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Ciência
Com
a força do pensamento
Cientistas
mostram
que humanos
podem mover objetos usando
apenas ondas
cerebrais

Ronaldo
França
Não
é ficção. Os seres humanos podem controlar
objetos robóticos usando apenas a força do pensamento.
Também não é um daqueles truques de paranormalidade
em cenários de fumaça e espelhos. O que os cientistas
desenvolveram foi um processo ainda em estado básico por
meio do qual conseguem captar o conjunto de sinais emitidos por
centenas de neurônios, simultaneamente, no momento em que
uma pessoa pensa e realiza um movimento. Os neurônios produzem
descargas elétricas. A ordem com que eles disparam essas
descargas informa ao corpo o tipo de movimento que ele deve fazer.
Os pesquisadores descobriram uma maneira de gravar essa seqüência
em linguagem de computador. Esse trabalho é feito por um
supercomputador, de capacidade idêntica à dos que são
usados nos grandes aeroportos, para o controle de pousos e decolagens
dos aviões. O resultado foi a criação de comandos
capazes de determinar, por exemplo, que um braço robótico
execute uma ação tal como ela foi elaborada pelo cérebro
humano. Se uma pessoa estiver conectada ao equipamento por cabos,
esses movimentos podem ser produzidos instantaneamente. Por enquanto,
as experiências são feitas com os voluntários
na mesa cirúrgica, com o cérebro exposto. Os sinais
emitidos pelo cérebro são gravados em CD.
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| Voluntário
faz movimentos com a mão enquanto seu cérebro
é monitorado |
Experimentos
semelhantes já vinham sendo realizados com macacos havia
pelo menos quatro anos. O salto espantoso agora foi reproduzir a
experiência com voluntários humanos. O resultado será
relatado na edição de julho da revista americana Neurosurgery,
a mais influente publicação de neurocirurgia do mundo.
O anúncio oficial ocorrerá nesta terça-feira,
nos Estados Unidos. A pesquisa foi feita pela Universidade Duke,
na Carolina do Norte, sob a responsabilidade do brasileiro Miguel
Nicolelis, chefe do laboratório de neurofisiologia, e do
neurocirurgião americano Dennis Turner. Há seis anos
Nicolelis dedica-se a entender os mecanismos cerebrais que comandam
os movimentos humanos e a buscar uma forma de codificá-los
em linguagem digital. O projeto foi orçado em 26 milhões
de dólares, dos quais 10 milhões já foram consumidos.
O primeiro experimento do tipo ocorreu com ratos. Mas o estudo foi
mundialmente reconhecido quando, em 2000, se conseguiu fazer com
que macacos operassem um braço mecânico usando apenas
ondas cerebrais. O trabalho mereceu destaque numa reportagem sobre
as dez tecnologias que, no futuro, teriam maior impacto no mundo,
publicada pela respeitada revista Technology Review, do Instituto
de Tecnologia de Massachusetts (MIT). A descoberta de Nicolelis
foi considerada a mais promissora entre as técnicas que promovem
a interação do cérebro com as máquinas.
No
mês passado, o projeto finalmente chegou à etapa de
testes com humanos. Nicolelis e sua equipe conectaram o dispositivo
durante cinco minutos em pacientes que estavam se submetendo a cirurgias
para o tratamento do mal de Parkinson, no Centro Médico da
Universidade Duke. Esse tipo de operação foi escolhido
porque nela, além de ter o crânio aberto, o paciente
deve permanecer acordado. Os cientistas aproveitaram pequenos intervalos
dessas cirurgias para testar o procedimento. Um conector com microfios
tão finos quanto fios de cabelo foi inserido alguns centímetros
em uma das regiões do cérebro responsáveis
pelos movimentos do corpo. Foram conectados cinqüenta neurônios.
Os pacientes então tiveram de mover uma figura pela tela
de um monitor usando uma espécie de mouse. Como se tratava
de uma sala de cirurgia, a experiência foi realizada em duas
etapas. Ou seja, os pacientes não estavam diretamente ligados
a um braço mecânico. Apenas ao computador. Os impulsos
elétricos dos neurônios que comandaram suas ações
foram captados e gravados em um CD. Posteriormente, o "programa"
foi rodado em um computador no laboratório de Nicolelis.
