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Terrorismo
Cerco
ao terror
Ofensiva
militar no Paquistão contra o
número 2 da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri,
é a mais vigorosa contra a rede terrorista
nos dois últimos anos. Ela dá início a uma
fase nova da guerra contra o terror que
tem como objetivo caçar Osama bin Laden
e o alto comando da organização

José Eduardo Barella
Fotos AP
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AP
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CABEÇA
A PRÊMIO
Panfleto americano jogado na região da fronteira afegã
com o Paquistão: promessa de recompensa pela captura
dos líderes da Al Qaeda |
NOVO
IRAQUE
Bush discursa para soldados americanos numa base do Kentucky:
invasão do Iraque completa um ano e continua dividindo
países aliados |
O
11 de março foi a confirmação de que o terrorismo
se transformou no maior e no mais urgente desafio da humanidade.
Outros problemas que ocupavam a comunidade internacional
do narcotráfico ao aquecimento global parecem agora
de menor dimensão se comparados ao que os terroristas vão
fazer daqui para a frente. O massacre de Madri também gerou
uma sensação ainda mais amarga, a de que o terrorismo
está vencendo a guerra. Esse sentimento é reforçado
pela desenvoltura da ofensiva dos fanáticos muçulmanos,
mais de dois anos depois de jurados de morte pelo presidente americano
George W. Bush. Não é verdade que nada tenha sido
feito para conter a sanha dos inimigos da civilização.
Os americanos destruíram um governo que dava santuário
aos terroristas o da milícia talibã, no Afeganistão
e derrubaram o ditador iraquiano Saddam Hussein. Mesmo que
se possa argumentar que Saddam não estava diretamente envolvido
com o terror, a existência de seu regime era um fator de perturbação
no Oriente Médio, a região onde brotou a ideologia
da guerra santa contra a civilização ocidental.
O
que parece estar faltando para aliviar o ambiente é uma nova
derrota, grande o suficiente para desmoralizar o terrorismo. Essa
vitória da democracia pode estar próxima, num canto
remoto da fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão.
O que está em curso por lá é uma grande caçada,
como nunca houve antes, para pegar Osama bin Laden, o milionário
saudita que inventou a Al Qaeda e o terrorismo islâmico da
forma como se conhece hoje. Na sexta-feira passada, os paquistaneses
acreditavam ter cercado o número 2 da Al Qaeda, o egípcio
Ayman al-Zawahiri. É uma presa de valor, pois se acredita
que ele tenha sido o principal organizador dos atentados de 11 de
setembro de 2001. Nesta altura dos acontecimentos, infelizmente,
a morte ou captura de Osama bin Laden terá valor mais simbólico
do que prático. A semente da guerra santa plantada pela Al
Qaeda fez germinar bases terroristas por toda parte. Bin Laden é
agora mais um guru ideológico que o comandante das operações
de cada uma delas. Atribui-se ao terrorismo islâmico a realização,
só no ano passado, de 98 atentados suicidas em todo o mundo.
Na maioria, parecem ter sido ações independentes decididas
por grupos regionais, que agem em nome da rede para recrutar novos
seguidores ou que apenas utilizam seus métodos.
O que
prevalece é o que o americano Scott Atran, um estudioso do
terrorismo, chama de "doutrina jihadista": ataques múltiplos
com o objetivo de matar o maior número possível de
civis. Não há, neste momento, a possibilidade de o
terrorismo ser derrotado por uma única operação
militar ou pela captura de um chefão. A estratégia
da Casa Branca é usar a captura de Bin Laden como arma política
para recuperar a dianteira na luta antiterror e, de quebra,
assegurar a reeleição de Bush em novembro. A ironia
é que prender o saudita pode ser a parte mais fácil.
Os atentados de Madri se encarregaram de distanciar ainda mais os
Estados Unidos dos europeus no que diz respeito à estratégia
de combate ao terrorismo. A crise se agravou com o esforço
do primeiro-ministro espanhol, José María Aznar, em
usar o atentado como trunfo para as eleições que se
realizaram três dias depois. Ele insistiu em culpar o grupo
separatista basco ETA pelos ataques, apesar de as evidências
apontarem para fundamentalistas islâmicos. Nesses dois dias,
a mentira sobre o ETA foi escancarada e o partido de Aznar foi derrotado
nas urnas. Com sua mentira, Aznar deixou Bush mais isolado na Europa
e encerrou de forma melancólica uma brilhante carreira política,
o que fez lembrar uma frase da ex-primeira-ministra inglesa Margaret
Thatcher: "A democracia não é um sistema feito para
garantir que os melhores sejam eleitos, mas para impedir que os
ruins fiquem para sempre".
