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Especial
Células
da esperança
Assim
são chamadas as células-tronco,
que já estão revolucionando o
tratamento
de doenças graves, como diabetes, infarto,
derrame, câncer, Parkinson e
Alzheimer

Anna
Paula Buchalla e Karina Pastore
Montagem sobre foto de Claudio Rossi
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| A
atriz Luiza Tomé estocou o sangue do cordão umbilical
dos filhos Adriana e
Luigi: aposta na ciência. À direita, células-tronco
em imagem ampliada |
Os
gêmeos Adriana e Luigi têm pouco mais de 8 meses. Perfeitamente
saudáveis e muito engraçadinhos, eles pertencem a
um grupo de 2 600 crianças brasileiras pioneiras de uma revolução
na medicina. Assim como quem reserva dinheiro para os estudos dos
filhos, seus pais, a atriz Luiza Tomé e o empresário
Adriano Facchini, decidiram fazer uma espécie de poupança
biológica para os bebês. Na manhã de 5 de julho
de 2003, ainda na sala de parto do Hospital Albert Einstein, em
São Paulo, tão logo Adriana e Luigi nasceram, 80 mililitros
de sangue foram retirados do cordão umbilical de cada um.
Estocadas em um tanque de nitrogênio, a uma temperatura de
190 graus negativos, as duas amostras de sangue guardam um punhado
de células-tronco. Também chamadas de "células
da esperança", elas são como uma folha de papel em
branco, sobre a qual se podem escrever os mais diferentes textos.
Ou seja, têm a capacidade de se transformar em células
específicas de qualquer tecido ou órgão que
compõem o corpo humano. O seu nome em português é
uma tradução do inglês "stem-cell". "Stem" é
caule, haste. O verbo "to stem", por sua vez, significa originar.
Células-tronco, assim, têm essa denominação
por ser um tronco comum do qual se originam outras células.
Essa versatilidade as torna a grande promessa para o tratamento
de doenças graves problemas cardíacos, câncer,
doenças auto-imunes, disfunções neurológicas,
distúrbios hepáticos e renais, osteoporose e traumas
da medula espinhal. O raciocínio dos cientistas é
simples: se elas podem se transformar em todo tipo de célula,
por que não usá-las na recuperação de
tecidos e órgãos de pessoas doentes? "Deus queira
que meus filhos não precisem jamais usá-las, mas ninguém
sabe o dia de amanhã", diz Luiza Tomé. "Nós
não podemos deixar de aproveitar as oportunidades que a ciência
nos oferece."
Para
entender exatamente o que é uma célula-tronco, é
preciso relembrar as aulas de biologia dos tempos de colegial. O
primeiro a descrever uma célula foi o inglês Robert
Hooke, em 1665. Ao observar um pedaço de cortiça num
microscópio construído por ele próprio, Hooke
notou que o material era constituído por pequenas fileiras
do que pareciam ser "caixas vazias". Essas "caixas" lembraram-lhe
celas de monges. Por isso, batizou-as de células (originalmente,
"cell", em inglês, é cela). Era impossível,
na época, determinar quais eram as funções
dessas estruturas. Somente em 1839, de posse de instrumentos ópticos
mais refinados, o botânico Matthias Jakob Schleiden e o zoologista
Theodor Schwann, ambos alemães, chegaram à conclusão
de que todos os organismos vivos eram compostos de células
e de que elas eram diferentes umas das outras, dependendo da área
em que se concentravam.
Hoje
se sabe que o organismo de um adulto tem aproximadamente 75 trilhões
de células, agrupadas em cerca de 220 tipos distintos. Cada
um desses tipos é responsável pela formação
de uma parte do corpo humano. Nos dias imediatamente posteriores
à concepção, contudo, um embrião não
passa de um amontoado de 100 a 200 células indiferenciadas
entre si, envoltas por uma membrana que formará a placenta.
Só a partir de uma semana de vida, mais ou menos, é
que essas células embrionárias começam a diferenciar-se.
