Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Especial
Células da esperança

Assim são chamadas as células-tronco,
que já estão revolucionando
o tratamento
de doenças graves, como diabetes, infarto,
derrame, câncer, Parkinson
e Alzheimer


Anna Paula Buchalla e Karina Pastore

 
Montagem sobre foto de Claudio Rossi
A atriz Luiza Tomé estocou o sangue do cordão umbilical dos filhos Adriana e Luigi: aposta na ciência. À direita, células-tronco em imagem ampliada

As principais linhas de pesquisa com células-tronco

Os gêmeos Adriana e Luigi têm pouco mais de 8 meses. Perfeitamente saudáveis e muito engraçadinhos, eles pertencem a um grupo de 2 600 crianças brasileiras pioneiras de uma revolução na medicina. Assim como quem reserva dinheiro para os estudos dos filhos, seus pais, a atriz Luiza Tomé e o empresário Adriano Facchini, decidiram fazer uma espécie de poupança biológica para os bebês. Na manhã de 5 de julho de 2003, ainda na sala de parto do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, tão logo Adriana e Luigi nasceram, 80 mililitros de sangue foram retirados do cordão umbilical de cada um. Estocadas em um tanque de nitrogênio, a uma temperatura de 190 graus negativos, as duas amostras de sangue guardam um punhado de células-tronco. Também chamadas de "células da esperança", elas são como uma folha de papel em branco, sobre a qual se podem escrever os mais diferentes textos. Ou seja, têm a capacidade de se transformar em células específicas de qualquer tecido ou órgão que compõem o corpo humano. O seu nome em português é uma tradução do inglês "stem-cell". "Stem" é caule, haste. O verbo "to stem", por sua vez, significa originar. Células-tronco, assim, têm essa denominação por ser um tronco comum do qual se originam outras células. Essa versatilidade as torna a grande promessa para o tratamento de doenças graves – problemas cardíacos, câncer, doenças auto-imunes, disfunções neurológicas, distúrbios hepáticos e renais, osteoporose e traumas da medula espinhal. O raciocínio dos cientistas é simples: se elas podem se transformar em todo tipo de célula, por que não usá-las na recuperação de tecidos e órgãos de pessoas doentes? "Deus queira que meus filhos não precisem jamais usá-las, mas ninguém sabe o dia de amanhã", diz Luiza Tomé. "Nós não podemos deixar de aproveitar as oportunidades que a ciência nos oferece."

Para entender exatamente o que é uma célula-tronco, é preciso relembrar as aulas de biologia dos tempos de colegial. O primeiro a descrever uma célula foi o inglês Robert Hooke, em 1665. Ao observar um pedaço de cortiça num microscópio construído por ele próprio, Hooke notou que o material era constituído por pequenas fileiras do que pareciam ser "caixas vazias". Essas "caixas" lembraram-lhe celas de monges. Por isso, batizou-as de células (originalmente, "cell", em inglês, é cela). Era impossível, na época, determinar quais eram as funções dessas estruturas. Somente em 1839, de posse de instrumentos ópticos mais refinados, o botânico Matthias Jakob Schleiden e o zoologista Theodor Schwann, ambos alemães, chegaram à conclusão de que todos os organismos vivos eram compostos de células e de que elas eram diferentes umas das outras, dependendo da área em que se concentravam.  

Hoje se sabe que o organismo de um adulto tem aproximadamente 75 trilhões de células, agrupadas em cerca de 220 tipos distintos. Cada um desses tipos é responsável pela formação de uma parte do corpo humano. Nos dias imediatamente posteriores à concepção, contudo, um embrião não passa de um amontoado de 100 a 200 células indiferenciadas entre si, envoltas por uma membrana que formará a placenta. Só a partir de uma semana de vida, mais ou menos, é que essas células embrionárias começam a diferenciar-se. Umas viram células sanguíneas, outras cardíacas, cerebrais, musculares, ósseas, hepáticas, renais e assim por diante. A metamorfose é que permite que um embrião se transforme num feto e, finalmente, numa criança.

