Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Administração
O lixo que é um
verdadeiro luxo

Por que coletar lixo em São Paulo é
muito mais do que fazer um serviço sujo


Felipe Patury e Sandra Brasil


Mario Rodrigues

A cidade de São Paulo produz a cada dia 9.000 toneladas de lixo. Coletar e aterrar essa montanha de detritos é uma operação de logística complicada e custo altíssimo. O serviço oferecido atualmente deixa muito a desejar e, a pretexto de melhorá-lo, desde o ano passado a prefeita Marta Suplicy, do PT, criou mais um tributo, a taxa do lixo – o que lhe valeu o apelido de "Martaxa". Com o dinheiro arrecadado, divulga a prefeitura, será possível estender a coleta e construir outros aterros, porque os disponíveis estão próximos da saturação. Como não tem meios próprios para realizar o trabalho, a prefeitura de São Paulo continuará entregando-o a empresas privadas, escolhidas por licitação. Deverão ganhar a concorrência pública que está em andamento aquelas que provarem ser mais capazes e menos custosas.

Deverão ou deveriam? Na distância entre esses dois tempos verbais, o futuro do presente e o futuro do pretérito, mora a desconfiança que levou políticos de oposição e empresas contrariadas a contestar a licitação. Seus termos são mesmo pouco usuais. As empresas vencedoras explorarão o serviço por vinte anos, renováveis por mais vinte. Ou seja, os contratos poderão ser válidos até 2044. O usual é que uma concessão dessas não ultrapasse cinco anos. O valor total a ser pago pela prefeitura é de 9 bilhões de reais, um dos maiores negócios realizados no Brasil recentemente (veja quadro).


Agliberto Lima/AE
Joel Silva/Folha Imagem
A prefeita Marta Suplicy: mais uma dor de cabeça Rogério Buratti: um personagem onipresente quando o assunto é PT

O prazo dilatado, afirma a prefeitura, se justifica porque a construção dos aterros sanitários é muito cara. Esticar o tempo de concessão por vinte anos significa diluir os custos por todo aquele período, necessariamente pagos pelos contribuintes de hoje e do futuro. Para se ter uma idéia, os consórcios vencedores investirão nessas obras 1 bilhão de reais nos próximos quatro anos. Esse procedimento de dilatar prazos é comum em outras cidades. A peculiaridade de São Paulo é reunir, numa mesma concessão, a construção de aterros sanitários e a exploração da coleta. Em Salvador, por exemplo, o aterro foi licitado por vinte anos. Já a coleta, por apenas cinco. "É ruim deixar tudo na mão de pouca gente por um prazo tão longo", diz Washington Novaes, especialista no setor.

Os vencedores deveriam ter sido conhecidos há seis meses, mas o processo empacou numa guerra judicial, que virou uma dor de cabeça para Marta Suplicy. As denúncias começaram antes da publicação do edital. Uma empresa, a SPL, divulgou três cartas com acusações. Afirmava que a licitação era dirigida e que a prefeitura pagaria caro demais pelo serviço. Mandou cópia até para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esqueceu tudo depois que ingressou num dos consórcios habilitados para a disputa. Entre os seus sócios está a Vega, que a SPL tinha acusado de ser uma das beneficiárias da suposta maracutaia. "Na época em que denunciamos, ainda não havia nem edital. Mas tudo mudou", diz Sandra Unterkircher, da SPL. Outras denúncias ainda assombram a administração petista. Uma delas foi feita por Enio Raffin, um técnico que afirma ter havido vazamento de informações. Ele diz que sabe quem ganhará a licitação e outros detalhes confidenciais. Raffin conta que registrou o nome dos ganhadores em cartório e patrocina uma ação para suspender a concorrência. Como são só três os concorrentes e serão apenas dois os ganhadores, as combinações são poucas. Não é impossível que Raffin tenha registrado todas elas, o que desqualificaria sua ação.

É lixo demais no ar-condicionado da prefeita Marta Suplicy. Descobriu-se que seu secretário de Infra-Estrutura, Roberto Bortolotto, era sócio da empresa LOT, que também está na licitação. Ele alega que deixou a LOT antes de entrar na equipe de Marta. Na última semana, surgiu outro dado curioso. Veio à tona o fato de a empresa Leão & Leão disputar a varrição das ruas de São Paulo. É um negócio de 350 milhões de reais em cinco anos, a ser dividido entre 31 empresas. O vice-presidente da Leão & Leão é uma fera: Rogério Buratti, que foi secretário da prefeitura de Ribeirão Preto quando o alcaide daquela cidade do interior paulista era o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Buratti foi demitido por Palocci em 1994, porque estava envolvido no que seria uma – atenção, leitor – licitação dirigida. A Leão & Leão abocanhou contratos em sete cidades, das quais cinco são ou foram administradas pelo PT. O nome de Buratti aparece nas investigações do escândalo dos bingos e loterias protagonizado por Waldomiro Diniz.

 

Grandes negócios

Supermercados, telefonia? Nenhuma transação recente se compara a catar o lixo dos paulistanos

Compra do Bompreço pelo Wal-Mart
870 milhões de reais

Compra da Embratel pela Telmex
1 bilhão de reais

Compra da BCP pela Telmex
1,8 bilhão de reais

Concessão para a coleta de lixo em São Paulo
9 bilhões de reais

 
 
 
 
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