Umas viram células sanguíneas, outras cardíacas,
cerebrais, musculares, ósseas, hepáticas, renais e
assim por diante. A metamorfose é que permite que um embrião
se transforme num feto e, finalmente, numa criança.
Para
efeito de comparação, é como se cada célula-tronco
tivesse em seu interior inúmeros botões de liga-desliga.
No processo de diferenciação, por meio de um comando
genético, um desses botões é acionado. Se o
comando determinar que a célula-tronco deve se transformar
numa célula cardíaca, é o botão do "liga-coração"
que será ativado. Quanto aos outros botões, eles serão
desligados para sempre. Uma parte das células do organismo,
no entanto, permanece sendo tronco. Algumas delas ficam localizadas
no cordão umbilical. Outras incrustam-se em diversas regiões
do organismo, sobretudo na medula óssea. É com esse
material, proveniente de cordões umbilicais e de medulas
ósseas, que os cientistas andam promovendo a maioria de suas
experiências. Nas terapias, quando elas são injetadas
numa certa região do corpo, o comando genético é
dado por meio das proteínas específicas do órgão
para o qual foram enviadas. É graças a esse fenômeno
que é impossível que uma célula-tronco injetada
no coração se transforme numa célula renal
ou num neurônio, por exemplo.
As
descobertas têm sido anunciadas num ritmo vertiginoso. Uma
das mais importantes é a de que as células-tronco
armazenadas naturalmente funcionam como um batalhão de defesa,
que entra em ação em casos de emergência. Por
exemplo, até três anos atrás, acreditava-se
que o coração seria incapaz de se regenerar. Engano.
Constatou-se que, no momento de um infarto, células-tronco
migram para a área da lesão com o objetivo de regenerar
o músculo cardíaco. Elas, porém, não
são em quantidade suficiente. Se fossem, não haveria
necessidade de intervenções como pontes de safena
e angioplastias. O coração seria capaz de se regenerar
por si só, da mesma forma que a pele que sofre um leve machucado.
É
na cardiologia que esses avanços têm aplicação
mais imediata. Ao observarem a movimentação desse
batalhão de células-tronco, os cientistas imaginaram
formas de transformá-lo num grande exército. O procedimento
mais usual é retirar da medula óssea uma quantidade
de células-tronco e transplantá-las diretamente para
a área do músculo cardíaco lesionada. Em dezembro
de 2001, a equipe do cardiologista Hans Fernando Dohmann, do Hospital
Pró-Cardíaco do Rio de Janeiro, fez o primeiro transplante
desse tipo no Brasil. O paciente era uma vítima de insuficiência
cardíaca causada por infarto. Procedimentos semelhantes só
haviam sido realizados na Alemanha, Holanda, Japão e Estados
Unidos. Por meio de um cateter, as células-tronco são
transportadas para a região a ser regenerada. Demora em média
apenas quarenta dias para que elas se transformem em células
cardíacas, repovoando a porção necrosada pelo
infarto. É simplesmente incrível. A cirurgia não
leva mais de três horas e a internação não
passa de dois dias. Dos 21 pacientes operados no Brasil dezessete
levam hoje uma vida normal. No mês passado, Dohmann deu início
a uma nova experiência: injeções de células-tronco
imediatamente depois de o processo de infarto ter sido detonado.
O objetivo é fazer com que a necrose do músculo cardíaco,
resultante do ataque, não seja tão grande a ponto
de incapacitar o paciente (veja
quadro).
No
Instituto do Coração de São Paulo (Incor),
trabalha-se em duas frentes de pesquisas inéditas no mundo.
Numa delas, iniciada em 2002, dez pacientes receberam células-tronco
durante a cirurgia para a colocação de pontes de safena
e mamária. As "células da esperança" são
injetadas em locais onde a revascularização jamais
poderia ser feita por ponte. Comprovada a segurança do método,
a pesquisa agora será ampliada para um número maior
de pacientes. A outra frente de estudo, coordenada pelo cardiologista
Edimar Bocchi, destina-se à recuperação de
pacientes com insuficiência cardíaca. Em vez de coletar
as células e transplantá-las para o coração,
o médico, com a ajuda de remédios, faz com que elas
migrem da medula óssea para o músculo cardíaco.