Para efeito de comparação, é como se cada célula-tronco tivesse em seu interior inúmeros botões de liga-desliga. No processo de diferenciação, por meio de um comando genético, um desses botões é acionado. Se o comando determinar que a célula-tronco deve se transformar numa célula cardíaca, é o botão do "liga-coração" que será ativado. Quanto aos outros botões, eles serão desligados para sempre. Uma parte das células do organismo, no entanto, permanece sendo tronco. Algumas delas ficam localizadas no cordão umbilical. Outras incrustam-se em diversas regiões do organismo, sobretudo na medula óssea. É com esse material, proveniente de cordões umbilicais e de medulas ósseas, que os cientistas andam promovendo a maioria de suas experiências. Nas terapias, quando elas são injetadas numa certa região do corpo, o comando genético é dado por meio das proteínas específicas do órgão para o qual foram enviadas. É graças a esse fenômeno que é impossível que uma célula-tronco injetada no coração se transforme numa célula renal ou num neurônio, por exemplo.

As descobertas têm sido anunciadas num ritmo vertiginoso. Uma das mais importantes é a de que as células-tronco armazenadas naturalmente funcionam como um batalhão de defesa, que entra em ação em casos de emergência. Por exemplo, até três anos atrás, acreditava-se que o coração seria incapaz de se regenerar. Engano. Constatou-se que, no momento de um infarto, células-tronco migram para a área da lesão com o objetivo de regenerar o músculo cardíaco. Elas, porém, não são em quantidade suficiente. Se fossem, não haveria necessidade de intervenções como pontes de safena e angioplastias. O coração seria capaz de se regenerar por si só, da mesma forma que a pele que sofre um leve machucado.

É na cardiologia que esses avanços têm aplicação mais imediata. Ao observarem a movimentação desse batalhão de células-tronco, os cientistas imaginaram formas de transformá-lo num grande exército. O procedimento mais usual é retirar da medula óssea uma quantidade de células-tronco e transplantá-las diretamente para a área do músculo cardíaco lesionada. Em dezembro de 2001, a equipe do cardiologista Hans Fernando Dohmann, do Hospital Pró-Cardíaco do Rio de Janeiro, fez o primeiro transplante desse tipo no Brasil. O paciente era uma vítima de insuficiência cardíaca causada por infarto. Procedimentos semelhantes só haviam sido realizados na Alemanha, Holanda, Japão e Estados Unidos. Por meio de um cateter, as células-tronco são transportadas para a região a ser regenerada. Demora em média apenas quarenta dias para que elas se transformem em células cardíacas, repovoando a porção necrosada pelo infarto. É simplesmente incrível. A cirurgia não leva mais de três horas e a internação não passa de dois dias. Dos 21 pacientes operados no Brasil dezessete levam hoje uma vida normal. No mês passado, Dohmann deu início a uma nova experiência: injeções de células-tronco imediatamente depois de o processo de infarto ter sido detonado. O objetivo é fazer com que a necrose do músculo cardíaco, resultante do ataque, não seja tão grande a ponto de incapacitar o paciente (veja quadro).

No Instituto do Coração de São Paulo (Incor), trabalha-se em duas frentes de pesquisas inéditas no mundo. Numa delas, iniciada em 2002, dez pacientes receberam células-tronco durante a cirurgia para a colocação de pontes de safena e mamária. As "células da esperança" são injetadas em locais onde a revascularização jamais poderia ser feita por ponte. Comprovada a segurança do método, a pesquisa agora será ampliada para um número maior de pacientes. A outra frente de estudo, coordenada pelo cardiologista Edimar Bocchi, destina-se à recuperação de pacientes com insuficiência cardíaca. Em vez de coletar as células e transplantá-las para o coração, o médico, com a ajuda de remédios, faz com que elas migrem da medula óssea para o músculo cardíaco. Ao longo de quatro meses, os participantes dessa experiência receberam injeções de uma proteína especial, que estimula a passagem das células-tronco para a corrente sanguínea. Como é que elas vão parar no coração? Substâncias liberadas naturalmente apenas na presença de lesões as atraem. O dano cardíaco funciona, assim, como uma espécie de ímã. Os onze pacientes tratados até o momento estavam em estado tão grave que a única opção que lhes restava era o transplante de coração. Graças às células-tronco, oito já recuperaram parte das funções cardíacas. Outro ineditismo brasileiro no campo da cardiologia é o trabalho coordenado pelo imunofarmacologista Ricardo Ribeiro dos Santos, coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia. No ano passado, ele conseguiu tratar com sucesso oito pacientes com cardiopatias graves causadas por doença de Chagas.  

