Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Terrorismo
Cerco ao terror

Ofensiva militar no Paquistão contra o
número 2 da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri,
é a mais vigorosa contra a rede terrorista
nos dois últimos anos. Ela dá início a uma
fase nova da guerra contra o terror que
tem como objetivo caçar Osama bin Laden
e o alto comando da organização


José Eduardo Barella



Fotos AP
AP
CABEÇA A PRÊMIO
Panfleto americano jogado na região da fronteira afegã com o Paquistão: promessa de recompensa pela captura dos líderes da Al Qaeda
NOVO IRAQUE
Bush discursa para soldados americanos numa base do Kentucky: invasão do Iraque completa um ano e continua dividindo países aliados

Em Profundidade: Terror Internacional

O 11 de março foi a confirmação de que o terrorismo se transformou no maior e no mais urgente desafio da humanidade. Outros problemas que ocupavam a comunidade internacional – do narcotráfico ao aquecimento global – parecem agora de menor dimensão se comparados ao que os terroristas vão fazer daqui para a frente. O massacre de Madri também gerou uma sensação ainda mais amarga, a de que o terrorismo está vencendo a guerra. Esse sentimento é reforçado pela desenvoltura da ofensiva dos fanáticos muçulmanos, mais de dois anos depois de jurados de morte pelo presidente americano George W. Bush. Não é verdade que nada tenha sido feito para conter a sanha dos inimigos da civilização. Os americanos destruíram um governo que dava santuário aos terroristas – o da milícia talibã, no Afeganistão – e derrubaram o ditador iraquiano Saddam Hussein. Mesmo que se possa argumentar que Saddam não estava diretamente envolvido com o terror, a existência de seu regime era um fator de perturbação no Oriente Médio, a região onde brotou a ideologia da guerra santa contra a civilização ocidental.

O que parece estar faltando para aliviar o ambiente é uma nova derrota, grande o suficiente para desmoralizar o terrorismo. Essa vitória da democracia pode estar próxima, num canto remoto da fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão. O que está em curso por lá é uma grande caçada, como nunca houve antes, para pegar Osama bin Laden, o milionário saudita que inventou a Al Qaeda e o terrorismo islâmico da forma como se conhece hoje. Na sexta-feira passada, os paquistaneses acreditavam ter cercado o número 2 da Al Qaeda, o egípcio Ayman al-Zawahiri. É uma presa de valor, pois se acredita que ele tenha sido o principal organizador dos atentados de 11 de setembro de 2001. Nesta altura dos acontecimentos, infelizmente, a morte ou captura de Osama bin Laden terá valor mais simbólico do que prático. A semente da guerra santa plantada pela Al Qaeda fez germinar bases terroristas por toda parte. Bin Laden é agora mais um guru ideológico que o comandante das operações de cada uma delas. Atribui-se ao terrorismo islâmico a realização, só no ano passado, de 98 atentados suicidas em todo o mundo. Na maioria, parecem ter sido ações independentes decididas por grupos regionais, que agem em nome da rede para recrutar novos seguidores ou que apenas utilizam seus métodos.

O que prevalece é o que o americano Scott Atran, um estudioso do terrorismo, chama de "doutrina jihadista": ataques múltiplos com o objetivo de matar o maior número possível de civis. Não há, neste momento, a possibilidade de o terrorismo ser derrotado por uma única operação militar ou pela captura de um chefão. A estratégia da Casa Branca é usar a captura de Bin Laden como arma política para recuperar a dianteira na luta antiterror – e, de quebra, assegurar a reeleição de Bush em novembro. A ironia é que prender o saudita pode ser a parte mais fácil. Os atentados de Madri se encarregaram de distanciar ainda mais os Estados Unidos dos europeus no que diz respeito à estratégia de combate ao terrorismo. A crise se agravou com o esforço do primeiro-ministro espanhol, José María Aznar, em usar o atentado como trunfo para as eleições que se realizaram três dias depois. Ele insistiu em culpar o grupo separatista basco ETA pelos ataques, apesar de as evidências apontarem para fundamentalistas islâmicos. Nesses dois dias, a mentira sobre o ETA foi escancarada e o partido de Aznar foi derrotado nas urnas. Com sua mentira, Aznar deixou Bush mais isolado na Europa e encerrou de forma melancólica uma brilhante carreira política, o que fez lembrar uma frase da ex-primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher: "A democracia não é um sistema feito para garantir que os melhores sejam eleitos, mas para impedir que os ruins fiquem para sempre".