Ao longo de quatro meses, os participantes dessa experiência
receberam injeções de uma proteína especial,
que estimula a passagem das células-tronco para a corrente
sanguínea. Como é que elas vão parar no coração?
Substâncias liberadas naturalmente apenas na presença
de lesões as atraem. O dano cardíaco funciona, assim,
como uma espécie de ímã. Os onze pacientes
tratados até o momento estavam em estado tão grave
que a única opção que lhes restava era o transplante
de coração. Graças às células-tronco,
oito já recuperaram parte das funções cardíacas.
Outro ineditismo brasileiro no campo da cardiologia é o trabalho
coordenado pelo imunofarmacologista Ricardo Ribeiro dos Santos,
coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual
e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da
Bahia. No ano passado, ele conseguiu tratar com sucesso oito pacientes
com cardiopatias graves causadas por doença de Chagas.
As
primeiras terapias com células-tronco da medula óssea
e do cordão umbilical surgiram na década de 80. Pensava-se
que seu efeito regenerador fosse limitado ao tratamento de doenças
malignas do sangue, as leucemias, e do sistema linfático,
os linfomas. No fim dos anos 90, o cardiologista americano Piero
Anversa, pesquisador da New York Medical College, ampliou o espectro
de atuação da terapia. Ele demonstrou que células-tronco
retiradas da medula óssea de ratos de laboratório
eram capazes de regenerar o músculo cardíaco dos roedores.
Na mesma época, o pesquisador James Thomson, da Universidade
de Wisconsin-Madison, conseguiu que células-tronco de embriões
descartados por clínicas de fertilização assistida
se reproduzissem em laboratório. Ele produziu uma linhagem
inteira de células-tronco de embriões humanos. Combinadas,
as descobertas de Anversa e Thomson abriram uma nova fronteira nos
conhecimentos médicos.
Seria
uma maravilha se as células-tronco da medula óssea
e do cordão umbilical fossem tão versáteis
quanto as embrionárias. Mas a capacidade de diferenciação
delas é menor. A versatilidade de uma célula-tronco
é medida pelo tempo em que ela consegue se manter indiferenciada
durante o processo de reprodução em laboratório.
Quanto mais ela se mantiver indiferenciada, maior é sua capacidade
de se transformar numa célula específica que seja
útil para um tratamento de saúde. "Sob condições
ideais, uma linhagem de células-tronco embrionárias
é quase 'imortal'. Pode se propagar centenas de vezes em
laboratório", diz o médico Carlos Alberto Moreira-Filho,
coordenador do Instituto de Pesquisa e Ensino, do Hospital Albert
Einstein, em São Paulo. As células embrionárias
podem ser multiplicadas in vitro mais de 300 vezes, sem perder
suas características iniciais ou seja, sem se especializar.
Entre as células de cordão e as de medula, essa taxa
de multiplicação chega a, no máximo, vinte
vezes. Mas há uma vantagem das células de cordão
umbilical sobre as de medula. "Um tratamento com as provenientes
de cordão tem mais chance de sucesso, porque elas não
sofreram agressões, tais como poluição, tabagismo
e efeitos de drogas", diz a geneticista Lygia da Veiga Pereira,
professora da Universidade de São Paulo.