As primeiras terapias com células-tronco da medula óssea e do cordão umbilical surgiram na década de 80. Pensava-se que seu efeito regenerador fosse limitado ao tratamento de doenças malignas do sangue, as leucemias, e do sistema linfático, os linfomas. No fim dos anos 90, o cardiologista americano Piero Anversa, pesquisador da New York Medical College, ampliou o espectro de atuação da terapia. Ele demonstrou que células-tronco retiradas da medula óssea de ratos de laboratório eram capazes de regenerar o músculo cardíaco dos roedores. Na mesma época, o pesquisador James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison, conseguiu que células-tronco de embriões descartados por clínicas de fertilização assistida se reproduzissem em laboratório. Ele produziu uma linhagem inteira de células-tronco de embriões humanos. Combinadas, as descobertas de Anversa e Thomson abriram uma nova fronteira nos conhecimentos médicos.

Seria uma maravilha se as células-tronco da medula óssea e do cordão umbilical fossem tão versáteis quanto as embrionárias. Mas a capacidade de diferenciação delas é menor. A versatilidade de uma célula-tronco é medida pelo tempo em que ela consegue se manter indiferenciada durante o processo de reprodução em laboratório. Quanto mais ela se mantiver indiferenciada, maior é sua capacidade de se transformar numa célula específica que seja útil para um tratamento de saúde. "Sob condições ideais, uma linhagem de células-tronco embrionárias é quase 'imortal'. Pode se propagar centenas de vezes em laboratório", diz o médico Carlos Alberto Moreira-Filho, coordenador do Instituto de Pesquisa e Ensino, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. As células embrionárias podem ser multiplicadas in vitro mais de 300 vezes, sem perder suas características iniciais – ou seja, sem se especializar. Entre as células de cordão e as de medula, essa taxa de multiplicação chega a, no máximo, vinte vezes. Mas há uma vantagem das células de cordão umbilical sobre as de medula. "Um tratamento com as provenientes de cordão tem mais chance de sucesso, porque elas não sofreram agressões, tais como poluição, tabagismo e efeitos de drogas", diz a geneticista Lygia da Veiga Pereira, professora da Universidade de São Paulo.

Mas ainda há problemas na manipulação de células-tronco embrionárias. "Elas são tão potentes que até hoje não se conseguiu dominar totalmente um procedimento que permita controlar o ritmo com que elas proliferam", diz o pesquisador Antonio Carlos Campos de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em experiências com ratos, verificou-se que elas se multiplicam tanto e tão rapidamente que, sem controle externo, podem dar origem a um tumor maligno. Além disso, há a questão ética. Lançar mão delas significa matar embriões humanos. O papa João Paulo II definiu o uso de embriões de apenas uma semana como "um atentado ao respeito absoluto da vida". Em 2001, o presidente americano George W. Bush rendeu-se aos apelos dos fanáticos cristãos, que compõem sua base eleitoral, e suspendeu o financiamento com recursos públicos de novas experiências com células-tronco de embriões humanos. O veto mobilizou os setores mais arejados dos Estados Unidos. Artistas como Christopher Reeve, Michael J. Fox e Mary Tyler Moore foram ao Congresso protestar contra a decisão de Bush (veja o quadro). Os três são vítimas de doenças para as quais a medicina oferece pouco (ou nenhum) tratamento, e para as quais as células-tronco representam a maior esperança. Reeve está tetraplégico desde maio de 1995, quando sofreu um acidente durante uma prova de hipismo. Fox sofre de doença de Parkinson. Mary Tyler Moore tem diabetes. Apenas sete países autorizam as experiências com células-tronco de embriões humanos: Inglaterra, Austrália, Japão, Coréia do Sul, Cingapura, China e Israel.

No Brasil, por pressão dos evangélicos, há cerca de um mês, a Câmara dos Deputados vetou o artigo da Lei de Biossegurança que autorizava o uso de células embrionárias para fins terapêuticos. O veto foi duramente criticado por médicos, cientistas e pacientes. O texto definitivo ainda tem de ser aprovado pelo Senado. Pelos cálculos da organização não-governamental Movitae, que luta pela liberação do uso de células embrionárias para fins terapêuticos, há cerca de 30.000 embriões estocados nas clínicas brasileiras de fertilização. Pela lei, esses embriões não podem ser doados para pesquisas nem com a autorização do casal. "É um desperdício muito grande", diz Andréa Bezerra de Albuquerque, presidente da Movitae. "Depois de congelado, um embrião tem menos de 3% de chance de resultar em gravidez." O Brasil está jogando no lixo um tesouro científico.

