Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Congresso
Brasileiríssimo

Sem dinheiro e com fome, homem invade
o Senado, ganha 240 reais e acaba assaltado

Na terça-feira passada, Edivaldo de Lima Araújo, um baiano de 35 anos que mora numa cidade vizinha a Brasília, subiu nas galerias do Senado e ameaçou jogar-se lá do alto, despencando no plenário 6 metros abaixo. Foi o modo que Edivaldo Araújo encontrou para protestar contra sua precária situação econômica. Antes que se machucasse, ele foi capturado pelos seguranças do Senado e levado à presença de um grupo de senadores, que tiveram a oportunidade de ver de perto esse brasileiro como tantos outros. Araújo está desempregado (como 10 milhões de brasileiros), reclamou que vinha passando fome (como algo em torno de 30 milhões de brasileiros) e não tinha condições de sustentar sua mulher e os dois filhos pequenos com uma pensão de 120 reais por mês (faixa de renda de 1 milhão de famílias brasileiras). Há dois anos, ele não consegue colocação com carteira assinada (tal como 41 milhões de brasileiros), numa situação dificultada pelo fato de não ter completado o ensino fundamental (como 29% dos brasileiros com mais de 25 anos). Brasileiríssimo, esse Edivaldo Araújo.

 
Ana Araújo
Edivaldo, a mulher e os dois filhos em sua casa: ainda sem emprego

Os senadores ficaram chocados com o desespero do baiano. Depois de passar por um exame médico e receber um copo de suco de uva, Edivaldo ganhou um presente. Os senadores cotizaram-se para lhe fornecer algum dinheiro. Cinco senadores recolheram a soma de 240 reais. Cada um entrou com 50 reais, sendo que o presidente da Casa, senador José Sarney, contribuiu com 40 reais, na forma de duas notas de 20. A cota de cada senador corresponde a menos de 0,5% do salário que recebem no Senado. Além disso, porém, Sarney prometeu tentar conseguir um emprego para o brasileiro, talvez no próprio Senado ou numa das empresas que prestam serviço à Casa. Até sexta-feira passada, no entanto, três dias depois do episódio, Edivaldo Araújo seguia desempregado. Seguia, também, sem os documentos que pretendia tirar com parte dos 240 reais que ganhou dos senadores. Diz Edivaldo que, no caminho de volta para casa, foi assaltado por três homens (um tipo de violência tão corriqueiro que nem dispõe de estatísticas confiáveis). Os assaltantes deixaram-no com apenas 50 reais. Brasileiríssimo, esse Edivaldo Araújo.

 
 
 
 
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