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Justiça
Matança
chinesa
A
China só admitia 1 000 execuções por ano.
Sabe-se agora que passam de 10 000

Helena
Fruet
Fotos AP
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| Festival
de execuções públicas num estádio chinês: a família do condenado
paga pela bala usada na execução |
A
China não apenas é campeã em sentenças
de morte. Também costuma levar a cabo as execuções
de prisioneiros em praças de esportes e em outros locais
públicos. Nessas ocasiões, multidões são
reunidas para apreciar o festival de horror e, não raro,
vaiar os condenados em seus últimos momentos de vida. A única
incerteza nessa matança era a quantidade total de presos
executados a cada ano. O governo de Pequim admite oficialmente por
volta de 1.000. A Anistia Internacional, ONG que luta contra a pena
de morte, sustentava que o número deveria ser pelo menos
o dobro. O mistério foi desfeito na semana passada por um
deputado do Congresso do Povo, o parlamento da China e a
realidade revelou-se pior que a mais pessimista das estimativas.
O sistema judicial chinês mata mais de 10.000 pessoas por
ano, deixou escapar o deputado Chen Zhonglin numa conversa com um
jornalista de um jornal local em língua inglesa. Entende-se
agora por que o assunto era tratado como segredo de Estado. A montanha
de cadáveres produzida pelos tribunais chineses é
vinte vezes maior que a soma de todos as execuções
em trinta outros países com pena de morte e quase dez vezes
maior que o número oficial. Em 2002, o último dado
disponível, o governo chinês assumiu somente 1.060
execuções.
Uma
explicação para tal matança é o fato
de que 25% dos crimes definidos no Código Penal chinês
podem resultar em pena de morte. Isso inclui delitos considerados
leves nos países democráticos. Pessoas são
executadas por emitir cheques sem fundos, envenenar bois ou forjar
documentos. Nas sociedades modernas, o adultério é
considerado uma questão privada entre os cônjuges e
só chega aos tribunais em caso de divórcio litigioso.
Na China, a exemplo do que ocorre nos mais obscuros regimes islâmicos,
o adúltero arrisca-se a enfrentar a mesma pena capital prevista
para os homicidas. Para piorar, o sistema judicial chinês
é um dos mais injustos do mundo. Qualquer suspeito pode ficar
preso por até três meses sem acusação
formal. Em um de seus relatórios sobre a China, a Anistia
Internacional denuncia a chantagem e a tortura como meios de extrair
"confissões" dos suspeitos.
Durante o período de investigação, o preso
não tem acesso a advogados. Os julgamentos, muitas vezes
coletivos, são feitos poucos dias depois do encerramento
do inquérito, não dando tempo aos advogados de preparar
a defesa. Não é surpresa que, nessas circunstâncias,
94% dos julgamentos terminem com a condenação do réu.
A pena de morte é decretada em tribunais de primeira instância,
sem que o condenado tenha o direito de recorrer às cortes
superiores. O trabalho dos advogados acaba se limitando a um pedido
formal de clemência, quase nunca aceito. Há casos de
chineses julgados, condenados e executados em menos de duas semanas.
Entre a condenação e a execução do prisioneiro
podem decorrer menos de 24 horas. Nos Estados Unidos, que aparecem
em terceiro lugar no ranking das execuções legais
de prisioneiros, o cumprimento da sentença demora em média
dez anos. É o tempo necessário para o condenado esgotar
todos os recursos legais colocados a seu dispor pelo sistema judiciário.
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| Condenado
levado para o local da execução: os juízes chineses condenam
94% dos réus, que não têm direito de apelar da sentença |
Não
apenas se executa em grande quantidade na China. Também se
mata com humilhação. O governo costuma organizar rotineiramente
festivais em que os condenados principalmente os acusados
de corrupção são executados diante de
multidões para que sirvam de exemplo. Como ocorria com os
prisioneiros na Idade Média, eles são exibidos em
caçamba de caminhões, algemados. Muitos levam pendurados
no pescoço cartazes em que estão descritos os crimes
pelos quais foram condenados. Nos estádios, os espectadores
aplaudem cada vez que um policial dá o tiro fatal na nuca
de um condenado. A cena é transmitida ao vivo pelas televisões
locais. Em junho de 2002, numa reedição de suas campanhas
contra o crime, que são sinônimo de fuzilamentos em
massa, 64 acusados de tráfico de drogas foram executados
em celebração ao Dia Internacional contra a Droga.
Como é costume, o custo da bala usada na execução
foi cobrado dos familiares do morto.
Não
há limites éticos nas execuções chinesas.
É praxe que os condenados assinem ou sejam obrigados
a assinar um termo de doação voluntária
de órgãos. A Anistia Internacional denunciou recentemente
que os condenados passam por um exame médico antes da execução
e que imediatamente depois do tiro fatal seus corpos são
levados a hospitais para a remoção de órgãos
como rins e córneas. Como o costume funerário chinês
é a cremação, geralmente as famílias
nem chegam a se inteirar da mutilação do corpo. Devido
ao elevado número de executados, o transplante de órgãos
tornou-se um lucrativo negócio para os hospitais chineses,
que recebem pacientes de todo o mundo. Recentemente, dois chineses
foram presos nos Estados Unidos acusados de tráfico internacional
de órgãos. A investigação concluiu que
os órgãos haviam sido retirados de presos executados
e que o governo chinês autorizara a venda ao exterior.
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