Mas
ainda há problemas na manipulação de células-tronco
embrionárias. "Elas são tão potentes que até
hoje não se conseguiu dominar totalmente um procedimento
que permita controlar o ritmo com que elas proliferam", diz o pesquisador
Antonio Carlos Campos de Carvalho, da Universidade Federal do Rio
de Janeiro. Em experiências com ratos, verificou-se que elas
se multiplicam tanto e tão rapidamente que, sem controle
externo, podem dar origem a um tumor maligno. Além disso,
há a questão ética. Lançar mão
delas significa matar embriões humanos. O papa João
Paulo II definiu o uso de embriões de apenas uma semana como
"um atentado ao respeito absoluto da vida". Em 2001, o presidente
americano George W. Bush rendeu-se aos apelos dos fanáticos
cristãos, que compõem sua base eleitoral, e suspendeu
o financiamento com recursos públicos de novas experiências
com células-tronco de embriões humanos. O veto mobilizou
os setores mais arejados dos Estados Unidos. Artistas como Christopher
Reeve, Michael J. Fox e Mary Tyler Moore foram ao Congresso protestar
contra a decisão de Bush (veja
o quadro). Os três são vítimas
de doenças para as quais a medicina oferece pouco (ou nenhum)
tratamento, e para as quais as células-tronco representam
a maior esperança. Reeve está tetraplégico
desde maio de 1995, quando sofreu um acidente durante uma prova
de hipismo. Fox sofre de doença de Parkinson. Mary Tyler
Moore tem diabetes. Apenas sete países autorizam as experiências
com células-tronco de embriões humanos: Inglaterra,
Austrália, Japão, Coréia do Sul, Cingapura,
China e Israel.
No
Brasil, por pressão dos evangélicos, há cerca
de um mês, a Câmara dos Deputados vetou o artigo da
Lei de Biossegurança que autorizava o uso de células
embrionárias para fins terapêuticos. O veto foi duramente
criticado por médicos, cientistas e pacientes. O texto definitivo
ainda tem de ser aprovado pelo Senado. Pelos cálculos da
organização não-governamental Movitae, que
luta pela liberação do uso de células embrionárias
para fins terapêuticos, há cerca de 30.000 embriões
estocados nas clínicas brasileiras de fertilização.
Pela lei, esses embriões não podem ser doados para
pesquisas nem com a autorização do casal. "É
um desperdício muito grande", diz Andréa Bezerra de
Albuquerque, presidente da Movitae. "Depois de congelado, um embrião
tem menos de 3% de chance de resultar em gravidez." O Brasil está
jogando no lixo um tesouro científico.
No
Brasil, há 25 pesquisas em fase de testes com seres humanos,
conforme levantamento da Comissão Nacional de Ética
em Pesquisa. Vítimas de lesões medulares, insuficiência
cardíaca, infarto, diabetes tipo 1, lúpus, esclerose
múltipla e artrite reumatóide já foram tratadas
com células-tronco. Em todos os casos, utilizaram-se células
extraídas da medula óssea dos próprios pacientes.
Há nove meses, foram iniciados estudos com células-tronco
para a recuperação de lesões medulares, como
paraplegia e tetraplegia. A maioria dos trinta pacientes que se
submeteram à terapia recuperou um pouco da sensibilidade.
O Brasil é pioneiro no uso de células-tronco para
o tratamento do diabetes tipo 1, a versão mais devastadora
da doença a que faz com que seus doentes dependam
de injeções diárias de insulina. Um transplante
foi realizado em 12 de janeiro passado, sob o comando do médico
Júlio Voltarelli, professor de imunologia clínica
do campus Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
Levando-se em conta os resultados dos estudos de Voltarelli no tratamento
de outras doenças auto-imunes, a terapia tem tudo para funcionar
também contra o diabetes tipo 1. Ele já aplicou, com
sucesso, células-tronco em doze pacientes com esclerose múltipla
e em dez doentes vítimas de lúpus.
A
euforia, como se vê, não é sem razão
e toma conta de todos os envolvidos cientistas, médicos
e pacientes. "São três forças poderosas em busca
de uma oportunidade única na história da medicina",
disse a VEJA o americano John Gearhart, pesquisador da Universidade
Johns Hopkins e um dos precursores das pesquisas. A palavra-chave,
por enquanto, continua a ser cautela. O cardiologista José
Eduardo Krieger, diretor do Incor, tem uma boa analogia para ilustrar
a situação da ciência diante da promessa oferecida
pelas células-tronco. "O entusiasmo dos pesquisadores é
semelhante à ansiedade de uma criança na frente de
uma montanha de brinquedos embrulhados para presente. A vontade
é abrir tudo de uma vez, mas é preciso paciência
e desembrulhar caixa por caixa."
