cerca de seis meses para ter efeito na
economia real. No caso da redução da semana passada,
o consumidor sentirá muito pouca diferença no bolso
quando ele chegar. Os juros do cartão de crédito,
por exemplo, caíram de 216,59% para 215,90% anuais. Ou seja,
quase nada. Quem ficar devendo 1.000
reais por um mês no cartão de crédito terá
a conta dos juros reduzida em meros 20 centavos. Os juros reais
no Brasil, a diferença entre a inflação estimada
para os próximos doze meses e a previsão dos juros,
ainda são os mais altos do mundo. Com o crédito caro,
caem os incentivos para o investimento e o consumo. Mas, ao contrário
do que dizem alguns membros da própria base do governo, os
diretores do Banco Central não são os grandes vilões
da apática atividade econômica registrada nos últimos
anos. "Os juros podem ser eficazes para estimular a economia no
curto prazo, mas não garantem crescimento de longo prazo",
diz Marcelo Salomon, economista-chefe do Unibanco. Assim como ocorre
na maioria das democracias avançadas do mundo, a missão
do Copom é manter o dragão da inflação
longe dos lares brasileiros.
As
vulnerabilidades do Brasil são uma dívida externa
de 220 bilhões de dólares, três vezes o valor
das exportações, e uma dívida interna que equivale
a cerca de 60% do PIB. A qualquer crise, volta a pergunta: em quanto
será necessário aumentar os juros para manter os investidores
com títulos brasileiros? Em 2002, o ano da eleição
presidencial, o Brasil registrou uma taxa de juros real de 5,9%.
Será que isso foi suficiente para os empresários investirem
em novas fábricas e ampliações e para os consumidores
abrirem a carteira? Não. As incertezas causadas pelo quadro
eleitoral deixaram todos imobilizados. Nas operações
de captação de dinheiro, os bancos pagaram uma taxa
que elevou os juros reais para 14% ao ano.
Neste
mês, o mercado está pagando 9,2%, o que coloca o juro
no menor patamar desde 1999. Com a redução simbólica
da Selic, a intenção do Copom é embalar o tímido
otimismo presente nas previsões de crescimento da economia
para este ano. Mesmo com a crise desencadeada pelo ex-assessor da
Casa Civil Waldomiro Diniz e os ataques frontais ao ministro da
Fazenda, Antonio Palocci, o mercado mantém a estimativa em
torno de 3,5%. As vendas do comércio varejista aumentaram
6,09% em janeiro, a maior alta medida pela Pesquisa Mensal de Comércio
do IBGE nos últimos três anos. Mesmo sendo resultado
de uma base de comparação baixa, o porcentual é
animador. "Não podemos sair da rota", insistiu Palocci durante
visita a Londres na semana passada.
Nem
tudo se resume a juros. Para exibir crescimento de longo prazo,
o país precisa ainda vencer alguns fantasmas. Um dos mais
urgentes é retomar a atração de investimentos,
que modernizam a economia e permitem ganhos de eficiência
e produtividade. "O Brasil não cresce mais porque não
há investimento, e isso não depende da taxa de juros
definida pelo Banco Central, mas dos juros de longo prazo que são
influenciados por questões estruturais", explica o ex-secretário
de Política Econômica José Guilherme Reis. Entre
1964 e 1980, o investimento cresceu a médias anuais de 4,5%.
Essa média caiu para 1,3% entre 1981 e 1993 e não
passou de 1,1% nos últimos dez anos. Para resolver o nó
do investimento é preciso tomar muitas outras medidas. Em
vez de aumentar impostos, o governo deve gastar de forma mais eficiente.
Cortar despesas é fundamental para não sufocar a atividade
econômica.
Regras
claras para os investidores, o chamado marco regulatório,
também têm poder de reerguer a economia. Em 2001, o
apagão mostrou como a falta de infra-estrutura pode comprometer
o crescimento. O PIB naquele ano cresceu 4% no primeiro trimestre
do ano, mas fechou 2001 em menos de 2% por causa do apagão.
Uma mão-de-obra educada, incentivo à pesquisa e desenvolvimento
tecnológico também contribuem para que o crescimento
econômico dure vários anos. O exemplo de países
como Coréia do Sul e Índia mostra isso. "É
mais fácil atacar os juros que discutir essas mudanças
estruturais", explica o economista-chefe do JP Morgan, Fábio
Akira.
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