O segundo melhor amigo (o primeiro é o inglês Tony Blair) na Europa, Aznar contribuiu com uma tropa simbólica para a guerra no Iraque, apesar de 90% de reprovação da população. O primeiro-ministro eleito, José Luis Rodríguez Zapatero, anunciou que vai trazer de volta os soldados que estão no Iraque. Não se trata de uma rendição dos socialistas espanhóis ante o terrorismo. A retirada das tropas era uma promessa de campanha de Zapatero, e não uma decisão tomada diante da cena chocante dos mortos nas estações de trem de Madri. É difícil dizer como ou se os atentados influíram nas eleições espanholas. Mas é certo que o terrorismo parece ter se tornado um eleitor importante no destino de George W. Bush e Tony Blair, que enfrentam as urnas neste ano e no próximo. Muita coisa vai depender do que está acontecendo agora no Afeganistão.

A que distância estão as forças especiais americanas de Bin Laden? A resposta é guardada a sete chaves, mas duas semanas atrás o saudita já havia escapado de um cerco preparado por um comando de elite francês também na região da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Em dezembro de 2001, o saudita fugiu de forma espetacular durante uma ofensiva das tropas americanas e milícias afegãs aliadas nas montanhas de Tora Bora, no leste afegão. Desta vez, para evitar um novo fiasco, a Casa Branca preferiu não correr riscos. A força-tarefa que está sendo enviada à região da fronteira afegã com o Paquistão representa a nata da elite militar americana. Trata-se de uma unidade composta de 1 600 homens que mescla soldados das forças especiais americanas, treinados para atuar atrás das linhas inimigas, e agentes secretos da CIA. Seu comandante é o contra-almirante William McRaven, o principal estrategista da Casa Branca na luta contra o terrorismo e responsável pela captura de Saddam Hussein no Iraque. A retaguarda é composta de unidades da Força Aérea, com helicópteros e aviões bombardeiros. A parafernália eletrônica inclui ainda os Predadores, aviões não tripulados que sobrevoam as montanhas e enviam imagens via satélite, e tropas de assalto. "O que há de novo desta vez é a rede de informantes criada na região nos últimos dois anos", disse a VEJA o especialista militar americano James Dunnigan.

Encontrar Osama bin Laden era uma prioridade durante os combates no Afeganistão, em 2002. Sabe-se que ele escapou por pouco de um bombardeio americano, que atingiu o comboio de carros em que fugia para as montanhas. Mas, depois de derrotar os talibãs, o presidente George W. Bush desviou seus esforços militares para outro alvo, o Iraque. Só a obsessão de Bush em resolver a encrenca com Saddam Hussein pode justificar um dos mistérios da guerra ao terror: por que os americanos nunca demonstraram empenho em ir atrás do chefe dos terroristas responsáveis por 11 de setembro. É verdade que dois terços do alto comando da Al Qaeda foram mortos ou capturados. Mas os Estados Unidos não investiram em nada remotamente próximo às implacáveis perseguições movidas pelo serviço secreto israelense contra palestinos responsáveis por atos terroristas no Estado judeu. Muitos deles foram caçados e assassinados em capitais árabes e até na Europa. De qualquer forma, a estratégia sofreu uma reviravolta. Em janeiro, Bush decidiu retomar a caçada a Bin Laden e ao alto comando da Al Qaeda.

Na sexta-feira passada, 7.000 soldados do Exército paquistanês cercavam um grupo de 400 militantes da Al Qaeda. A suspeita do governo paquistanês era de que protegiam o egípcio Ayman al-Zawahiri, o homem que planejou os atentados de 11 de setembro de 2001. Médico de profissão, ele ajudou a transformar a Al Qaeda numa rede multinacional do terror, graças a sua relação com grupos fundamentalistas islâmicos da Ásia, África e Europa. Zawahiri ocupa a segunda posição na lista dos terroristas mais procurados pelos Estados Unidos, atrás apenas do próprio Bin Laden. Se um chefe tão graúdo está para ser pego, não há por que duvidar que os perseguidores se encontram próximos também de Bin Laden.


Reuters

 
 
 
 
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