O
segundo melhor amigo (o primeiro é o inglês Tony Blair)
na Europa, Aznar contribuiu com uma tropa simbólica para
a guerra no Iraque, apesar de 90% de reprovação da
população. O primeiro-ministro eleito, José
Luis Rodríguez Zapatero, anunciou que vai trazer de volta
os soldados que estão no Iraque. Não se trata de uma
rendição dos socialistas espanhóis ante o terrorismo.
A retirada das tropas era uma promessa de campanha de Zapatero,
e não uma decisão tomada diante da cena chocante dos
mortos nas estações de trem de Madri. É difícil
dizer como ou se os atentados influíram nas eleições
espanholas. Mas é certo que o terrorismo parece ter se tornado
um eleitor importante no destino de George W. Bush e Tony Blair,
que enfrentam as urnas neste ano e no próximo. Muita coisa
vai depender do que está acontecendo agora no Afeganistão.
A
que distância estão as forças especiais americanas
de Bin Laden? A resposta é guardada a sete chaves, mas duas
semanas atrás o saudita já havia escapado de um cerco
preparado por um comando de elite francês também na
região da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão.
Em dezembro de 2001, o saudita fugiu de forma espetacular durante
uma ofensiva das tropas americanas e milícias afegãs
aliadas nas montanhas de Tora Bora, no leste afegão. Desta
vez, para evitar um novo fiasco, a Casa Branca preferiu não
correr riscos. A força-tarefa que está sendo enviada
à região da fronteira afegã com o Paquistão
representa a nata da elite militar americana. Trata-se de uma unidade
composta de 1 600 homens que mescla soldados das forças especiais
americanas, treinados para atuar atrás das linhas inimigas,
e agentes secretos da CIA. Seu comandante é o contra-almirante
William McRaven, o principal estrategista da Casa Branca na luta
contra o terrorismo e responsável pela captura de Saddam
Hussein no Iraque. A retaguarda é composta de unidades da
Força Aérea, com helicópteros e aviões
bombardeiros. A parafernália eletrônica inclui ainda
os Predadores, aviões não tripulados que sobrevoam
as montanhas e enviam imagens via satélite, e tropas de assalto.
"O que há de novo desta vez é a rede de informantes
criada na região nos últimos dois anos", disse a VEJA
o especialista militar americano James Dunnigan.
Encontrar
Osama bin Laden era uma prioridade durante os combates no Afeganistão,
em 2002. Sabe-se que ele escapou por pouco de um bombardeio americano,
que atingiu o comboio de carros em que fugia para as montanhas.
Mas, depois de derrotar os talibãs, o presidente George W.
Bush desviou seus esforços militares para outro alvo, o Iraque.
Só a obsessão de Bush em resolver a encrenca com Saddam
Hussein pode justificar um dos mistérios da guerra ao terror:
por que os americanos nunca demonstraram empenho em ir atrás
do chefe dos terroristas responsáveis por 11 de setembro.
É verdade que dois terços do alto comando da Al Qaeda
foram mortos ou capturados. Mas os Estados Unidos não investiram
em nada remotamente próximo às implacáveis
perseguições movidas pelo serviço secreto israelense
contra palestinos responsáveis por atos terroristas no Estado
judeu. Muitos deles foram caçados e assassinados em capitais
árabes e até na Europa. De qualquer forma, a estratégia
sofreu uma reviravolta. Em janeiro, Bush decidiu retomar a caçada
a Bin Laden e ao alto comando da Al Qaeda.
Na
sexta-feira passada, 7.000 soldados do
Exército paquistanês cercavam um grupo de 400 militantes
da Al Qaeda. A suspeita do governo paquistanês era de que
protegiam o egípcio Ayman al-Zawahiri, o homem que planejou
os atentados de 11 de setembro de 2001. Médico de profissão,
ele ajudou a transformar a Al Qaeda numa rede multinacional do terror,
graças a sua relação com grupos fundamentalistas
islâmicos da Ásia, África e Europa. Zawahiri
ocupa a segunda posição na lista dos terroristas mais
procurados pelos Estados Unidos, atrás apenas do próprio
Bin Laden. Se um chefe tão graúdo está para
ser pego, não há por que duvidar que os perseguidores
se encontram próximos também de Bin Laden.
Reuters
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