Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Sociedade
Aulas de dona-de-casa

Tarefas domésticas, que antes
eram passadas de mãe para filha,
agora se aprendem em escolas


Rosana Zakabi

 
Oscar Cabral
Curso na escola As Marias, no Rio: a procura triplicou

Não faz tanto tempo assim. Nas famílias de classe média, toda moça tinha de conhecer as tarefas básicas da casa, como cozinhar, passar roupa, lustrar os móveis e costurar. Havia até uma disciplina nos colégios que ensinava como executar os serviços do lar. Hoje, ocorre exatamente o contrário. A maioria das jovens não tem idéia de como se prepara arroz ou feijão. Elas estão muito mais preocupadas com os estudos, os amigos e o namorado do que com as tarefas da casa. Com a entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho, a partir da década de 70, elas passaram a investir na carreira tanto quanto os homens, e os afazeres do lar foram deixados para o segundo plano. Como conseqüência, proliferaram agora escolas especializadas em ensinar aquilo que no passado era transmitido de mãe para filha. Há cursos em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre que mostram desde como se prepara uma lista de compras de supermercado até como se arruma a mesa para o jantar.

Na escola As Marias, que ensina a organizar a casa, o número de matrículas triplicou na última década. A filial de Brasília recebe 250 alunos por mês. No Rio de Janeiro, são 400. Na Escola Wilma Kövesi de Cozinha, em São Paulo, o curso mais procurado é o básico, para principiantes. "Antes, as aulas mais solicitadas eram aquelas que ensinavam a fazer pratos sofisticados, dignos de chefs", diz Elizabeth Kövesi Mathias, uma das donas da escola. "Hoje, as jovens vêm para aprender o trivial do dia-a-dia." A maioria das alunas tem cerca de 20 anos e vai se casar ou sair de casa para morar sozinha. São filhas de mães que passam o dia inteiro no trabalho e não têm tempo de ensinar o que sabem. Em sua casa, as tarefas domésticas ficam por conta da empregada.

Claudio Rossi
Daniela em sua casa em São Paulo: "Agora já sei o básico"


"Eu não podia nem orientar a empregada, pois não sabia explicar o que ela tinha de fazer", conta a paulista Daniela Girão, engenheira elétrica, de 31 anos, que se casou há três meses. Ela resolveu o problema freqüentando um curso de duas semanas em uma escola de São Paulo. Para quem trabalha fora o dia inteiro, a cozinha não é prioridade. Muitos casais almoçam em restaurantes e à noite pedem uma pizza ou descongelam pratos prontos no microondas. A preocupação maior é com as pequenas tarefas domésticas do dia-a-dia. "As alunas se interessam mais em saber o que devem ter na despensa, como se arruma a mesa de forma correta, ou como pendurar as camisas no closet", diz Adriana Cardoso, gerente da Agência Prisma, em Porto Alegre.

Quando a escola abriu, há dez anos, o curso era voltado para empregadas domésticas. Hoje, metade das alunas são as próprias patroas. "Só comecei a me preocupar com isso quando eu e meu namorado decidimos nos casar", diz a gaúcha Ana Maria Arruga, psicóloga de 26 anos. Com o casamento marcado para 2005, ela fez o curso na Agência Prisma no ano passado. Recentemente, o grupo Pão de Açúcar lançou um kit com três fitas de vídeo e uma revista que ensinam, passo a passo, como manter a casa em ordem. Chamado Lições de Casa, foi criado depois que uma pesquisa mostrou que ter um guia à mão explicando como realizar tarefas do dia-a-dia era um sonho de consumo entre as mulheres das classes A e B acima dos 25 anos.

 
 
 
 
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