Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Terrorismo
Não me engana
que eu não gosto

Ao eleger os socialistas, os espanhóis
não premiaram o terror. Só puniram

aqueles que queriam ludibriar a massa


André Petry


AFP
O POVO NA RUA
Sobretudo, o eleitor espanhol não perdoou a tentativa de Aznar de manipular as informações sobre os autores do atentado

É comum nos países desenvolvidos o entendimento de que nas regiões pobres do mundo, seja lá nos confins da África, seja cá nos bolsões de miséria da América Latina, o povão não sabe votar – ou porque sua ignorância não lhe permite, ou porque negocia seu voto no balcão das necessidades. Nas nações ricas e alfabetizadas, isso não acontece. Na semana passada, tudo mudou. Surgiu uma onda segundo a qual o eleitorado da Espanha, apesar de sua alta renda per capita, sua baixíssima taxa de analfabetismo, não sabe votar. Tudo porque, três dias depois do horrendo atentado em Madri, o eleitor, em vez de manter no poder os conservadores de José María Aznar, conforme previam as pesquisas eleitorais, entregou o governo ao socialista José Luis Rodríguez Zapatero. Os espanhóis – diz a onda – acovardaram-se diante da selvageria terrorista e renderam-se à chantagem das bombas.

É a primeira vez que se culpa um eleitorado bem informado por ter escolhido nas urnas um candidato legalmente inscrito num pleito legítimo. Ao eleger os socialistas – diz a onda –, os espanhóis ofereceram uma recompensa aos terroristas, que de agora em diante se sentirão fortalecidos e poderão explodir mais bombas em outros países às vésperas de eleições que queiram influenciar. Na esteira desse raciocínio, os socialistas espanhóis viraram filhotes do terror islâmico. Num delirante artigo publicado no jornal The New York Times, Edward Luttwak, do Center for Strategic and International Studies, chegou ao ponto de dizer que a única forma de redimir a democracia espanhola era o socialista Zapatero renunciar ao mandato para mostrar que os terroristas islâmicos não mandam na política espanhola. Engraçado. Se o atentado em Madri tivesse sido obra do ETA, a vitória dos conservadores seria filha do terrorismo basco?

A onda sobre a estupidez eleitoral dos espanhóis é curiosa exatamente porque eles votaram bem. Em apenas três dias, mergulhados no luto, abalados pelo horror, ainda assim perceberam a manipulação que o governo de Aznar tentou fazer do atentado. Mesmo quando já havia indícios de que as bombas foram obra de braços islâmicos do terror, o governo seguia insistindo na acusação ao ETA. Jornais espanhóis divulgaram mais tarde que José María Aznar chegou a telefonar pessoalmente a chefes das redações para persuadi-los de que os bascos eram os culpados. Seu governo orientou os embaixadores mundo afora para manter essa versão.

Aznar, em abril de 1995, escapou ileso de um atentado com carro-bomba perpetrado pelos separatistas bascos. Sua imagem pública agigantou-se tanto que, em março do ano seguinte, estava eleito para governar a Espanha, destronando os socialistas. Na semana passada, Aznar viveu uma situação semelhante, só que às avessas. O atentado em Madri incinerou sua imagem quando ele tentou usar a desgraça para faturar eleitoralmente e acabou entregando o poder aos socialistas. A lição para Aznar, e para quem quiser aprender, é que se no tempo do presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865), como ele mesmo disse, "não se pode enganar todo o povo todo o tempo", atualmente, com a velocidade de circulação das informações, não se pode enganar o povo mais do que algumas poucas horas.

 
 
 
 
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