Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Juros
O Brasil ainda espanta

Juro alto não é o maior obstáculo
ao crescimento. Outros fantasmas
assustam os investidores


Leandra Peres


Ana Araujo
Assim é uma reunião do Copom: na semana passada, placar apertado


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De vez em quando, adotando aquele comportamento de manada tão próprio do mercado, a sociedade cria um certo consenso em torno do que parece ser o grande dilema nacional – e, nos últimos tempos, esse dilema tem sido a taxa de juros. Na história recente do país, os juros já foram mais altos do que são hoje e também já foram um pouco mais baixos, mas nunca se deu tanta atenção, nunca se criou tamanha expectativa a cada vez que os nove membros do Conselho de Política Monetária (Copom) se reúnem para decidir a nova taxa. É como se, dessa reunião, pudesse sair o caminho da salvação nacional. Na semana passada, o Copom reuniu-se e fez uma redução de 0,25 ponto porcentual na taxa – coisa simbólica, é claro. Caiu de 16,5% para 16,25% e serve apenas para mostrar que, aparentemente, o Banco Central vai retomar a trajetória de queda da taxa interrompida em janeiro passado. Apesar do mero simbolismo da redução, a decisão foi aprovada por 6 votos a 3, o placar mais apertado desde o início do governo Lula.

A divergência entre os membros do Copom não colocou em xeque a independência da diretoria do Banco Central, comandada pelo presidente Henrique Meirelles, que nesta semana deve fazer uma visita ao Congresso. Os 6 votos a favor contam com fortes alicerces de sustentação. A taxa de inflação de fevereiro ficou abaixo das expectativas do mercado. O aumento do preço de algumas matérias-primas não está chegando com força às prateleiras dos supermercados. Com isso, as projeções de inflação deste ano estão convergindo para a meta de 5,5% fixada pelo Banco Central. Alcançado o objetivo de domar as expectativas do mercado, sempre ávido pelo aumento dos preços, a queda da Selic foi bem recebida. Quanto aos 3 votos contrários à redução, foram um sinal de que alguns membros do Copom continuam com a intenção de tirar o pé do freio mais lentamente.

Mudanças na Selic costumam demorar cerca de seis meses para ter efeito na economia real. No caso da redução da semana passada, o consumidor sentirá muito pouca diferença no bolso quando ele chegar. Os juros do cartão de crédito, por exemplo, caíram de 216,59% para 215,90% anuais. Ou seja, quase nada. Quem ficar devendo 1.000 reais por um mês no cartão de crédito terá a conta dos juros reduzida em meros 20 centavos. Os juros reais no Brasil, a diferença entre a inflação estimada para os próximos doze meses e a previsão dos juros, ainda são os mais altos do mundo. Com o crédito caro, caem os incentivos para o investimento e o consumo. Mas, ao contrário do que dizem alguns membros da própria base do governo, os diretores do Banco Central não são os grandes vilões da apática atividade econômica registrada nos últimos anos. "Os juros podem ser eficazes para estimular a economia no curto prazo, mas não garantem crescimento de longo prazo", diz Marcelo Salomon, economista-chefe do Unibanco. Assim como ocorre na maioria das democracias avançadas do mundo, a missão do Copom é manter o dragão da inflação longe dos lares brasileiros.

As vulnerabilidades do Brasil são uma dívida externa de 220 bilhões de dólares, três vezes o valor das exportações, e uma dívida interna que equivale a cerca de 60% do PIB. A qualquer crise, volta a pergunta: em quanto será necessário aumentar os juros para manter os investidores com títulos brasileiros? Em 2002, o ano da eleição presidencial, o Brasil registrou uma taxa de juros real de 5,9%. Será que isso foi suficiente para os empresários investirem em novas fábricas e ampliações e para os consumidores abrirem a carteira? Não. As incertezas causadas pelo quadro eleitoral deixaram todos imobilizados. Nas operações de captação de dinheiro, os bancos pagaram uma taxa que elevou os juros reais para 14% ao ano.

Neste mês, o mercado está pagando 9,2%, o que coloca o juro no menor patamar desde 1999. Com a redução simbólica da Selic, a intenção do Copom é embalar o tímido otimismo presente nas previsões de crescimento da economia para este ano. Mesmo com a crise desencadeada pelo ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz e os ataques frontais ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o mercado mantém a estimativa em torno de 3,5%. As vendas do comércio varejista aumentaram 6,09% em janeiro, a maior alta medida pela Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE nos últimos três anos. Mesmo sendo resultado de uma base de comparação baixa, o porcentual é animador. "Não podemos sair da rota", insistiu Palocci durante visita a Londres na semana passada.

Nem tudo se resume a juros. Para exibir crescimento de longo prazo, o país precisa ainda vencer alguns fantasmas. Um dos mais urgentes é retomar a atração de investimentos, que modernizam a economia e permitem ganhos de eficiência e produtividade. "O Brasil não cresce mais porque não há investimento, e isso não depende da taxa de juros definida pelo Banco Central, mas dos juros de longo prazo que são influenciados por questões estruturais", explica o ex-secretário de Política Econômica José Guilherme Reis. Entre 1964 e 1980, o investimento cresceu a médias anuais de 4,5%. Essa média caiu para 1,3% entre 1981 e 1993 e não passou de 1,1% nos últimos dez anos. Para resolver o nó do investimento é preciso tomar muitas outras medidas. Em vez de aumentar impostos, o governo deve gastar de forma mais eficiente. Cortar despesas é fundamental para não sufocar a atividade econômica.

Regras claras para os investidores, o chamado marco regulatório, também têm poder de reerguer a economia. Em 2001, o apagão mostrou como a falta de infra-estrutura pode comprometer o crescimento. O PIB naquele ano cresceu 4% no primeiro trimestre do ano, mas fechou 2001 em menos de 2% por causa do apagão. Uma mão-de-obra educada, incentivo à pesquisa e desenvolvimento tecnológico também contribuem para que o crescimento econômico dure vários anos. O exemplo de países como Coréia do Sul e Índia mostra isso. "É mais fácil atacar os juros que discutir essas mudanças estruturais", explica o economista-chefe do JP Morgan, Fábio Akira.


 
 
 
 
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