No Brasil, há 25 pesquisas em fase de testes com seres humanos, conforme levantamento da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Vítimas de lesões medulares, insuficiência cardíaca, infarto, diabetes tipo 1, lúpus, esclerose múltipla e artrite reumatóide já foram tratadas com células-tronco. Em todos os casos, utilizaram-se células extraídas da medula óssea dos próprios pacientes. Há nove meses, foram iniciados estudos com células-tronco para a recuperação de lesões medulares, como paraplegia e tetraplegia. A maioria dos trinta pacientes que se submeteram à terapia recuperou um pouco da sensibilidade. O Brasil é pioneiro no uso de células-tronco para o tratamento do diabetes tipo 1, a versão mais devastadora da doença – a que faz com que seus doentes dependam de injeções diárias de insulina. Um transplante foi realizado em 12 de janeiro passado, sob o comando do médico Júlio Voltarelli, professor de imunologia clínica do campus Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Levando-se em conta os resultados dos estudos de Voltarelli no tratamento de outras doenças auto-imunes, a terapia tem tudo para funcionar também contra o diabetes tipo 1. Ele já aplicou, com sucesso, células-tronco em doze pacientes com esclerose múltipla e em dez doentes vítimas de lúpus.

A euforia, como se vê, não é sem razão e toma conta de todos os envolvidos – cientistas, médicos e pacientes. "São três forças poderosas em busca de uma oportunidade única na história da medicina", disse a VEJA o americano John Gearhart, pesquisador da Universidade Johns Hopkins e um dos precursores das pesquisas. A palavra-chave, por enquanto, continua a ser cautela. O cardiologista José Eduardo Krieger, diretor do Incor, tem uma boa analogia para ilustrar a situação da ciência diante da promessa oferecida pelas células-tronco. "O entusiasmo dos pesquisadores é semelhante à ansiedade de uma criança na frente de uma montanha de brinquedos embrulhados para presente. A vontade é abrir tudo de uma vez, mas é preciso paciência e desembrulhar caixa por caixa."

 

CORAÇÃO REVIGORADO

Oscar Cabral


O obstetra carioca Eduardo Augusto Dias Peon,
de 57 anos, abandonou o cigarro dois anos atrás. Habituado à prática de exercícios físicos, nunca havia sofrido nenhum problema cardíaco. Há cerca de três meses, no entanto, Peon começou a sentir fortes dores no abdômen até o dia em que, pálido e com a pressão arterial baixíssima, ele teve de ser internado às pressas. Era um infarto – 99% de sua coronária direita estava obstruída. Submetido ao tratamento de urgência, uma angioplastia para o desentupimento arterial, Peon aceitou participar de um estudo inédito no Brasil com células-tronco. Coordenada pelo cardiologista Hans Fernando Dohmann, do Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro, a pesquisa busca minimizar as seqüelas de um infarto em pessoas que acabaram de ser acometidas pelo mal. Retiradas da medula óssea do paciente, as células-tronco foram injetadas diretamente na área infartada. O objetivo é impedir dano ao músculo cardíaco – quanto maior a necrose, mais difícil é a recuperação do tecido. A equipe médica espera também que as células cardíacas originadas a partir das células-tronco façam com que o coração recupere suas funções por completo. O procedimento é rápido e praticamente indolor. "Estou confiante", diz Peon.

 

QUANDO É BOM SENTIR DOR

Claudio Rossi


Há nove anos, a psicóloga e publicitária Mara Gabrilli, de 36 anos, envolveu-se num acidente gravíssimo de carro. Ela fraturou a coluna cervical e ficou tetraplégica. Vários nervos que controlam órgãos vitais foram afetados. Mara perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo e passou dois meses num respirador artificial. Foram duros anos de reabilitação. Mara fez o que pôde para se adaptar à vida numa cadeira de rodas. Em 1997, ela fundou a
ONG Projeto Próximo Passo, que trabalha para melhorar o cotidiano do deficiente físico. "Nunca abandonei o otimismo", conta. Quando ouviu falar que um grupo de pesquisadores brasileiros estudava a injeção de células-tronco para a recuperação de lesões medulares, como paraplegia e tetraplegia, Mara não titubeou em aderir ao projeto. Em pesquisas internacionais com animais, o implante de células-tronco na medula espinhal foi capaz de fazê-los voltar a andar. O estudo desenvolvido pelo Hospital das Clínicas, de São Paulo, e coordenado pelo professor Tarcísio Pessoa de Barros Filho procura repor as células da medula lesada. Elas são extraídas, filtradas em laboratório e reinjetadas no local da lesão. Dos trinta pacientes que receberam o implante, dezoito apresentaram resposta positiva ao exame de potencial elétrico evocado, que mede a freqüência dos impulsos dos membros para o cérebro. "Senti um aumento, ainda que pequeno, da sensibilidade à dor", conta Mara. "Nunca estive tão otimista."