A atividade elétrica registrada gerou, na tela do computador,
um movimento da figura semelhante ao realizado na sala de cirurgia.
O
feito é extraordinário. O cérebro, a última
grande fronteira da biologia, tem sido vasculhado com uma voracidade
nunca antes vista. A conjunção de conhecimentos das
mais diversas áreas contribui para isso. A física,
a psiquiatria, a química, a neurologia e a engenharia, entre
outras especialidades, trabalham juntas no desafio de entender os
fenômenos cerebrais. O experimento em curso na Universidade
Duke é um exemplo desse somatório de especialidades.
Espetacular em si mesmo, ele abre caminho para desenvolvimentos
futuros ainda mais impressionantes. Tome-se o caso de uma pessoa
atingida fortemente por uma doença degenerativa, como o do
mundialmente conhecido astrofísico inglês Stephen Hawking.
Ele só consegue movimentar os dedos de uma das mãos,
que usa para acionar um sintetizador de voz acoplado a sua cadeira
de rodas. Se o experimento de Nicolelis tiver a seqüência
prática esperada, é razoável imaginar que um
dia doentes como Hawking poderão comandar braços e
pernas robóticos usando apenas ondas cerebrais.
Divulgação
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| O
cientista brasileiro Nicolelis com uma das cobaias animais:
controle remoto |
Pessoas que tenham deficiência física grave como a
tetraplegia, em que não se mexe nenhuma parte do corpo abaixo
do pescoço, serão as primeiras beneficiadas com a
pesquisa feita na Universidade Duke. O primeiro implante de um chip
para o controle dos equipamentos pelo cérebro deverá
ser feito ainda neste ano. Utilizará ondas de rádio,
em uma tecnologia semelhante à empregada atualmente nos telefones
celulares e em outros aparelhos que se comunicam sem fio. O sinal
emitido poderá ser captado por um microcomputador ligado
ao equipamento que se quer comandar. Ou seja, num horizonte de poucos
anos será possível controlar máquinas, eletrodomésticos
ou a própria cadeira de rodas somente imaginando o que eles
devem fazer. "Há apenas seis anos, imaginávamos que
levaríamos mais de cinqüenta para chegar aonde estamos
hoje. A própria tecnologia abre caminhos inesperados", afirma
Nicolelis.
A
interação com outras tecnologias igualmente fascinantes
amplia ainda mais os horizontes do avanço obtido pela Universidade
Duke. A mais promissora dessas tecnologias vem do MIT. O cientista
Mandayam Srinivasan, do laboratório de interface táctil
para humanos e máquinas, produz, neste momento, equipamentos
que complementarão o trabalho de Nicolelis. São protótipos
dotados de uma forma de inteligência autônoma. Braços
mecânicos que identificam distâncias até seu
objetivo e corrigem os movimentos. No caso de uma xícara
de chá, por exemplo, será possível segurá-la
com firmeza e precisão ao mesmo tempo. Outra novidade que
está sendo gestada no MIT é o sensor que transmitirá
ao cérebro do usuário sensação tátil
no momento em que o robô encostar no objeto. Embora pareçam
inimagináveis, esses avanços já estão
sendo testemunhados nos laboratórios de ponta ao redor do
mundo. No Japão, robôs capazes de executar movimentos
tão complexos como números de malabarismo e danças
folclóricas já são uma realidade para os cientistas.
Outra linha de estudos promete fazer com que esses robôs também
possam ser operados pelo cérebro humano. Mas este, sim, é,
por enquanto, exercício de futurologia.
A
idéia de controlar objetos usando a força do pensamento
sempre empolgou os ficcionistas. Seu grande momento no cinema veio
no fim da década de 70, no filme Guerra nas Estrelas,
a saga criada pelo diretor americano George Lucas, na qual guerreiros
jedi lutam contra as forças do mal. Uma de suas armas era
justamente a capacidade de fazer levitar naves espaciais ou projetar
ferozmente espadas contra o inimigo apenas com a força da
mente. Vários outros filmes exploraram o tema, como o seriado
americano Arquivo X, no qual poderes semelhantes eram obtidos
com a implantação de chips no cérebro. Agora,
essa possibilidade, mesmo embrionariamente, saiu das telas.
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