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CORAÇÃO
REVIGORADO
Oscar Cabral
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O obstetra carioca Eduardo Augusto Dias Peon,
de
57 anos, abandonou o
cigarro dois anos atrás. Habituado à prática
de exercícios físicos, nunca havia sofrido
nenhum problema cardíaco. Há
cerca de três meses, no
entanto, Peon começou a sentir fortes dores no
abdômen
até o dia em que, pálido e com a pressão
arterial baixíssima, ele teve
de ser internado às
pressas. Era um infarto
99% de sua coronária direita estava obstruída.
Submetido ao tratamento de urgência, uma angioplastia
para o desentupimento arterial, Peon aceitou participar
de
um estudo inédito no Brasil
com células-tronco. Coordenada pelo cardiologista
Hans Fernando Dohmann, do
Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro,
a pesquisa busca minimizar as
seqüelas de um infarto em pessoas que acabaram
de ser acometidas pelo
mal. Retiradas da medula óssea
do paciente, as células-tronco
foram injetadas
diretamente na
área infartada. O
objetivo é impedir
dano ao músculo
cardíaco quanto maior
a necrose, mais difícil
é a recuperação do
tecido. A equipe médica espera
também que as
células cardíacas originadas
a partir das células-tronco
façam com que o
coração recupere suas funções
por completo. O
procedimento é rápido e
praticamente indolor. "Estou
confiante", diz
Peon.
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QUANDO
É BOM SENTIR
DOR
Claudio Rossi
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Há nove anos, a psicóloga e publicitária
Mara Gabrilli, de 36 anos, envolveu-se num acidente
gravíssimo de carro. Ela fraturou a coluna cervical
e ficou tetraplégica. Vários nervos que
controlam órgãos vitais foram afetados.
Mara perdeu todos os movimentos do pescoço para
baixo e passou dois meses num respirador artificial.
Foram duros anos de reabilitação. Mara
fez o que pôde para se adaptar à vida numa
cadeira de rodas. Em 1997, ela fundou a ONG
Projeto Próximo Passo, que trabalha para melhorar
o cotidiano do deficiente físico. "Nunca abandonei
o otimismo", conta. Quando ouviu falar que um grupo
de pesquisadores brasileiros estudava a injeção
de células-tronco para a recuperação
de lesões medulares, como paraplegia e tetraplegia,
Mara não titubeou em aderir ao projeto. Em pesquisas
internacionais com animais, o implante de células-tronco
na medula espinhal foi capaz de fazê-los voltar
a andar. O estudo desenvolvido pelo Hospital das Clínicas,
de São Paulo, e coordenado pelo professor Tarcísio
Pessoa de Barros Filho procura repor as
células da medula lesada. Elas
são extraídas, filtradas em laboratório
e reinjetadas no
local da lesão. Dos
trinta pacientes que receberam
o implante, dezoito apresentaram resposta positiva ao
exame de potencial elétrico evocado, que mede
a freqüência dos impulsos dos membros para
o cérebro. "Senti um aumento, ainda que pequeno,
da sensibilidade à dor", conta Mara. "Nunca
estive
tão otimista."
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"EU
ERA PELE E OSSO"
Claudio Rossi
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Há cerca de três meses, o operário
desempregado Leandro Simão Moreira, de
24 anos, começou a sentir-se fraco. Durante uma
partida de futebol com os amigos, seu coração
disparou e ele teve uma súbita falta de ar. Vieram,
então, a febre insistente, as náuseas
constantes, as dores de cabeça freqüentes
e a perda de peso. Em duas semanas, Moreira passou de
75 quilos para menos de 60. "Eu era pele e osso", lembra.