 

"EU ERA PELE E OSSO"

Claudio Rossi


Há cerca de três meses, o operário desempregado Leandro Simão Moreira, de 24 anos, começou a sentir-se fraco. Durante uma partida de futebol com os amigos, seu coração disparou e ele teve uma súbita falta de ar. Vieram, então, a febre insistente, as náuseas constantes, as dores de cabeça freqüentes e a perda de peso. Em duas semanas, Moreira passou de 75 quilos para menos de 60. "Eu era pele e osso", lembra. O diagnóstico: diabetes tipo 1, doença auto-imune que transforma suas vítimas em escravas das injeções diárias do hormônio insulina. O mal se caracteriza pelo ataque do sistema imunológico do próprio paciente às células produtoras de insulina. Moreira tinha de tomar várias injeções de hormônio por dia. Assustado com o seu estado de saúde, ele aceitou ser cobaia de um novo tipo de tratamento. Moreira foi o primeiro paciente do mundo a submeter-se a um transplante de células-tronco para o combate do diabetes tipo 1. Pesquisadores da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto, coletaram células da medula óssea no sangue de Moreira e, em seguida, com drogas imunossupressoras, desativaram o sistema imunológico dele. As células-tronco foram reinjetadas no organismo do operário. Os médicos esperam que elas reconstruam o seu sistema imunológico e, desse modo, eliminem o diabetes. "As chances de recuperação de Leandro são muito altas", diz o pesquisador Júlio César Voltarelli, coordenador do estudo. "À medida que seu organismo aumentar a produção de insulina, nós diminuiremos a dosagem do hormônio." Outros doze transplantes iguais ao de Moreira já foram autorizados pelo Ministério da Saúde.

 

EM DEFESA DO USO DE EMBRIÕES HUMANOS

O grande símbolo da campanha pelas experiências com células-tronco de embriões humanos é o ator americano Christopher Reeve, de 51 anos. Em maio de 1995, durante uma prova de hipismo, ele sofreu uma queda. Imediatamente, Reeve perdeu os movimentos do pescoço para baixo e parou de respirar. Ninguém apostava em sua sobrevivência. Mas, dono de uma obstinação extraordinária, Reeve transformou-se em um caso único na história da medicina. Atualmente, ele consegue respirar por algumas horas sem a ajuda de aparelhos, identifica estímulos que recebe no corpo e já recuperou alguns movimentos dos dedos dos pés e de uma mão. Muito de sua determinação vem da certeza de que chegará o dia em que ele se beneficiará da terapia com células-tronco e voltará a andar. Sua esperança é tanta que ele até criou uma fundação, com seu nome, que visa a arrecadar investimentos para os experimentos com células-tronco.

Quando o presidente George W. Bush anunciou, em 2001, que o governo americano não financiaria mais nenhuma pesquisa com células-tronco de embriões humanos, associações de doentes e de parentes de vítimas dos mais diversos males e outros tantos artistas se juntaram a Reeve contra o veto presidencial. Entre eles, o ator canadense Michael J. Fox e a atriz americana Mary Tyler Moore. Em 1998, aos 37 anos, o astro da trilogia De Volta para o Futuro revelou que sofria do mal de Parkinson, doença degenerativa do sistema nervoso. Fox está entre os 4% do total de pacientes que desenvolvem o mal antes dos 40 anos. No mesmo ano, ele foi submetido a uma cirurgia no cérebro com o objetivo de abrandar os sintomas mais severos da doença. A cura, no entanto, não existe. Outro nome de peso em defesa dos testes com células-tronco de embriões humanos é a atriz Mary Tyler Moore, estrela, na década de 70, de um seriado de TV. Portadora do tipo 1 de diabetes, desde a juventude ela vive à base de injeções diárias de insulina. Para Mary, a esperança é que um dia as células-tronco sejam capazes de fazer com que seu organismo produza naturalmente esse hormônio (veja depoimento). No caso de Fox, espera-se que as células-tronco substituam os neurônios doentes por neurônios novos e ele recupere o controle sobre seu corpo.

Apesar de existirem células-tronco no cordão umbilical de recém-nascidos e na medula óssea de adultos, as experiências com as embrionárias são de suma importância. Nenhum outro tipo de célula-tronco é tão versátil quanto elas. Acompanhar o desenvolvimento delas em laboratório e estudar o processo pelo qual elas se especializam é primordial para que os cientistas consigam definir quais os genes e as substâncias envolvidos nessa transformação.

 
 
 
 
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