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Terrorismo
Não
me engana
que eu não gosto
Ao
eleger os socialistas, os espanhóis
não premiaram o terror. Só puniram
aqueles
que queriam ludibriar a massa

André Petry
AFP
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O
POVO NA RUA
Sobretudo, o eleitor espanhol não perdoou a tentativa
de Aznar de manipular as informações sobre os
autores do atentado |
É
comum nos países desenvolvidos o entendimento de que nas
regiões pobres do mundo, seja lá nos confins da África,
seja cá nos bolsões de miséria da América
Latina, o povão não sabe votar ou porque sua
ignorância não lhe permite, ou porque negocia seu voto
no balcão das necessidades. Nas nações ricas
e alfabetizadas, isso não acontece. Na semana passada, tudo
mudou. Surgiu uma onda segundo a qual o eleitorado da Espanha, apesar
de sua alta renda per capita, sua baixíssima taxa de analfabetismo,
não sabe votar. Tudo porque, três dias depois do horrendo
atentado em Madri, o eleitor, em vez de manter no poder os conservadores
de José María Aznar, conforme previam as pesquisas
eleitorais, entregou o governo ao socialista José Luis Rodríguez
Zapatero. Os espanhóis diz a onda acovardaram-se
diante da selvageria terrorista e renderam-se à chantagem
das bombas.
É
a primeira vez que se culpa um eleitorado bem informado por ter
escolhido nas urnas um candidato legalmente inscrito num pleito
legítimo. Ao eleger os socialistas diz a onda ,
os espanhóis ofereceram uma recompensa aos terroristas, que
de agora em diante se sentirão fortalecidos e poderão
explodir mais bombas em outros países às vésperas
de eleições que queiram influenciar. Na esteira desse
raciocínio, os socialistas espanhóis viraram filhotes
do terror islâmico. Num delirante artigo publicado no jornal
The New York Times, Edward Luttwak, do Center for Strategic
and International Studies, chegou ao ponto de dizer que a única
forma de redimir a democracia espanhola era o socialista Zapatero
renunciar ao mandato para mostrar que os terroristas islâmicos
não mandam na política espanhola. Engraçado.
Se o atentado em Madri tivesse sido obra do ETA, a vitória
dos conservadores seria filha do terrorismo basco?
A
onda sobre a estupidez eleitoral dos espanhóis é curiosa
exatamente porque eles votaram bem. Em apenas três dias, mergulhados
no luto, abalados pelo horror, ainda assim perceberam a manipulação
que o governo de Aznar tentou fazer do atentado. Mesmo quando já
havia indícios de que as bombas foram obra de braços
islâmicos do terror, o governo seguia insistindo na acusação
ao ETA. Jornais espanhóis divulgaram mais tarde que José
María Aznar chegou a telefonar pessoalmente a chefes das
redações para persuadi-los de que os bascos eram os
culpados. Seu governo orientou os embaixadores mundo afora para
manter essa versão.
Aznar,
em abril de 1995, escapou ileso de um atentado com carro-bomba perpetrado
pelos separatistas bascos. Sua imagem pública agigantou-se
tanto que, em março do ano seguinte, estava eleito para governar
a Espanha, destronando os socialistas. Na semana passada, Aznar
viveu uma situação semelhante, só que às
avessas. O atentado em Madri incinerou sua imagem quando ele tentou
usar a desgraça para faturar eleitoralmente e acabou entregando
o poder aos socialistas. A lição para Aznar, e para
quem quiser aprender, é que se no tempo do presidente americano
Abraham Lincoln (1809-1865), como ele mesmo disse, "não se
pode enganar todo o povo todo o tempo", atualmente, com a velocidade
de circulação das informações, não
se pode enganar o povo mais do que algumas poucas horas.
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