O diagnóstico: diabetes tipo 1, doença
auto-imune que transforma suas vítimas em escravas
das injeções diárias do hormônio
insulina. O mal se caracteriza pelo ataque do sistema
imunológico do próprio paciente às
células produtoras de insulina. Moreira tinha
de tomar várias injeções de hormônio
por dia. Assustado com o seu estado de saúde,
ele aceitou ser cobaia de um novo tipo de tratamento.
Moreira foi o primeiro paciente do mundo a submeter-se
a um transplante de células-tronco para o combate
do diabetes tipo 1. Pesquisadores da Universidade de
São Paulo, campus de Ribeirão Preto, coletaram
células da medula óssea no sangue de Moreira
e, em seguida, com drogas imunossupressoras, desativaram
o sistema imunológico dele. As células-tronco
foram reinjetadas no organismo do operário. Os
médicos esperam que elas reconstruam o seu sistema
imunológico e, desse modo, eliminem o diabetes.
"As chances de recuperação de Leandro
são muito altas", diz o pesquisador Júlio
César Voltarelli, coordenador do estudo. "À
medida que seu organismo aumentar a produção
de insulina, nós diminuiremos a dosagem do hormônio."
Outros doze transplantes iguais ao de Moreira já
foram autorizados pelo Ministério da Saúde.
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EM
DEFESA DO USO DE EMBRIÕES HUMANOS
O
grande símbolo da campanha pelas experiências
com células-tronco de embriões humanos
é o ator americano Christopher Reeve, de 51 anos.
Em maio de 1995, durante uma prova de hipismo, ele sofreu
uma queda. Imediatamente, Reeve perdeu os movimentos
do pescoço para baixo e parou de respirar. Ninguém
apostava em sua sobrevivência. Mas, dono de uma
obstinação extraordinária, Reeve
transformou-se em um caso único na história
da medicina. Atualmente, ele consegue respirar por algumas
horas sem a ajuda de aparelhos, identifica estímulos
que recebe no corpo e já recuperou alguns movimentos
dos dedos dos pés e de uma mão. Muito
de sua determinação vem da certeza de
que chegará o dia em que ele se beneficiará
da terapia com células-tronco e voltará
a andar. Sua esperança é tanta que ele
até criou uma fundação, com seu
nome, que visa a arrecadar investimentos para os experimentos
com células-tronco.
Quando
o presidente George W. Bush anunciou, em 2001, que o
governo americano não financiaria mais nenhuma
pesquisa com células-tronco de embriões
humanos, associações de doentes e de parentes
de vítimas dos mais diversos males e outros tantos
artistas se juntaram a Reeve contra o veto presidencial.
Entre eles, o ator canadense Michael J. Fox e a atriz
americana Mary Tyler Moore. Em 1998, aos 37 anos, o
astro da trilogia De Volta para o Futuro revelou
que sofria do mal de Parkinson, doença degenerativa
do sistema nervoso. Fox está entre os 4% do total
de pacientes que desenvolvem o mal antes dos 40 anos.
No mesmo ano, ele foi submetido a uma cirurgia no cérebro
com o objetivo de abrandar os sintomas mais severos
da doença. A cura, no entanto, não existe.
Outro nome de peso em defesa dos testes com células-tronco
de embriões humanos é a atriz Mary Tyler
Moore, estrela, na década de 70, de um seriado
de TV. Portadora do tipo 1 de diabetes, desde a juventude
ela vive à base de injeções diárias
de insulina. Para Mary, a esperança é
que um dia as células-tronco sejam capazes de
fazer com que seu organismo produza naturalmente esse
hormônio (veja
depoimento). No caso de Fox, espera-se
que as células-tronco substituam os neurônios
doentes por neurônios novos e ele recupere o controle
sobre seu corpo.
Apesar
de existirem células-tronco no cordão
umbilical de recém-nascidos e na medula óssea
de adultos, as experiências com as embrionárias
são de suma importância. Nenhum outro tipo
de célula-tronco é tão versátil
quanto elas. Acompanhar o desenvolvimento delas em laboratório
e estudar o processo pelo qual elas se especializam
é primordial para que os cientistas consigam
definir quais os genes e as substâncias envolvidos
nessa transformação.
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